"A capacidade destrutiva do indivíduo, por mais perverso que este seja, é pequena; a do Estado, por mais bem intencionado que seja, é quase ilimitada." -Paul Johnson / Comentários: silva.joaocarlos@hotmail.com

Quinta-feira, Setembro 02, 2004

A short farewell

O tédio derrotou-me. Sinto uma certa pena da minha irrisória paixão por este blog. Fica a memória, à espera de ser recuperada. Mas sinto necessidade de escrever.

Fico por cá: no LUSITANO.

Domingo, Agosto 08, 2004

Folga



Toda a gente necessita de descanso. O próprio blogue necessita de uns dias longe de mim. Assim, tiro uns dias de folga. O blogue e eu. Umas férias burguesas. Até lá, refugio-me aqui.

Forget What Did

Stopping the diary
Was a stun to memory,
Was a blank starting,

One no longer cicatrized
By such words, such actions
As bleakened waking.

I wanted them over,
Hurried ti burial
And looked back on

Like the wars and winters
Missing behind the windows
Of an opaque childhood.

And the empty pages?
Should they ever be filled
Let it be with observed

Celestial recurrences,
The day the flowers come,
And when the birds go.

Philip Larkin, High Windows

A classe de 1974

As fórmulas paradisíacas da felicidade pela revolução, a que sucederam as manifestações de paranóia no poder da era gonçalvista e do socialismo da miséria da administração soarista, fariam hoje sorrir se não fossem a catástrofe que precederam ou trouxeram. A classe política, saída da Revolução de Abril, há-de, entretanto, continuar a defender os seus interesses com unhas e dentes, inventando novas receitas de sobrevivência e sacrificando até, se tal for necessário, parte dos seus leaders "carismáticos" de ocasião: o que sucedeu ao "inocente útil" Spínola, ao tenebroso "Mr. Cork", ao dementado "companheiro Vasco", ao folclórico Otelo, pode amanhã passar-se com o "burguês satisfeito" Dr. Soares ou o revenant Major Antunes.

Jaime Nogueira Pinto, Fascismo em Rede

Sábado, Agosto 07, 2004

A náusea

No bar, esperando que todos adormeçam e a rua fique deserta.
Olhando o canto escuro do salão, torturado pela voz de Björk.

Outono



Ezra Pound
Henri Cartier-Bresson, 1961

Eternity (For Men)

Ela deu-me eternidade
em papel de aniversário
embora não fossem os meus anos.
Fez-me mal, agora
que o cheiro dela e o meu
já se tinham misturado.
Prenda de namorados, o símbolo
era ilusório,
e o amor acabou antes ainda
do frasco.

Pedro Mexia, Avalanche

Sexta-feira, Agosto 06, 2004

Artista de passeata

Já dizia Nélson Rodrigues: «artista não pensa». Mas opinião não é regra e, como tal, os artistas têm de estar com o povo, «pensar» com ele. Pearl Jam, Bruce Springsteen, R.E.M. e muitos outros decidiram juntar-se à «procissão» anti-Bush, que já dura desde, digamos, 2000. Ou seja, desde o primeiro momento em que George W. Bush apareceu, já era o «republicano belicista», o «cowboy texano», o «macaco», o «burro». Coisas que são, diariamente, realçadas pelos senhores das guitarras e das vozes invulgares que parecem generosamente juntar-se a uma considerável parte dos americanos numa uníssona voz de protesto ébrio, por entre bebida e urros animalescos. Os referidos artistas decidiram, então, juntar-se numa tour «independente» (claro, claro) contra o actual Presidente dos Estados Unidos. A tour chamar-se-à, sem surpresa e sem precisão, America Coming Together, significando, naturalmente: o povo americano não gosta de George Bush. Artistas representando o povo num país democrático...

Sartre sentiu necessidade de recusar o Nobel para ser um pouco melhor aceite. Certos poetas portugueses eram «bons poetas» porque dirigiam poemas não tão bons contra o regime salazarista. Agora, à entrada do séc. XXI, há um novo tema artístico: Bush. No dia em que Bush descer da Presidência, os artistas deixam de tentar pensar e voltam ao que sabem fazer. Porque artista não pensa, e se pensa é, invariavelmente, de esquerda. Or so it seems.

Quinta-feira, Agosto 05, 2004

Representação



Jacques-Louis David, Napoleon Crossing the Saint Bernard, 1800-01

Sombra da loucura

Fim da noite. A madrugada parece ameaçar rebentar cedo. Caminho para casa pelas ruas da cidade, submersas num insuportável odor a lixo. No meio da avenida, vejo uma figura. À medida que me aproximo do local, decifro a visão: uma mulher descalça no alcatrão da estrada assobia o hino nacional, perto de um monumento aos combatentes da Primeira Guerra. Quando me vê, isolado na rua já de si deserta, vocifera pequenos impropérios quase inaudíveis. Dirige-se a mim assobiando. Acelero para casa, ouvindo os passos e o assobio nas minhas costas, cada vez mais perto. Entro em casa e fecho a porta rapidamente, ouço o inofensivo assobio passar. Penso nos combatentes que tombaram. Penso no hino. Penso na mulher. Penso em Kubrick e Hitchcock. Penso, sobretudo: vejo filmes a mais.

Terça-feira, Agosto 03, 2004

«Santo» Ernesto de la Higuera

Guevara é um símbolo. Contra isso nada posso fazer. Mesmo se me empenhasse a fundo na desmistificação do homem, não o poderia retirar do pedestal inalcancável a que já acedeu. É, literalmente, o eterno «Cristo» dos marxistas. Com direito a emboscada e a «crucificação».



Ernesto Guevara nasceu na Argentina a 14 de Junho de 1928, e a sua existência estava destinada a ser dedicada, não ao seu país de nascença (suponho que não tolerasse Perón), mas a outros. Entre eles: Cuba. Tendo sido o «braço direito» de Fidel Castro na Revolução de 1959, Ernesto «Che» (assim o chamavam em redor da fogueira) Guevara obteve, dir-se-ia, o (não «um», mas «o») lugar de destaque no regime castrista, ultrapassando, em fama, carisma e apoio popular, o próprio Fidel.
Seguidor fiel da linha marxista-leninista, era, no entanto, algo desconfiado quanto às palavras oriundas de Moscovo na era de Estaline e mesmo de Khrustchev, ou seja, das «indicações» que vinham da União Soviética e, escusado referir, do PCUS. Desconfiado, mas não desiludido.
Acordem os senhores e senhoras que ainda dão algum crédito a «Che» Guevara pela sua «determinação», pela sua «persistência», «coragem» ou qualquer outra ilusória virtude do líder, do homem que se rebela contra as injustiças (claro...) do seu país, contra o poder instituído ilegitimamente. «Che» prometia o poder ao povo. Devolvê-lo. Lenine também o havia prometido... tal como Estaline...
Em 1965, partiu de Cuba, rumo ao horizonte longínquo da vitória do socialismo no Mundo. Passou pelo Congo, prometeu aos africanos a desconhecida «democracia». Era a primeira forma de «democracia» que conheciam, apesar do mitigado imperialismo belga. Foi frustrado na sua senda «missionária».
Em 1967, partiu para ajudar guerrilheiros bolivianos e dar o seu próprio contributo. Afinal, o aspirante a médico, o genial líder, o romântico argentino, o generoso jovem da Revolução de 1959 apenas se sentia bem num ambiente: o de contínua revolução e banho de sangue. Matou camponeses bolivianos que não sabiam onde ficavam, sequer, a própria Bolívia. «Che» gostava de andar armado e com mapas das selvas sul-americanas. Resolveu partir para a Bolívia para «seduzir» (à sua maneira muito própria e soviética) os indígenas à Revolução. Nunca de lá voltou a sair. Ficou na Bolívia. Em 1967 foi morto em guerrilha.
Guevara não era um guerrilheiro, era um terrorista. Não era um romântico, era um capataz de uma variação pouco variada do estalinismo. Criticava a URSS, porque queria ser pior. Não gostava das purgas ou dos campos soviéticos, porque queria poupar os partidários do comunismo e duplicar as sevícias aos que ainda não tinham sido esclarecidos pela sua acção propagandística liderada por guerrilheiros e carros de combate (quando os havia). Em suma, queria um comunismo mais comunista, mais adaptado à realidade da pobreza da América do Sul. Mas a sua preocupação pelos «pobres» era muito própria: era uma missão apenas levada a cabo com traje de combate e arma de fabrico soviético. O único vermelho que espalhou foi o do sangue dos que não o seguiam. Por isso é um Jesus Cristo. Mas sem conhecer o perdão.

Segunda-feira, Agosto 02, 2004

Uma flor de obsessão

Eu e o Bruno, em procissão habitual e dolente, procuramos a biografia de Nélson Rodrigues, escrita por Ruy Castro. Já sem esperanças, também como habitualmente, paramos na saída de uma pequena livraria. O Bruno demora-se, eu não. Bafejado pela sorte, vejo o livro. Sou mais rápido. Pensando em Darwin e na sobrevivência das espécies, torno-me frio e cruel. Deixo o Bruno de mãos a abanar. O Anjo Pornográfico, desta vez, é meu.

Negligente

Continuo na vaga de entusiasmo do Lusitano. Escrevo por lá (pouco), e vou negligenciando esta casa. O Metamorfopsia vai cambaleando, mas está saudável.

Domingo, Agosto 01, 2004

Cismando

Ontem à sombra dos plátanos
Daquela extensa avenida
Sentia-te comovida,
Tremer... corar.
Ia a falar-te mas - Cala-te -
Disseste, com voz maviosa,
- Quero, nesta hora saudosa,
Quero cismar.

Júlio Dinis

Sexta-feira, Julho 30, 2004

Voto Universal

Do outro lado do Atlântico, Kerry, num discuso «brilhante e cristalino», promete «trazer de volta a democracia» (tradução livre de bring back OUR democracy). Por cá, também se faz campanha: ao que parece, e alheio à minha compreensão, a mulher de John Kerry é-nos «próxima» e Moçambique faz «parte do imaginário americano». Como dizia o Paulo, parece que, nas eleições americanas, todo o Mundo vota. Parece-me, também, que isso seria possível e apoiado, desde que não se votasse nos republicanos.

Falsa elegia

Atenção. O Sócrates que Platão idolatrava morreu há alguns milénios, e já não volta.

Recordação plangente



Edward Hopper, Hotel Room, 1931

O serviçal

Um dia virá o cansaço. Deixar-me-ei cair numa cadeira, bem no centro do quarto. E daí, com vista para todas as paredes, não mais precisarei de me levantar.

Quinta-feira, Julho 29, 2004

Fragmento

Flutuas num sonho, beijando a realidade. Tudo à tua volta se desmorona. Tudo cai, desenhando uma ilha em teu redor.

Quarta-feira, Julho 28, 2004

O amigo napoleónico

Finalmente chegam. Após uma pequena querela com o (espesso) véu burocrático dos Correios, consigo deitar as mãos A Europe: a History, de Norman Davies, e a Napoleon, de Paul Johnson. Este último tem especial destaque, por três coisas: por ser sobre Napoleão, figura inigualável na construção da Europa Contemporânea e do legado republicano (não admiro por qualquer um dos «feitos»), e grande figura histórica, simplesmente; por ser de Paul Johnson, historiador por quem nutro alguma admiração, não pelos livros, que só agora tenho oportunidade de ler, mas sobretudo pelos artigos, soltos, que vou lendo naquela que chamam a «melhor revista do Mundo»; e, finalmente, pelo intrigante «prefácio» que João Pereira Coutinho havia feito uma vez ao livro do excelso Paul Johnson. Sobre as duas últimas pouco há para dizer, quase toda a gente concordará. Mas sobre Napoleão há algo a dizer.

Napoleão não deveria ser admirado como actualmente é. Eu admiro-o e não sei bem porquê. É uma figura «enorme» da História, da Política e da História Militar da Humanidade. Poucos foram como ele, e chegaram onde ele chegou. Eu não gostava especialmente de Napoleão. Ainda hoje sei porquê, mas passei, involuntariamente, a ter alguma admiração pelo há muito falecido francês. Porquê? Pela televisão. Pelo altar da televisão. Napoleão foi feito, nas séries e documentários, herói da «modernidade» da Europa. Herói do fim definitivo das amarras absolutistas e das «neuras» revolucionárias. Não foi. A verdade é outra.

Os sucessos de Napoleão são muito diferentes. Não derrotou o absolutismo - impediu, simplesmente, com alguns congéneres militares revolucionários, que a monarquia evoluísse para um regime constitucional. Não acabou com a Revolução - em vez disso, prolongou-a sob o seu «reinado», mas com ordem, ou seja, instaurou uma espécie de «revolução contínua». Mas esse não é o seu sucesso. Napoleão conseguiu, pura e simplesmente, o que queria, sempre sob a bandeira da «Pátria Francesa». Esta é a lição da sua vida.

No entanto, para o leigo da contemporaneidade, as figuras históricas surgem com uma aura diferente. São-nos mostrados como heróis no seu próprio «campo de batalha», nunca no nosso. 'Che' Guevara, Fidel, Luther King, Mandela, Gandhi e até Lenine são representados de forma romântica, exaltada e infantilmente exagerada. Com um nauseabundo cheiro a mentira. Assim, Napoleão Bonaparte surge-nos, na televisão (em especial na série em que é representado por Clavier), como um líder ideal, forte e confiante, e no qual todos podiam confiar, que é, continuamente, traído por Tayllerand, Fouché, irmãos e generais. É o puro contra os «outros». É por isso que todos gostam dele. Por isso e pelas vitórias. Nada mais. Napoleão não salvou o Mundo. Napoleão não o melhorou. Napoleão não foi um grande homem. Mas foi, sem dúvida, um grande líder. E essa rica matéria de «conto» é impossível passar despercebida. Mesmo a mim.

O nº 3

Leio no Público de ontem um pequeno artigo sobre Marques Mendes e o PSD. sobretudo, fica clara uma ideia (que me era alheia): Marques Mendes era, naturalmente, o nº 3 do partido antes da saída de Durão Barroso, em especial afirmada no Congresso de Fevereiro de 2000, onde atingiu, sensivelmente, os 16%, depois de Durão Barroso e Santana Lopes.
Na mediocridade das possíveis escolhas, vejo em Marques Mendes o «modelo político» ainda «seleccionável» para uma nova liderança. Se tudo correr bem, Santana deixará um bom legado para a corrida de Marques Mendes, que bem admiro.

Terça-feira, Julho 27, 2004

Vox populi

Acendo a televisão e vejo o impensável. Impensável... Na Sky, Hillary Clinton faz campanha pela «dupla» Kerry/Edwards, falando dos problemas da «América» (falando em nome da «Nação», não do país), do «comprometido» futuro das «crianças da América» e da «ameaça constante» que representa o actual Presidente George W. Bush para esse mesmo futuro. Pouco depois do populismo da oratória de Hillary, prepara-se uma outra entrada: sob o rufar de tambores e de uma música grandiloquente, entra em cena Bill Clinton. Abraça Hillary e prepara-se para o discurso: um prefácio para a demagogia de Kerry. Penso duas vezes. A situação não era impensável, era obviamente previsível. Não aguento, mesmo que pelo humor. Apago a televisão. Vou dormir...

Segunda-feira, Julho 26, 2004

Kubrick



É difícil qualificar Stanley Kubrick (1928-1999). Não o homem, mas o Kubrick que todos conhecem. O realizador. O génio. O génio que nasceu, precisamente, a 26 de Julho de 1928. Esse, sim, merece os melhores elogios. Não os elogios de ocasião. Mas os angustiados elogios de quem foi tocado pela obra «enorme» de Kubrick, e não poderá esperar mais obras de arte como as anteriores.

Entre as suas obras está uma que é, talvez, para mim, a melhor ou uma das melhores da história da cinema: A Clockwork Orange. Apenas este filme seria suficiente para o colocar no lote de nomes inatingíveis. Também Paths of Glory, o Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb e Barry Lyndon, são obras de culto que estão entre os meus favoritos. Outras como 2001: Space Odyssey, por exemplo, não são das obras que prefiro, mas ainda assim revelam a acuidade de Kubrick.

Nasceu a 26 de Julho.

Domingo, Julho 25, 2004

Constable



John Constable, Hampstead Heath, Looking Toward Harrow, 1821

Sábado, Julho 24, 2004

A dor humana

Afinal o que faz um «génio» nas «artes»? O próprio conceito é ambíguo e muito dado ao entendimento subjectivo e contextual. Um grande pianista, um «sobredotado», pode tocar todas as peças de Rachmaninov sem partitura e, ainda assim, não ser um «génio». E porquê?
Porque o que transforma a espectacularidade em genialidade é o sentimento. Até o mais excelso ser humano pode atingir níveis inumanos no que faz e nunca atingir a genialidade, isso porque não sofre pelo que faz. Gauguin queria ser ofendido. Queria dor, baixeza de modo de vida e exotismo. Em suma, queria sofrer para poder pintar melhor. Não o conseguia. Van Gogh, no entanto, «conseguia». Aliás, van Gogh queria deixar de sofrer. Gauguin queria sofrer como van Gogh, e este queria deixar de ser louco. Gauguin queria ser miserável, van Gogh queria deixar de o ser, sem sucesso (era a sua sina). Apenas um deles era miserável, apenas um deles foi um génio na sua pintura: Vincent van Gogh.

No fado, a mesma coisa. Mariza é, hoje, sem dúvida, uma das grandez «vozes» (note-se a despersonalização) da música portuguesa. Sobretudo, é uma voz honesta e pouco popular. Eu gosto de a ouvir. Amália também cantava, mas cantava a sua vida, a sua infância, a sua adolescência. Mariza não. Mariza canta bem. Amália podia, até, cantar mal, que transmitia sentimento, mesmo que pretenso. Não quero tecer comentários torpes à bastante notável Mariza, mas a jovem não sofre, logo está a um passo da genialidade, inatingível dessa forma.

Até no futebol, a mesma coisa. O melhor do Mundo é (ou foi) Pelé. Mas Pelé era levado pela ambição. Subiu na vida. Aos 20 anos tinha o Mundo aos pés e sabia-o. Não passava fome. Não antecipava o seu fim, que nunca chegou. Garrincha, no entanto, era um miserável. A sua única ambição era não passar fome. Conseguiu-a e continuou a jogar futebol, «até saber fazer outras coisas». Era a única coisa que sabia fazer. A sua vida, triste, não o levou mais alto e mais longe. Levou-o apenas ao fim triste que se conhece. Isso faz dele um génio. Que Pelé não é. E do qual Figo é a antítese, ou seja, o «jogador racional», o «executivo de chuteiras» (plágio da expressão de JPC).

Qualquer destas personagens teve a «sina». Em vez da morte sumária e aclamada que outros terão, estes (os génios) morreram cedo. Cedo e, no entanto, parece que começaram a morrer no dia em que nasceram, mais do que qualquer outra. O presságio da desgraça esteve sempre presente em tudo o que faziam, mas em especial no que gostavam e sabiam fazer. O presságio e a representação da dor humana. E é por essa dor, e essa genialidade, que são amados.

Não sabem o que fazem

Perdoa-as Senhor, que elas não sabem o que fazem. Não sabem nem pensam nisso. As funcionárias (e funcionários) públicas. No seu pequeno feudo por detrás do balcão, nem da corrupção estão livres. Provavelmente cidadãos problemáticos, acabam nos balcões e telefones. Ultrapassado (ou não) o falhanço da carreira, aproveitam para tratar os ignorantes, em busca de informações, como servos da gleba.
Perdoa-as Senhor, por responderem com três palavras a uma pergunta difícil enquanto tapam o bocal do telefone, fazendo esperar um outro desgraçado. Perdoa-as, ainda, por permitirem que o «sôtôr» e o «sô engenheiro» passem à frente dos demais bípedes. E ainda por responderem a perguntas com mais perguntas, dignas de Torquemada. E, sobretudo, por as responderem como se lhes devessem milhares de euros.
Perdoa-as Senhor, porque não sabem o que fazem. E porque não fazem o que sabem.

Sexta-feira, Julho 23, 2004

Sócrates e a reacção salvífica

A histeria é conhecida. Sai um líder fraco, enfraquecido ou fraquejante - Ferro Rodrigues - e prepara-se para entrar um outro que, à sombra dos «clássicos» do PS, foi herdando apoios e «clientela» - José Sócrates. Desanimados, os socialistas procuram um novo fôlego. Ora, Sócrates é visto como um trunfo. Quanto tudo falha, a mais pequena «renovação» é uma grande vitória. Como disse, sai um político em fase descendente, entra outro em ascensão. Ferro por Sócrates. E, assim, renasce a esperança de enfrentar a «extrema-direita» e o «populismo» de Santana. Será assim?

Não. Sócrates é do PS. Apenas e só. Não traz nada de novo. Não traz ideologia. Não traz continuidade. Não é um político forte. É, mais do que populista, um demagogo. Não só diz disparates, como os diz em demasia, e julgando que faz sucesso. Em suma, Sócrates é o Santana Lopes dos socialistas. Diversos militantes ou simpatizantes do PS depositam as suas esperanças no dito senhor para «lutar» pela vitória nas próximas eleições. Mas o senhor engenheiro não traz ideias. Talvez traga «competência», mas não traz ideias. Ferro Rodrigues também não, mas era um apaixonado do socialismo e de um PS verdadeiramente «socialista». Sócrates não era como Guterres com Guterres, não era como Ferro com Ferro e, portanto, quando chegar à liderança do PS (facto quase consumado), não será nada. Será Sócrates, o político do povo, «a oposição de Santana Lopes».

A Europa, nos 20, dividia-se. De um lado, a reacção à modernidade constitucional feita pelo comunismo e pelos socialistas revolucionários, vitoriosos na ex-Rússia czarista. De outro, a reacção ao socialismo e a todo o tipo de influências vindas da União Soviética. Mussolini, Rivera e outros erigiram Estados contra o socialismo e os perigos que este representava. Lenine, Estaline e mais uns ditadores advertiam contra o fascismo e prometiam resposta e segurança contra ele e o capitalismo. Comunismo ou socialismo e fascismo ou autoritarismos de direita cresceram, assim, às custas do outro. Tal como o PSD ganhou a confiança dos eleitores devido à espalhafatosa política orçamental e financeira dos governos do engenheiro Guterres. Tal como o PS surgira como alternativa a Cavaco. Tal como, agora, Sócrates surge como o «Homem Novo» socialista, liberto da brandura guterrista e das ambições do partido.

E, assim, Sócrates, sob a bandeira da «luta» contra o «populismo» e o «oportunismo» (dentro e fora do seu próprio partido), vai, sorrateiramente, sendo, também ele, um pouco oportunista e populista. E não me parece pouco. Afinal, provavelmente, entre ele e Santana apenas variam o tipo de livros que lêem.

Quinta-feira, Julho 22, 2004

Humor

Contaram-me há pouco e achei giro: Manuel Alegre quer-se candidatar à liderança do PS...

Pesos pesados II

O meu caro amigo Bruno respondeu ao meu comentário acerca dos «pesos pesados da política». No fundo, não discordamos em nada. Talvez eu tenha sido marcado pela crença cavaquista de que os ministros têm de ser sensíveis às matérias que discutem. Na mesma linha em que o Bruno, do lado «oposto», confia mais nos «decisores» políticos. Volto a evocar Rui Rio. Rui Rio reúne as duas coisas. Daí concordarmos ambos com o «exemplo» dado pelo senhor na Câmara do Porto. E sendo Nobre Guedes o exemplo contrário (por ser recente a sua nomeação).

Histeria contemporânea

Ainda há algumas semanas, ao saber do «processo» (kafkiano, arriscaria...) que tomava posição no PSD, o processo de substituição do então Primeiro Ministro, Durão Barroso, designado para a Comissão Europeia, por Pedro Santana Lopes, indigitado para encabeçar o PSD e o governo. Não gostei. Nem de Durão Barroso, nem de Santana Lopes, nem do PSD. Mas tudo tem razão.

Não gostei do PSD, como continuo a «não gostar», porque demonstrou, fatalmente, que é um partido sem cérebro. Anos e anos de História não enriqueceram as mentes do partido nem vão enriquecer. Apenas duas coisas orientam o Partido Social Democrata: o «povo» (o eleitorado e as abstractas bases) e o «poder». Ou, por outras palavras, a popularidade e a ambição. Instaurou-se, nas hostes do partido, uma «ditadura da estabilidade», a que se rende tudo o resto, seja preço a pagar a luta política ou, simplesmente, as «ideias».

De Durão Barroso não gostei pela desilusão. Barroso é optimista. Barroso tenta contagiar optimismo. Essa foi a sua postura de Primeiro-Ministro, durante dois anos. Ia no bom caminho, mas aí recai o primeiro problema: dois anos não podem alimentar o optimismo «governamental». Não se pode personificar toda uma política e todo um governo para o abandonar a meio, tão cedo. Rendido à ambição (que não lhe censuro, até pelo contrário), Durão Barroso esqueceu-se do essencial da política: a acção ou o «serviço» públicos (que deixa inacabados); e a aspiração a um lugar na História. Neste último ponto, já fez História. Ninguém se esquece da sua viagem para Bruxelas.

Quanto a Santana Lopes, o caso é diferente. Não simpatizo com o Dr. Santana Lopes, já aqui o referi, talvez. Aliás, não gosto mesmo do homem. Não tem absolutamente nada a ver com a pessoa que é ou poderá ser (não leio as revistas que estão ao corrente da vida sentimental de Santana). Não gosto da «figura política Santana Lopes». É um espectro que, em Portugal, poderá ser uma aberração pois é proibido falar mal de alguém ou de alguma coisa que tenha um passado cristalino e «cristão». Felizmente, não respeito essa «regra de ouro à portuguesa». Não gosto de Santana Lopes porque quer ser conhecido. Porque faz o que faz para ter efeitos rápidos. Porque, enquanto há políticos que agem (por vezes paternalmente, de forma sistemática e irritante) pensando no futuro e no que é melhor para o Zé Povinho sem pensar no que vão responder e não ligando às quase sempre vazias críticas, há outros que agem a pensar na «resposta dos cidadãos», quase diria na resposta do «público». Santana Lopes é assim. Foi-o na Cultura, foi-o na luta pela liderança do Partido, foi-o na Câmara, ameaça sê-lo no governo.

No entanto, é por isto que continuo a não gostar de Santana Lopes. Uma vizinha do início da rua acha que Santana tem «três homens valentes» (os filhos). Outra que Santana é imoral. Outra ainda que este tem muitas mulheres e que só pensa naquilo. Mas nenhuma sabe quem é Santana Lopes, o político. Eu dou-lhe o benefício da dúvida. A vida é feita de surpresas e de reviravoltas. Nos momentos mais inesperados. Se Santana Lopes é mau político, muitos já sabem, ou acham. Se é mau Primeiro-Ministro, precisaremos de muito mais tempo e não de apenas algumas semanas e de um pequeno discurso de tomada de posse. Eu sei porque não gosto de Santana Lopes, e penso que pouco mudará a minha opinião. No entanto, para muitos, Santana continuará a ser o «imoralão» ou o «político das discotecas». E esses, como se sabe, são os primeiros a tentar derrubar o governo. Confiam na histeria, não na História. Numa histeria contemporânea herdada do princípio do século.

Segunda-feira, Julho 19, 2004

Eu nasci assim

Já nasci anti-comunista. Não tenho culpa. Lembro-me de, no ensino primário, nos primeiros e rudes desenhos que me eram encomendados, me dedicar ao combate do Leste. Inconscientemente, sem saber da existência de um Muro numa qualquer cidade da Alemanha, na ocupação de alguns países da Europa Oriental por parte da URSS e da Guerra Fria, já desenhava exércitos americanos e exércitos soviéticos. Não sabia o porquê, não sabia o que era «mau» e o que era «bom», ao contrário de alguns meus colegas, que pareciam já simpatizar com o hino da Internacional, orgulhosamente tutorados pelos perversos progenitores. Eu não sabia porquê, mas já não gostava da URSS nem do (palavra feia) comunismo. Mas já admirava os EUA.
 
Via filmes de guerra produzidos nos Estados Unidos. Desde muito novo. E isso parecia acelerar as minhas projecções, na realidade, do que se passava no meu imaginário, que afinal mostrou não ser assim tão abstracto. Alguns meninos e meninas de ambientes mais soaristas deploravam as minhas admirações, os meus ódios e, pior, os meus hobbies. Lia enciclopédias da Collier's, desenhava bandeiras dos EUA, conhecia algum armamento bélico (em especial aviões) americano e até soviético e admirava a guerra. Receava-a, mas admirava-a. Sabia o que se passava. Ouvia histórias, lia relatos e, o pior de tudo, via fotografias. Os outros miúdos falavam do 25 de Abril, eu falava da 2ª Guerra Mundial e da Coreia (já evitava o tema do Vietname, por tacto em relação à geração dos pais dos meus amigos). Faziam desenhos dos tanques na Avenida da Liberdade, eu desenhava Mig's despenhados.
Enfim, num estudo psicológico pediátrico aprofundado, poder-me-iam diagnosticar alguns problemas. Mas isso não aconteceu.
 
Não aconteceu porque Portugal não era todo socialista. A minha primeira professora primária, agora que penso nisso, compreendia os meus delírios. Aliás, aplaudia-os. Poucos anos depois, reflectindo, pensava que nunca tinha percebido o porquê daquela compreensão. Agora percebo. Ela respeitava o 25 de Abril, mas pertencia a uma ínfima parcela da população portuguesa que passou o Estado Novo, o PREC e os primeiros governos Constitucionais a admirar, não a «luta antifascista» do PCP, mas a tradição de Liberdade americana. Enquanto os pais, talvez preparando o Avante!, recomendavam Ary dos Santos, ela teimava em prostrar o medíocre poeta comunista aos seus pés e dar-nos a conhecer alguns dos clássicos, como Camões e Pessoa. Foram os dois primeiros poetas que conheci.
 
Enfim, eu nasci assim. Deplorando as admirações comunistas. Deplorando o, já falecido, senhor de bigodes do Leste e o, ainda estrebuchante, senhor de barbas de Cuba. Admirando o sacrifício nas praias da Normandia, nas Ardenas, em Verdún, no Marne, no Somme. Passando ao lado de Cunhal, Saramago, Lenine e do tão estranhamente adorado Guevara. Desconfiando, até, do diáfano carisma de John Fitzgerald Kennedy, vulgo JFK. Não tive culpa. Não me obrigaram. Podem chamar-lhe preconceito, mas nunca fui nem serei socialista ou (que o Diabo seja cego, surdo e mudo) comunista. Nunca fui. Não acreditava no Bem nem no Mal. Acreditava nos EUA. Gostava, na minha ignorância, de Reagan. E não me enganei.
Não me levem a mal. Mas eu não fui vacinado. Eu sempre fui anti-comunista.

Bismarck e Napoleão III

Há precisamente cento e trinta e quatro anos, a França de Napoleão III declarava guerra à Prússia «pré-unificação». O grande Estadista germânico era Otto von Bismarck. Manipulou tudo e todos, armas e tratados, exércitos e diplomatas. No fim, em poucos anos, derrotou a França na Guerra Franco-Prussiana de 1870-71, derrotou os resquícios dos genes napoleónicos, uniu os Estados Germânicos debaixo de uma tutela imperialista do Kaiser Guilherme e consolidou, até à chegada de Guilherme II, o Império Alemão.

Pesos pesados

Há dias, o Bruno afirmou que é «completamente despropositada a crítica que por aí se ouve de que Nobre Guedes não tem qualquer formação na área do Ambiente» e que «Nobre Guedes, sendo alguém que tem (quer se goste da sua figura ou não) peso político, poderá emprestar á sua área de governação uma força muito maior do que alguém que toda a vida tratou da mesma área». Já tínhamos comentado algo parecido em relação a Bagão Félix. Concordámos em que Bagão é um homem forte e indicado para o cargo, e que não precisaria de formação específica na área das finanças para «tratar das Finanças». Que quem trata delas são os Secretários de Estado e por aí fora. A minha «crítica» tinha mais a ver com a mudança brusca no Ministério. Visto que as Finanças e os Negócios Estrangeiros são duas pastas que requerem estabilidade, contonuidade e uma representação (uma figura, um ministro) estável e constante.
 
Nas Finanças, a mudança era inevitável devido à saída de Manuela Ferreira Leite, e confio em Bagão Félix para o cargo, embora tenha alguma aversão a «renovações» no Governo, e em especial nas Finanças.
Nos Negócios Estrangeiros, a nomeação do Dr. Monteiro terá mais a ver, precisamente, com o exterior que com o interior do país, e isso faz-me retrair um pouco. Poderá significar uma viragem na política externa, afastando-se ou aproximando-se do «centro da União Europeia». A minha desconfiança talvez parta do desconhecimento das «crenças» ou «descrenças» europeístas do novo MNE. Como disse, o Governo está, de momento, repleto de «nomes fortes», mas cuja importância real (competência) é desconhecida do cidadão médio, eu incluído.
 
No entanto, a minha pequena discórdia para com o Bruno parte do seguinte: ele acredita nos «homens fortes» da política. Eu não. Mas também não considero, como Cavaco Silva considerava, a chamada «competência na área» um pré-requisito essencial para formar um Governo coeso. Acredito na experiência e na força de carácter (não falo de carisma nem de teimosia). Rui Rio é um exemplo dessas qualidades que fazem um bom ministro. O Bruno concordará. Agora não acredito no «peso político». Não preciso de pensar muito para me surgirem alguns nomes de «homens fortes» (e mulheres, obviamente) que fizeram disparates, erraram ou, simplesmente, não fizeram nada. Ou de outros pelos quais, no mínimo politicamente, não tenho simpatia nenhuma. Nobre Guedes é um deles.

Domingo, Julho 18, 2004

A renúncia

Sempre o respeitei. Desde muito novo. «Entrei» na política pela influência dos seus escritos. Fiquei desiludido quando soube da UNESCO. Afinal, a viagem não se vai consumar. Pacheco Pereira fica em Portugal, no mínimo intelectualmente. Ainda bem. Faz muita falta.

Cigarros e delírios

Nos útlimos dias, tenho andado ocupado. Dividindo-me entre cigarros, a descoberta de um concerto para violoncelo de Elgar e pôr a escrita em dia noutro registo e noutro local, tenho-me afastado das ocorrências políticas e da actualidade.
Sobre o governo, penso que (os que lêem moderadamente o blog) sabem o que penso. Não simpatizo especialmente com Santana Lopes. Desconfio do seu governo, e os imponentes nomes que agora o formam não vieram mudar nada, pelo contrário. Simpatizo ainda menos com Nobre Guedes, e não tenho muita confiança na designação «brusca» de Bagão Félix para a sua nova pasta. Em geral, sofro de desconfiança crónica, o que pode afastar quaisquer presságios em especial. Alguns chefes de Estado portugueses diziam que esta choldra é ingovernável. A terem razão, é indiferente quem governa, mas é importante, sim, a orientação dessa mesma governação. Temos de esperar para ver. Quem estiver descontente, que se vá entretendo com o futebol como até aqui, pois terá, dentro de sensivelmente dois anos, a oportunidade de castigar a obra, ou a ausência dela...
Dentro de dias, voltarei a colocar alguns textos. Ou aqui ou no Lusitano. Até lá, o discurso vai sendo muito fraquinho.

Quarta-feira, Julho 14, 2004

O anti-dia

Hoje é um dia de «não-celebração». É, quase diria num plágio rodriguiano, um «anti-dia». Para quem gosta de rever a História numa perspectiva pessoal, poder-se-ia inserir o dia de hoje no período negro da mesma. Imagino que se interroguem quanto a este meu delírio reaccionário. Talvez seja isso mesmo. Mas a razão é outra. Hojé é dia 14 de Julho. Em 1789, durante este dia, era tomada a Bastilha.
É, portanto, um dia simbólico para os franceses, que comemoram, no «Dia da Bastilha», uma representação da Revolução Francesa. A Revolução que abalou profunda e irreversivelmente os regimes monárquicos na Europa. A Revolução que introduziu dois novos conceitos: o sistema republicano e (talvez lado a lado) o sistema ditatorial. A Revolução que é um marco temporal separando iluminismos e nacionalismos. Mas não gosto do dia porque marca, sobretudo, uma Revolução onde rolavam cabeças todo o dia, literalmente...

Terça-feira, Julho 13, 2004

Pissarro



Camille Pissarro, Cote des Boeufs at the Hermitage, 1877

Domingo, Julho 11, 2004

Noite

É Domingo, de noite. Fumo na varanda, mas não oiço o som da rua. Olho para o céu e imagino a nossa pequenez, no passado e no futuro...

O povo no nevoeiro

Para tristeza de uma larga parcela «anti-governo-de-direita» dos portugueses, a instabilidade não se passa só no principal partido do governo. Ferro Rodrigues, num fulminante acesso de loucura, demitiu-se de secretário-geral do Partido Socialista. Assim, PS e PSD poderão estar frente a uma divisão ou uma «renovação». Na verdade, o que se vai passar nos dois partidos pode ser encarado, provavelmente, como um «saneamento». Ou seja, o povo não gostava de Durão, que era a «cara» do governo. Assim, o PSD vai tentar aproximar-se, à maneira de Santana, dos portugueses. Por outro lado, Ferro Rodrigues já tinha perdido imensa popularidade. O PS está, também, prestes a sofrer uma «renovação». Isto não é estratégia, é solução. No entanto, algo de estranho se passa. Em ambos, instala-se o consenso. No PSD, todos são obrigados a vergar-se perante Santana Lopes. No PS, todos idolatram António Vitorino.

António Vitorino adquiriu, assim, um carácter mítico entre as hostes portugueses. Do jornaleiro ao empresário, passando pelo ignaro yuppie, todos concordam: Vitorino é bom político. Ou por outra, «Vitorino é o melhor político à vista». Porquê tal epitáfio? Será que Vitorino nos salvou de algo? Será que o vulgar português sabe quem é António Vitorino? Sinceramente, admito que pouco sei sobre o senhor. A figura do simpático político do PS e da Comissão Europeia está em todo o lado. É o «homem do momento». Isto tudo porque vivemos numa cultura de futebol: quando um jogador português sai de Portugal para jogar noutro clube europeu, torna-se «bom» e torna-se respeitado, mas, até lá, é apenas mais um. No fundo, iludimo-nos.

Não tenho nada contra o senhor. Pelo contrário, abunda lucidez para um militante do seu partido. E, mesmo por ter essa lucidez, parece-me que não estará muito interessado em tomar a liderança de um partido em período descendente. Sobrevalorizado ou não, são nos grandes momentos que aparecem os grandes homens e as grandes decisões. Mas não façam do senhor um «vencedor do vazio». Deixem-no trabalhar calmamente na Comissão Europeia, no seu cargo actual, coisa que é rara nos tempos que correm.

Sábado, Julho 10, 2004

Soares e Sampaio

A questão sofreu diversos impasses, mas foi sendo definida. Pouco a pouco, a crise encaminhava-se apenas para uma saída e apenas para um homem: o Presidente da República. Jorge Sampaio é o actual Presidente. Já não é Mário Soares (para quem veio, recentemente, de outro planeta, Soares é o «velho de Restelo» que perdeu, há largos anos, o sentido das coisas). Se ainda fosse Soares, não tenhamos dúvidas nisto: o PS já estaria, em força, nas televisões a lançar campanha para as próximas eleições antecipadas. Soares tomaria a decisão sozinho, sem pensar, sem consultar ninguém, sem «sentido de Estado» (se é que tal abstracção existe). Sempre diz e fez o que lhe apeteceu, e esta não seria excepção. E, tão longe dos tempos áureos dos seus grandes discursos ao ar livre, cada vez diz e faz mais disparates. Em suma, não se preocupa com o que dizem e pensam dele.

Já Sampaio não é assim. Sampaio pensa no que faz. Mais importante, pensa no que querem que ela venha a fazer e nas consequências que isso terá no imortal imaginário dos portugueses. Soares gostava de decidir, era e é aquilo a que se chama um «mandão»: gosta de ter a última palavra em tudo, mesmo detestando responsabilidades ou não se preocupando com elas. Sampaio é o contrário. Sampaio gosta do papel de «avôzinho simpático». Simplesmente porque é aquilo que ele é. O avô, nos tempos que correm, nada decide. Está sempre lá, mas não decide. Não gosta de decidir nem de se meter na vida dos outros. Dos filhos. Do país. No fundo, é o perfeito Presidente da República tal como, teoricamente, o projectamos: discreto, sensato, calado, optimista e ligeiramente submisso à ditadura da «estabilidade política». Ao contrário de Soares, que é desconfiado, romântico, «velho», arisco, por vezes bruto, e omnisciente. Sampaio, pelo contrário, confia no que faz e confia nos políticos e nos portugueses. Lá está, dá conselhos, nunca ultimatos ou avisos. Mas, na prática, o Presidente da República é uma figura quase monárquica e, como tal, deve demonstrar superioridade e capacidade de decisão, mesmo que esta seja muito esporádica.

Na última semana, recaiu, então, em Jorge Sampaio a palavra final, institucionalmente falando, sobre a resolução da crise política. O tipo de decisão que Soares adorava tomar, com requintes de republicano autoritário. A Esquerda portuguesa sabe das «fraquezas» de Sampaio e, como tal, passou ao ataque. Não sabiam muitos argumentos para lançar ao povo, mas sabiam uma coisa: Sampaio é inseguro. Sampaio quer ser um «bom» Presidente e defender a Democracia. Tem a noção que dele depende muita da ordem política em situações de impasse. A Esquerda explorou tal fraqueza e pressionou-o. PS, BE, PCP e outros seres menores evocaram 25 de Abril, Democracia, Fascismo, Extrema-direita, luta antifascista, populismos e despopulismos, existência de gente sem escrúpulos, o Pato Donald e todas os pequenos nanismos que poderiam aumentar o peso nas costas do Presidente. Resumindo, foram espertos, ardilosos e directos: queriam eleições antecipadas, e tudo indicava que assim seria.

Sampaio, no entanto, foi diferente do costume. Sampaio não gosta de decidir. Como dizia Vasco Pulido Valente há dias, Sampaio gosta de «adiar o inadiável». É aquilo a que, banalmente, se chama de um «apaziguador». No entanto, ontem veio a público e comunicou a decisão. Não haveriam eleições antecipadas. Sampaio, farol do centralismo, esperança da Esquerda apagada, figura do passivismo presidencial, enfrentou as próprias dúvidas e, mesmo que tardiamente, decidiu. E bem, diga-se de passagem. Não há situação para dissolver o Parlamento e, como consequência, muito menos para realizar eleições antecipadas. Sampaio enfrentou a Direita com silêncio e enfrentou a Esquerda com a decisão. Sem sair do seu próprio carácter, foi aquilo que muitos (incluindo eu), até hoje, nunca pensaram que ele era: um político forte.

Doentes

Em curtas declarações para um canal de televisão, Francisco Louçã e Boaventura Sousa Santos são inquiridos quanto ao falecimento de Maria de Lurdes Pintasilgo. Para além da «consternação», vai mais além. Não resistem. O poder da televisão é enorme. Louçã aproveita para salientar que vivemos «momentos muito tristes» (alusão à situação política) e que a morte de Pintasilgo era mais uma razão para tal. Sousa Santos, recorrendo à sua profunda e douta sapiência, diz, entre outras coisas, que «o Portugal do 25 de Abril está duplamente de luto [pois] deixou-nos uma das personalidades mais marcantes da vida política portuguesa do século XX, que representava muitos dos valores que estão agora em perigo», e acusa Sampaio de «entregar o país de mão beijada às políticas de direita». Sempre achei os dois «doutores» uns perfeitos patetas. Errei. Peço desculpa. São inteligentes e francos. Essa é a maior das verdades. Infelizmente, o problema é outro: Louçã e Boaventura são muito doentes...

PS-a Dra. Pintasilgo (1930-2004) representava quase o oposto da minha visão da política. Encarava a política como uma «missão», como uma oportunidade de fazer o que é imperioso. Encarava o seu «cargo» (nunca o pensou como tal) como de grande responsabilidade salvífica. Era optimista. Era de Esquerda. Mas era profundamente Católica. Não vivi sob a égide da senhora. Nem nunca prestei grande atenção à sua «obra». Era o meu contrário, nunca lhe dei crédito, mas «debatia-se» quando a democracia ainda era parca e indefinida no país, mesmo no lado oposto da «barricada». Precisamente por isso, respeito-a. E, precisamente por isso, lamento a sua morte.

Quinta-feira, Julho 08, 2004

O bom rumo

Sabemos que há crise política (e não só) quando:

- Políticos de aparelho e populistas atropelam verdadeiros «senhores» da política, na senda do poder;

- Esses mesmo políticos afirmam que as tentativas de perturbação «não têm igual na História das democracias contemporâneas»;

- Na oposição, o Clube dos Poetas Mortos ressurge, no meio da vida política, para afirmar o seu empenhamento na luta contra a «gente sem escrúpulos»;

- O Presidente da República vai vendo uns jogos de futebol enquanto não decide actuar sobre os impasses da «sociedade política»;

- O líder do partido do governo tem de ser o líder do próprio governo;

- Todos se desiludem com a política...

Quarta-feira, Julho 07, 2004

Actor B



Toda a gente adula os «grandes» actores. De Niro, Pacino, Hanks, Williams. Toda a gente os idolatra não apenas por seres bons no que fazem. Mas também porque sabem que ficarão na História do cinema. É humano gostar do que é famoso. Mas quem gosta de cinema tem outras fixações. Na mesma senda dos «ódios de estimação», mas sem querer nenhum mal aos senhores (e senhoras), estão os actores de série B. Aqueles actores que todos nos habituámos a ver mas que não nos lembramos de qualquer filme protagonizado por eles. Tal como não nos lembramos de nenhum desses actores sem o ver (não me lembro de nenhum).

No entanto, um vem-me à memória: Eric Roberts. Talvez a sua fama venha da família, para quem acha a senhora Julia roberts um portento. A verdade é que, para quem chega a casa depois das 3 da manhã e liga o televisor em busca de algo para ver, tem muitas probabilidades de apanhar um filme do senhor. Agora, assim, sem pensar, lembro-me (não me lembro, fui pesquisar) de alguns títulos de filmes: Best Of The Best (1989), By The Sword (1991), Love Is A Gun (1994), The Immortals (1995), o espectacular The Shadow Men (1998), o «aclamado» Restraining Order (1999) e, entre outros, um que vi recentemente, Hitman's Run (1999), que passou logo para o lote dos meus favoritos (momento alto do filme: perseguição a alta velocidade com armas de elvado teor bélico).
Vendo-o «trabalhar», é difícil adivinhar a quantidade de trabalhos que lhe são oferecidos. O Sr. Roberts fez muitos filmes. Daqueles que o imortalizam. Daqueles que, ninguém sabendo como, o colocarão na memória de todos nós, lado a lado com Stallone ou Schwarzenegger.

A guerra

Para mim, a guerra atinge extremos opostos. A guerra em si, a trágica dimensão do conflito, é, precisamente por ser o reflexo da natureza do Homem, o objectivo último do ser humano: a destruição do inimigo, do adversário, do igual. E isso é, obviamente, um destino irremediavelmente terrível.

No entanto, a arte sobrevive apenas enquanto existir tragédia. Enquanto existir sofrimento. E o cinema insere-se, perfeitamente, na arte que pode ser apelidada de «abutre». Os filmes de guerra são o posto da própria. A natureza «terrível» do Homem atinge, no ecrã, uma dimensão não mítica, não heróica, mas crua. O Homem mata para não morrer. Não mata pelos EUA, Alemanha, Itália, China, mas por si. Em suma, para salvar o próprio coiro. E, em geral, dos melhores amigos. O Homem gosta do momento em que mata e vê morrer, mas tem aversão à Morte em si. Ao momento da morte. Recusa-se a ver desaparecer a expressão de vida da cara de outro. Porque o inimigo muda de dimensão quando cai. O soldado não tem cara. O morto tem.

Apesar da iminência da morte, o cidadão médio é capaz de se alistar para participar e contribuir em combate. Pela Pátria? Não. Perante a vida e a família, a Pátria não existe. O Homem combate pelo seu «lar». Combate pala família. Um português com toda a família emigrada na Alemanha, não combate por Portugal. Combateria pela Alemanha não por Portugal. Essa é a grande ilusão nacionalista.

Marx errou. O objectivo histórico não é a eliminação das classes. O objectivo da História, do Homem e da civilização é, desde sempre, um fulcral: salvar o coiro.

Terça-feira, Julho 06, 2004

Cristo



Delacroix, The Entombment of Christ, 1848

Segunda-feira, Julho 05, 2004

Gravata da sorte

Pacheco Pereira faz um apanhado iconográfico da epidemia do Euro:

1) A gravata da sorte do Primeiro-ministro.

2) O balneário como local onde se aprisionam os demónios do azar.

3) As meninas a cantarem o “Com uma força” transformado em “come-me à força”.

4) Uma portuguesa segura uma estátua de N. S. de Fátima com um cachecol da selecção.

5) A bandeira com os pagodes chineses.

6) A blusa patriótica da Senhora do Presidente da República.


Não poderia deixar de concordar e rir no meu interior com tantas personalidades e personagens misturadas umas com as outras.

A greve

Converso com um amigo. Em amena cavaqueira pergunto-lhe se, este ano, foi tocado pelo espírito grevista. É que deixou de escrever no blog no 1º de Maio. Até hoje, continua de greve...

Nostalgia destruída

Vou à FNAC e dou uma olhadela, como sempre, à secção dos DVD's importados. Encontro Taxi Driver, talvez o maior filme de sempre (melhor filme de um dos melhores realizadores e do melhor actor). As mãos tremem mas agarram, imediatamente, a genial obra de arte. Na euforia de tal pequena vitória, ando uns passos. Viro a caixa... e aí veio a desilusão. Importado da França. Tudo em francês. Começo a imaginar o maior filme de sempre dobrado em francês. Tranquilizo-me ao ver que tem tudo na versão original. Não é o suficiente. Clássicos americanos tocados pela indústria francesa são produto proibido cá em casa. Truffaut e Goddard são benvindos na língua gaulesa. Scorcese não. De Niro muito menos. Taxi Driver fica para outro dia.

A República totalitária

A República tem uma aura de infalibilidade que é pouco comum na História e na Política. Falar de República é, supostamente, falar de estabilidade, de «universalismo», de liberdade e de igualdade. Mas a que preço? Em todos os regimes políticos há um preço a pagar pelos benefícios sociais e políticos existentes. A República nasceu com um preço muito pesado: aquilo a que se pode chamar «vontade». Não há, propriamente, vontade individual.

Como se sabe, da malograda Revolução Francesa de 1789 nasceu um «movimento» que poucos esquecem: o «jacobinismo». Foi clube, grupo, movimento, partido, tendência, característica e nome ofensivo.
O jacobinismo nasceu, originalmente, do Clube Jacobino. Fundado em 1789, atingiu o seu auge de radicalismo sob a liderança de Robespierre. Fechou em 1794, depois de retirado do poder, mas reabriu, apenas sendo extinto em 1799.
Tinha como premissas a centralização do poder e uma República una e indivisível, premissas essas que dependiam uma da outra.
Actualmente, o nome «jacobino» é atribuído a políticos e partidos que adoptam esta visão centralizadora em oposição e relação de independência entre os órgãos de poder local e o poder central.
Durante a Revolução, foi considerado movimento da ala esquerda. Depois desse período conturbado, a sua influência estendeu-se, entre outros, à direita (e à extrema-direita), e ao Partido Comunista Francês.

Maximilien Robespierre (1758-1794)

Dentro dos «jacobinos», destacou-se uma figura indelével no que toca ao legado do «Terror» da República (1793-94) e da lição de «governo violento». Enaltecia «O Povo». Recorria a Rousseau. Morreu decapitado, às mãos do seu próprio reino de terror. Nunca foi considerado um ditador na concepção contemporânea do termo, mas, embora muitos o relacionem com a génese do socialismo e do comunismo, também é bem conhecida a sua face que muitos consideram precursora do totalitarismo do séc. XX.

Sábado, Julho 03, 2004

Marlon Brando (1924-2004)

Para muitos o melhor actor de sempre. Sem exagero. Sem elogios «na hora da morte». Brando morreu. Aos 80 anos deixa-nos uma vida de não muitos filmes famosos, mas um testemunho de grande porte artístico. Enquanto, para quase todos, das gerações mais novas, a confirmação foi com Apocalypse Now e The Godfather, para mim, este actor ficou imortal, sobretudo, por On The Waterfront, vulgarmente chamada de Há Lodo No Cais (Elia Kazan, 1954).
Muitos dizem que morreu duas vezes. Outros que ainda não morreu. Mas, para todos, imortalizou-se muito antes de dar o último suspiro.

Sexta-feira, Julho 02, 2004

Enigma



- Gustave Doré, Enigma

Compromise, Mr. Compromise

O site da Economist é claro. Mas pouco diz de novo. Durão Barroso é um homem feliz. Feliz porque ascende onde nunca sonhou ascender, apesar da sua inegável capacidade e aptidão para cargos de responsabilidade e, sobretudo, para cargos de centralismo europeu. Acredita na Europa, mais do que em Portugal, eis a grande razão da sua partida. A Economist chama-lhe «Sr. Compromisso»:

AFTER much squabbling, the 25 member governments of the enlarged European Union have settled on who will succeed Italy’s Romano Prodi as the president of the EU’s executive arm, the European Commission. José Manuel Durão Barroso, currently prime minister of Portugal, is a widely respected figure from the centre-right but he is also a compromise figure. He was hardly anyone’s first choice, rather the best remaining option once those candidates that offended one or more of the EU’s biggest members were eliminated from the race. On Tuesday June 29th, EU heads of government met in Brussels to nominate Mr Durão Barroso to the job. If, as expected, he is confirmed by the European Parliament in a vote next month, he will take over in November.

(...)

The consensus behind Mr Durão Barroso may have been constructed with the help of a number of such backroom deals, in which various other juicy EU jobs that are up for grabs are shared around. At their summit, the EU leaders re-appointed Javier Solana, a Spaniard, as the “high representative” for foreign policy (a fief he shares with Mr Patten, the external-relations commissioner). Mr Solana is now likely to become the EU's first “foreign minister” if and when his and Mr Patten's jobs are combined under the new constitution in 2007 or later. And Pierre de Boissieu, a Frenchman, will retain his influential post running the secretariat that co-ordinates policy-setting meetings of EU ministers.

Mr Durão Barroso’s most enthusiastic backers will expect him to hold to his liberal economic line. Will he succeed? As a clearly last-ditch candidate for his job, rather than a powerful figure who had strong support from the beginning, he may start off in a weak position. Pessimists are already comparing him to Jacques Santer, Mr Prodi’s predecessor, who was a weak compromise figure who accomplished little in office before his commission was brought down by a petty-fraud scandal.

The choice of Mr Durão Barroso does not answer Henry Kissinger’s famous question, of who to ring if he wanted to speak to the leader of Europe. That job—the new, full-time presidency of the European Council, will be the subject of another bunfight at a later date. But at least the EU now has a new head for its executive arm and an agreed constitution. However, the hard work is far from over. Ten or more countries may hold referendums on the constitution and in several—especially Britain and Poland—the voters could say no. All 25 countries must ratify the document or it is dead. And the difficulty in reaching the final document—leaving the French and Germans sour that Britain stopped it being a federalist triumph—will mean that Mr Durão Barroso will begin his job in a climate of lingering bitterness. The compromise candidate will no doubt need all his skills to craft compromises of his own.


- Economist.com, 29/6/2004

Partidos

A forma como, sem que a opinião pública de tal se apercebesse, Santana Lopes foi tomando conta do PSD, pé ante pé e apesar de ter sido sempre claramente derrotado nos Congressos a que concorreu sozinho mostra o estado de anomia a que chegou aquele partido. Mais: a força política que na primeira década e meia da democracia portuguesa mais inconformismo mostrou em relação aos seus próprios líderes conseguiu, no espaço de pouco mais de um mês, render-se primeiro ao unanimismo em torno de Barroso e, depois, deixar meia dúzia de velhas referências a falar sozinhas contra uma liderança que muitos sentem impalatável e contraditória com as tradições do próprio PSD.

O que se passou? Passou-se que o PSD foi mudando de carácter e aquilo que fazia a sua originalidade dos tempos fundadores da democracia portuguesa - ser um partido de quadros e um partido de militantes - perdeu-se. Hoje é antes do mais uma máquina de conquista e divisão do poder, onde têm um peso determinante as "distritais" - isto é, o aparelho - e os autarcas. Esta máquina vai sendo alimentada pelas juventudes do partido, treinadas na intriga política, incapazes de atrair os melhores - pior: especializadas em afastá-los.

(...)

A natureza humana vem por fim ao de cima em momentos como o que vivemos, e o instinto de sobrevivência cala os descontentes ou remete-os para a intriga e para as declarações "off". Raros são os que dizem alto o que lhes vai na alma. Os que mostram desprendimento e coragem. Para não falar de coerência.

(...)


- José Manuel Fernandes, in Público, 1/7/2004

Quinta-feira, Julho 01, 2004

O que somos

Portugal tem uma vincada imagem projectada na Europa. Mais, os portugueses têm uma forte personalidade projectada. Mais do que virtudes, temos as nossas «fraquezas» e aspectos corriqueiros projectados no mesmo espaço. Desde sempre. Os «turistas do futebol» (e não só, porque o Verão nunca viveu de Europeus) vêm cá e afirmam: «são simpáticos», «são acolhedores», «boa comida», «bom ambiente». Nunca, na História de Portugal, um turista afirmou: «os portugueses são inteligentes», «estou surpreendido pela destreza que demonstram em tudo», «país desenvolvido», «população culta», «sóbrios e lúcidos». Não, somos conhecidos pelo que somos: simples. Palermas mas simples, e isso faz de nós únicos e com muito potencial.
Lembrava-me o meu, já falecido, avô as aventuras dos clubes de futebol portugueses nas competições europeias. Mas em especial um grande clube: o Vitória de Setúbal. Isto passou-se em finais da década de 40. A boa prestação no campeonato tinha-nos projectado para uma competição europeia. Ao que sei, quando chegou a altura de viajar para a Holanda (ou outro país da Europa, não sei) para disputar a «2ª mão» da eliminatória, a famelga partiu em peso. Jogadores e treinadores, massagistas e curiosos, que eram, ao mesmo tempo, primos e vizinhos - a amizade dos jogadores era anterior à existência da bola de futebol, era a amizade dos homens.
O destino situa, então, os jogadores num hotel de luxo (talvez de «três estrelas»). Dois deles, poucos minutos depois de chegar ao quarto, foram vistos a sair do hotel. E, novamente, minutos depois, a entrar no quarto. A verdade foi descoberta no dia da partida. Atribuíram, na casa-de-banho do quarto, a função de lavatório ao vulgarmente célebre «bidé». Por outro lado, num ímpeto dadaísta, transformaram o lavatório num canteiro de flores, cheio de terra e já com sementes plantadas, que haviam ido comprar assim que chegaram ao quarto. E assim partiu a comitiva do Vitória de Setúbal: alegre, amável, generosa, simples, ignorante.
É por isto que qualquer um distingue o português em qualquer canto do planeta. A simplicidade faz o génio - gosto de pensar assim.

Menos ais

Gosto de futebol. Disso não tenho dúvidas. Até gostava do que rodeia o futebol. Até estes últimos dias...
Acordo, hoje, com o eco das buzinas, tachos, urros, uivos, gritos estridentes, na cabeça. Especial destaque tem a imagem do vizinho chinês que, não sabendo qualquer palavra de português, faz mais barulho que qualquer grupo de portuguesinhos anafados. Tentava ontem ver televisão, em vão. Não ouvia nada. O som era insuportável.
Às vezes rezo para que Portugal perca depressa. Joguem bem e percam melhor. Assim só eu ficava contente. Porque nem todos gostam de futebol. Mas todos gostam da confusão e desdenham a festa alheia.
Por vezes gostava que o futebol começasse quando ligo a televisão e acabasse quando a desligo. Dormiria mais descansado...

Quarta-feira, Junho 30, 2004

Entrada

Novo blog. E de valor. A política monopoliza os temas. O que o torna muito bom. Por convite, também participo ocasionalmente. Mas não adiciono grandes ideias às já lá existentes.

A conferência aguardada

Ontem, duas conferências estavam marcadas. Uma de Scolari. Outra do ainda primeiro-ministro Durão Barroso. O povo ligou as televisões. Juntou-se em cafés com criaturas congéneres. Em frente à televisão do trabalho. Em écrãs gigantes. Quem esperavam? Scolari veio e, aparentemente, falou. Do primeiro-ministro, nem sombras. Tudo de volta ao almoço e ao trabalho. Afinal, quem é Durão Barroso?

Venice



Venice, J.M.W. Turner, 1841

Terça-feira, Junho 29, 2004

A República Irreal

Há uma ideia comum assente na generalidade dos portugueses. Especialmente naqueles historicamente mais negligentes. A ideia de que a implantação da República em 1910 trouxe democracia, liberdade e, importante, trouxe o poder para junto do povo. Ou seja, que o povo passaria a, mais ou menos rigorosamente, ter conhecimento do poder e, através da transparência desta, interceder junto do governo. Assim não foi. Os republicanos eram uma elite «esclarecida», no sentido iluminista mas também no sentido da educação. Por outro lado, o povo ansiava, como sempre, por uma ordem tradicional: democrática mas forte. Ainda hoje os portugueses (e não falo dos octogenários) procuram a convergência desses dois pontos. A República não tinha nem um nem outro.

Democracia era ainda uma palavra muito leve no princípio do séc. XX português. Apenas se imaginava o que era. A monarquia era, então, menos nacionalista, mais liberal e mais tradicional do que muitas outras casas reais europeias. No entanto, tinha uma fraqueza - o próprio regime, e a estrutura política em que assentava, foi-lhe retirado, tal como os apoios, e desmoronou-se em poucos anos. A República tinha um ideal, uma «utopia realizável», mas que nunca concretizou. Os republicanos não confiavam na população nem nos próprios partidários. A população não confiava na República. Aliás, não tinha uma única palavra a dizer. As decisões cabiam a um reduzido conjunto de letrados que, num ambiente de sectarismo, se tornavam a única «população» de confiança do regime republicano. O povo continuava o que sempre foi: analfabeto. Mas o paternalismo republicano ofendia.

Depois é a força do governo. Politicamente, era forte. Na verdade, nos seus inícios, adquiriu um carácter ditatorial e, por vezes, totalitário. Apregoava-se então o laicismo incondicional de tudo o que era instituição pública. Afonso Costa foi um ícone desta tendência. Em suma, o Estado não só não tinha religião nem «ideologia» exclusiva como as acabava por proibir. Ao proibir religiões (como escolha pessoal) e desprezar conservadores e outras tendências, perdia a sua linha de força: imparcialidade. Tornava-se interventivo e arbitrário. Mas nunca tocava as vidas das pessoas. As pessoas queriam segurança e ordem. Mas a «luta» e a reacção davam-se num patamar «superior», fora do quotidiano popular. Todos queriam o poder e a concretização pessoal, por isso, nenhum a garantiu ou estabilizou.

Num seguimento de mudanças de governo, de Presidente, de golpes de Estado, de contestações operárias, a República apodreceu e tornou-se pouco mais do que isto: um erro. De gerência, de projecto ou de destino, não se sabe ao certo. O certo é que durante 16 anos o povo perdeu ilusões (que a maioria nunca chegou a ter). República e Portugal sempre foram dois conceitos meio distantes, que teimavam em caminhar a ritmos diferentes. A cegueira republicana foi causa e consequência dessa realidade. A República acabou como começou: nos círculos de intelectuais, longe do Zé Povinho.

Cão

Decerto toda a gente conhece, já conheceu, ou estabeleceu contacto com essa magnânime criatura que é o «galã», o «playboy», o «tipo das tipos», enfim, o idiota. O idiota é rico em histórias e em aventuras. O mito construído em redor do jovem (é sempre jovem, mesmo aos 50, não chega à maturidade) torna-se completamente indestrutível. Reza a lenda que por ali já passaram mais de 100 fêmeas. Outros vão mais longe e apostam num número com quatro algarismos. Outros perdem a conta. Outros, desafortunados, choram de admiração. No entanto, no cúmulo da idiotice, no apogeu da sua anti-inteligência, os imberbes energúmenos são matéria de gozo e, ao mesmo tempo, de desdém. Moldaram o pensamento masculino a uma anárquica poligamia. A esses, diz-se, a angústia não chega, porque não falta o amor. São amados por todas. Por conseguinte, têm todas. E fazem, eles mesmos, as regras. Mas tanto «amor» banaliza e assassina a coisa, se é que existe. O verdadeiro amor é aquela utopia que vem da infância, dizia o Nelson Rodrigues. Aquela que nos consome, nos condena a um lamaçal interminável, que nos transforma em cães sofredores, resignados, apaixonados.
E o idiota continua na sua colheita. À tarde, à noite, na praia, no café mas, sobretudo, na sua cabeça. Morrerá triste e sozinho. Enquanto o homem-cão morre feliz com a sua utopia. Porque quem tem uma tem todas, mas quem tem todas não tem nenhuma.

Segunda-feira, Junho 28, 2004

O país que temos

O país anda embriagado com o futebol. Só pode ser. O português médio ainda não acordou para uma realidade muito estranha: a possibilidade de Santana Lopes «subir» a chefe do governo de coligação actual. Sobretudo, há algo que me assusta: as referências a um certo consenso dentro do partido quanto à escolha do possível substituto de Durão Barroso. Que Durão sempre namorou a «coisa» europeia, todos sabemos. Há consenso. Que Santana Lopes dá um bom líder de partido ou, pior, de governo, nem todos concordam. Não vejo consenso. Consenso e unanimidade são palavras que, em política, equivalem a catástrofe (a História não mente). Receio que, quando a ressaca do Europeu de futebol passar, já será tarde demais para meditar e chorar...

Sexta-feira, Junho 25, 2004

A triste natureza humana

Sexta-feira, Junho 18, 2004

Néctar do futebol

Se há coisa que eu adoro nas transmissões televisivas dos jogos de futebol são as imagens dos «momentos mortos» do jogo. Isto porque nunca se procura jogadores, treinadores, árbitros e massagistas, mas sim o melhor aspecto do jogo: os adeptos.
Por um lado, tenho sempre oportunidade de ver as mais caricaturas figuras deste pequeno planeta que (à partida) habitamos. Por outro, pelas adeptas femininas. Estes dois pontos inflacionam quando são competições internacionais. Todas as mulheres gostam de ver jogar a sua selecção. Estão sempre nas bancadas, a apoiar o país ou o jogador que lhes tira o sono. São, mais do que Del Piero ou Larsson, as mais apanhadas pelas câmeras de TV. E, quando o jogo é Itália-Suécia, quererá um homem melhor serão?

Antologia

O dia hoje começou da melhor forma. Assim que vi a primeira página do Independente, esboçei um sorriso idiota com a notícia que se dava em capital letters. Parecia ser outra edição desinteressante do Indy, mas não estava destinado a tal destino. Surpreso, deram-me um livro de antologia de crónicas de João Pereira Coutinho. Até alguns dos artigos mais idiotas dentro do jornal me pareceram melhores. Estava destinado a ser um dia bom. Para variar um pouco...

Segunda-feira, Junho 14, 2004

Sangue, suor e taças

A humildade nem sempre é uma virtude. A romântica epígrafe de destino batalhador é muito vaga. O lema de «sangue, suor e lágrimas» está, pouco a pouco, a perder sentido. Sobretudo no desporto. Da elite mais refinada ao ser mais básico, o imodesto desejo é o mesmo: sangue, suor e taças.

Eleições Europeias

O povo foi às urnas. Teleguiado pela mensagem moralmente despótica e ilusória dos partidos de esquerda, o «cidadão comum» votou contra o governo actual. Ou seja, as eleições transformaram-se (há muito) num referendo institucionalizado e irreversível. Quase que uma sondagem, com danos colaterais, siamesa das eleições que se pensa «verdadeiras»: as legislativas.

O PS «ganhou», indubitavelmente. Ganhou, até, de duas formas.
A primeira vitória, no que toca ao interesse do partido: aproveitaram a «boleia» das eleições para o Parlamento Europeu para defrontar, subtilmente (ou talvez nem isso), o governo. Defrontar Durão Barroso. Defrontar Paulo Portas. Defrontar ministros. Nunca defrontaram Deus Pinheiro, Graça Moura, Queiró e outros. Nunca defrontaram uma ideia de Europa do PSD. Quiseram defrontar a política interna, apenas e só. Quiseram vencer, estrondosamente. Conseguiram. Ferro gostou e sentiu-se aliviado. Carvalhas gostou e foi imbecilmente exagerado e «estalinisticamente manhoso». E por aí fora. A esquerda teve o que quis. O PS também. Não há muito a dizer sobre isso. Acredito que muitos, pelo país fora, apenas hoje à noite souberam que o voto era para deputados europeus... Foram eleições apreciativas do governo, nada mais. O PS, nesse campo, ganhou. Sobretudo, passou uma ideia de força, estrutura e apoios. Perigosamente demagógicos (PS e não só...), mas, sem saírem da legalidade, passaram a perna à inteligência do povo. Melhor é impossível.

A segunda vitória, no que toca à segurança do governo. A esquerda, em especial o PS, conseguiu abalar, propositadamente, o governo. Como é óbvio, a Coligação do Governo não se sentirá especialmente contestada, pois pensam como eu (e melhor, claro), ou seja, que uma enorme maioria votou inconscientemente. Votou porque tinha de votar. E, já que tinha de votar, votou não no PS, PCP ou BE, mas, simplesmente, naqueles que criticam o governo. Lá está, é o que o Bruno dizia no Sábado: (...) não é por as pessoas não votarem nas eleições europeias que o Parlamento Europeu está afastado dos cidadãos. É precisamente o inverso, é por o Parlamento Europeu estar afastado dos cidadãos que as pessoas não votam nas eleições europeias. As pessoas opinam sobre o que lhes é próximo - Portugal. A Europa, para «nós», fica «ao lado» de Portugal, não é o país que está lá dentro. A Europa é «lá». No entanto, o Governo não deixa de se sentir ameaçado. A mentalidade colectiva é o que move as massas e, consequentemente, as eleições. E passou uma mensagem de desaprovação do governo formado por Durão Barroso. O cidadão comum será afectado pelo que os outros pensam. E isso é contagiante. O discurso demagógico cai dos oradores partidários e espalha-se facilmente pelas bases eleitorais. Contra a maré das «opções políticas da moda», não há coligação que aguente. E aqui, a fragilidade que transpareceu com o fraco resultado da Força Portugal, é a outra grande vitória do PS e das forças da oposição.

Mas há outro ponto interessante que não será abordado. E esse ponto, muito importante, aliás, eu diria o mais importante, é o da posição dos habituais eleitores ou apoiantes do PSD. E, aqui, há duas opções, no seu seio, de voto contra o próprio partido.
A primeira é não votar, e votar em branco, como acto de recusa, ou de protesto, em relação à existência de uma coligação para a integração no PPE, para o Parlamento Europeu. Desaprovam a Coligação (para as europeias) e, como tal, não votam nela. E votam em quem? Não votam em ninguém.
A segunda razão porque não votam é como protesto contra a posição (potencial) do PSD e da Coligação em relação à União Europeia e, em especial, em relação (e em direcção) à ratificação resignada do Tratado de Constituição Europeia.
Ou seja, não votam contra o governo, votam contra a Coligação Força Portugal e às posições europeias, que são sensivelmente as mesmas do próprio Partido Socialista. No entanto, à esquerda, o mesmo não se passou. Ninguém votou «contra» o PS. O protesto em branco acabou por ser o voto no próprio PS. Confuso? Penso que não. Já ouvi algumas vozes desses lados afirmar isso mesmo. E esta contradição acabou por ser determinante no resultado final. Não foi uma vitória «directa», digamos, do PS. Foi, sim, uma derrota preocupante do PSD. Uma «mensagem» do cidadão normal e, em especial, daqueles que confiam no PSD ou mesmo no PP.

Em suma, o PS cresceu e o PSD ficou mais pequeno. O PCP ganhou nova posição de tiro furtivo. O BE teve um resultado feliz que se adivinhava (aliás, o Bloco de Esquerda teve uma vitória individual, uma vitória dos partidários, de um combate só seu). Agora achar que o Governo se devia demitir, ou que devia governar, daqui em diante, de forma submissa à oposição, é um discurso fácil, oportunista e manipulador, enfim, muito «político». Mas uma coisa, feliz ou infelizmente, tem de ser aceite. A Coligação foi derrotada. Cartões à parte, o PSD recebeu um aviso muito importante das bases. E isso é um sinal a levar em conta...

Domingo, Junho 13, 2004

Este voto para o que é? II

E, pensando bem, não é «pela democracia» que eu vou votar. Mas sim para exercer um direito que tenho. Exercer o direito de escolha. Vou por mim. Não pela democracia. É por haver uma democracia liberal que também me reservo o direito de escolher não ir. Agora pensem bem antes de votar. Não vá o Dr. Manuel Monteiro pensar que está em fulgurante ascensão...

Este voto para o que é?

Num café, após ver o futebol, um jovem desolado exclama: «amanhã já nem saio de casa...», ao que depois se lembra, «ah pois, tenho que ir votar para aquilo... já não vou».

Sábado, Junho 12, 2004

Regresso às origens

Imortalidade

Nos últimos tempos, o Mundo, mas, em especial (para nós), o nosso país, tem sido abalado pelo mais terrível acontecimento da existência humana: a Morte. A Morte, com letras grandes, sempre foi o assombro de qualquer ser «normal». É, há diversos anos, «normal», fugir do eterno descanso e esconder os moribundos da nossa própria vista. Quanto mais se ama, menos se quer ver. É um dos custos da sociedade perfeita.
No entanto, não conseguimos deixar de sentir algo que vai além da ciência, da sociedade, da vivência no colectivo. Algo que vai além dos nossos medos. É a saudade. O sentimento mais humano de todos, a saudade. Todos os animais a têm, mas apenas o ser humano a sente realmente. Geralmente motivado pelo nosso egoísmo, a saudade é, no entanto, a mais pura forma de amor. Petrarca não descreveria melhor que o português esse maldito sentimento.
É por isso que, quando tudo desaba nas nossas cabeças, ficamos amarrados a uma e só coisa, a saudade dos que partiram. Invejamos, por momentos, a Morte. Queremos estar onde os outros estão. Sentimos saudades dos nossos antepassados, dos nossos amigos, dos nossos mestres, Deus me perdoe, dos nossos próprios inimigos. É a impermeável saudade do que «já não é» que nos faz, mais do que portugueses, humanos. E nos faz, sobretudo, imortais.

Quinta-feira, Junho 10, 2004

O «Brasil» ibérico

Atrelados ao futebol, lá vamos nós para mais um banho de auto-estima e de heroísmo colectivo em nome de Portugal. Independente da política, o povo português pauta-se por uma evolução social muitíssimo diferente da evolução económica do país. Quando a economia faz um esforço de crescimento, lamentamo-nos, pedimos cabeças a rolar e deitamo-nos, derrotados, à sombra da impotência estatal, nunca «aligeirando» o peso. Quando a tendência é inversa, vão-nos distraindo com outras coisas. A economia está má, mas ninguém liga. Tudo parece correr bem. No entanto, o futebol é um mundo à parte. Totalmente independente do resto, até do Governo (a não ser quando este último se intromete, por conta própria, no «mundo do futebol»).

A dois dias do Europeu de Futebol no nosso país, vamos dando banhos imperiais aos jovens, e menos jovens, que, durante cerca de um mês, serão filhos de toda a populaça. Sai Durão Barroso, vaiado, do centro das atenções, e entra Figo nas vidas de todos. Figo, Rui Costa, Fernando Couto, etc, etc. Aliás, no Domingo, diversas pessoas votarão em deputados europeus de partidos que não conhecem apenas como uma forma institucionalizada de apupar alguém. Uns acordarão no Domingo cansados de ver futebol, outros do S. António. O que importa é que não vão votar para assim «castigar» a classe política, coisa que não se passará nas hostes do PCP e do BE.

Sendo assim, a imagem da classe política «fraca» em Portugal será levantada, aliás, será esquecida, para a reentrada da classe desportiva. Haverá uma suspensão de toda a negatividade para não desconcentrar os «filhos» do futebol. Enquanto a selecção portuguesa jogar bem, os políticos estarão «saudáveis», o povo estará «satisfeito» com a classe política, saberá alguns resultados das europeias, e por aí fora. Durão Barroso poderá, de certa forma, esperar uma boa prestação da selecção na competição, pois só assim voltarão os aplausos aos campos de futebol e às cerimónias. Até lá, a moral portuguesa fica dependente de 11 homens e uma bola de futebol.

Portugal entrou, no séc. XXI, e confirmou-se este ano com o FC Porto, como o «novo Brasil»: só o futebol nos pode salvar, psicologicamente, da miséria colectiva.

Quarta-feira, Junho 09, 2004

Sousa Franco (1942-2004)

Ainda ontem, dizia eu a um conhecido: «se a política não existisse, teria mais, mas tenho simpatia pelo Dr. Sousa Franco». O que soube hoje caíu como uma bomba no meu íntimo. Na morte, todos os elogios se inflacionam, nunca chegando, no entanto, ao nível exigido. Pouco poderei dizer sobre o sucedido. Apenas que me comoveu a fulminância do que aconteceu hoje. Fica uma boa memória...

Segunda-feira, Junho 07, 2004

Ronald Reagan (1911-2004)

«How do you tell a communist? Well, it's someone who reads Marx and Lenin. And how do you tell an anti-Communist? It's someone who understands Marx and Lenin.»

Domingo, Junho 06, 2004

O dia mais longo...



A 6 de Junho de 1944, a maior força militar conjunta de sempre parte de Inglaterra com destino às praias da Normandia. Os planos haviam sido delineados, principalmente, por Eisenhower e Montgomery. Na madrugada de 5 para 6, Dwight Eisenhower toma a decisão difícil e pouco consensual: debaixo de mau tempo, decidiu avançar.



Após uma operação iniciada de noite, onde a 6ª (Britânica), a 82ª e a 101ª (Norte-Americanas) Divisões Aerotransportadas deveriam ocupar posições atrás das linhas inimigas, às 06:00 da manhã desembarca o grosso das forças aliadas nas praias de Utah (4ª Divisão de Infantaria dos EUA), Omaha (1ª e 29ª Div. Inf. EUA), Gold (50ª Div. Inf. Britânica), Juno (3ª Div. Inf. Canadiana) e Sword (3ª Div. Inf. Brit.). Perante alguma surpresa e permeabilidade das forças alemãs no local, que esperavam uma operação do género em Pas-de-Calais ou na Noruega, as forças conjuntas aliadas, ainda assim, encontram pela frente uma desesperada defesa do território «vital» nazi. Cada centímetro de praia, diz-se, estava coberto por um fogo cerrado, que incluía metralhadoras pesadas alojadas em bunkers, morteiros, artilharia pesada, minas e algumas divisões de infantaria alemãs. Os blindados, tanto alemães (negados pelo «Führer») como Aliados (afundados no canal), estavam longe e estiveram ausentes dos primeiros momentos da operação. Contam veteranos que algumas lanchas não chegaram à praia após terem sido vislumbradas pelos canhões inimigos, e que, noutras lanchas, após a abertura das rampas, chegaram a morrer unidades inteiras sem ter posto um pé na praia. As 6 horas da manhã seriam o início daquele que seria conhecido como o «Dia Mais Longo».



A 2ª Guerra Mundial teve, no dia 6 de Junho daquele ano, uma viragem determinante. Desde 1939 até esse dia, a luta das Forças Aliadas era em direcção à sobrevivência, à defesa de um modo de vida, e da própria «vida» das nações da Europa. A partir dessa madrugada, soube-se, indubitavelmente, que a sua luta seria, até ao fim da guerra, em direcção à vitória total sobre a Alemanha, Hitler e o «nazismo», e com um objectivo sublime: libertar, de uma vez por todas, a Europa e o Mundo daquela ameaça e colocar a Liberdade num patamar possivelmente intocável nos tempos que se seguiriam.



Por aquela altura, antes da invasão, havia chegado o momento em que os países aliados, e todos os habitantes dos países livres, tiveram de fazer a opção, que seria irreversível: caminhar em direcção a resolução política, aceitando conviver com a visão «nazi» do Mundo e da sociedade, ou abandonar qualquer reserva em relação ao que se estava a combater e porquê e avançar em direcção ao triunfo militar. Todos sabiam o que deveriam fazer, poucos hesitaram quando proposto o objectivo e os valores que se tinham de defender e, consequentemente, salvar.



Hoje, o dia 6 de Junho continua na memória e na História como o dia em que se salvou o Mundo. 60 anos depois, todos nós deveríamos, nos nossos países, celebrar este dia que simboliza a intransigência humana perante os valores da liberdade. Senão pelos que sobreviveram, pelos nossos antepassados ou por nós mesmos, então por aqueles soldados que, nas praias da Normandia, em 6 de Junho de 1944, sacrificaram a sua vida pela nossa, pela dos franceses, pela dos alemães, pela de todos os habitantes das nações da Europa que hoje não podem prescindir da liberdade. Ao menos por eles, que morreram por todos nós...

Sábado, Junho 05, 2004

Liberdade



Os primeiros passos decisivos para a libertação da Europa deram-se aqui, na manhã de 6 de Junho de 1944.

Quinta-feira, Junho 03, 2004

O dia da decisão avizinhava-se...

Soldiers, Sailors, and Airmen of the Allied Expeditionary Force!

You are about to embark upon the Great Crusade, toward which we have striven these many months. The eyes of the world are upon you. The hope and prayers of liberty-loving people everywhere march with you. In company with our brave Allies and brothers-in-arms on other Fronts, you will bring about the destruction of the German war machine, the elimination of Nazi tyranny over the oppressed peoples of Europe, and security for ourselves in a free world.

Your task will not be an easy one. Your enemy is will trained, well equipped and battle-hardened. He will fight savagely.

But this is the year 1944! Much has happened since the Nazi triumphs of 1940-41. The United Nations have inflicted upon the Germans great defeats, in open battle, man-to-man. Our air offensive has seriously reduced their strength in the air and their capacity to wage war on the ground. Our Home Fronts have given us an overwhelming superiority in weapons and munitions of war, and placed at our disposal great reserves of trained fighting men. The tide has turned! The free men of the world are marching together to Victory!

I have full confidence in your courage, devotion to duty and skill in battle. We will accept nothing less than full Victory!

Good luck! And let us beseech the blessing of Almighty God upon this great and noble undertaking.

- Dwight D. Eisenhower


P.S.- vejam o plano aqui.

Smell of napalm in the morning

E assim é... Lançando, de vez em quando, as conhecidas quase irracionais diatribes políticas, os meus dias vão-se passando, maioritariamente, na leitura e, nos últimos dias e nos que se seguem, à procura de revistas de história com edição especial da comemoração do Dia D. Enfim, até às europeias, a actividade política na minha mente simplesmente cessou...

Musa

Time Passes Slowly

Time passes slowly up here in the mountains,
We sit beside bridges and walk beside fountains,
Catch the wild fishes that float through the stream,
Time passes slowly when you're lost in a dream.

Once I had a sweetheart, she was fine and good-lookin',
We sat in her kitchen while her mama was cookin',
Stared out the window to the stars high above,
Time passes slowly when you're searchin' for love.

Ain't no reason to go in a wagon to town,
Ain't no reason to go to the fair.
Ain't no reason to go up, ain't no reason to go down,
Ain't no reason to go anywhere.

Time passes slowly up here in the daylight,
We stare straight ahead and try so hard to stay right,
Like the red rose of summer that blooms in the day,
Time passes slowly and fades away.


- Bob Dylan

As noites da má-língua

O menino João Almeida, apesar da grosseria em que tenta cair, não passa de um pretenso mal-educado. Quer ser mal-educado, apenas e só. Politicamente, isso é viável, depende do estilo. Mas já ouvi bem pior de certos dirigentes ou ex-dirigentes com idade para ter juízo.

Agora a reacção exagerada que tenho visto nas televisões é desproporcional às palavras e, sobretudo, à intenção. Na iminência de talvez relatar o sucedido à comissão de direitos humanos, PS e BE têm dito tudo o que lhes vem à cabeça. Mas com muito cuidadinho verbal. Porque agora estão na mó de cima: são os ofendidos. Durante a próxima semana, portanto, não haverão palavras fortes vindas da esquerda.

João Almeida «pecou», mas há muito que a esquerda tem dito coisas bem mais absurdas e apolíticas. Porquê então este destaque?

Quarta-feira, Junho 02, 2004

Eternal Sunshine of the Spotless Mind



Aposto nesta pérola de Michael Gondry como principal candidato, para já, ao melhor filme do ano.
Charlie Kaufman tem mais um rasgo de génio com o argumento de Eternal Sunshine of the Spotless Mind.
Jim Carrey está muito bem encaixado como grande actor que é (sempre achei e disse que os maiores actores despontam na comédia) e atinge, talvez, mais um ponto alto na sua carreira.
Kate Winslet está surpreendentemente bem no filme. Merece elogios mesmo daqueles que não gostem muito da jovem.
Kirsten Dunst é sempre um trunfo em qualquer filme, e este é mais um exemplo disso. E Mark Ruffalo tem um papel bastante bom.

O filme tem um conceito relativamente «comum»: um encontro amoroso entre duas pessoas e, após o clímax de uma longa relação, a sua vontade de esquecer o passado e o próprio presente, incluindo a outra pessoa, para continuar a sua vida. O argumento do filme é que foge, de certa forma, ao habitual. Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) são um desses casais. Quando Clementine decide acabar abruptamente com a sua relação ao apagar a memória que tem do namorado, Joel resolve fazer o mesmo. Mas o processo de Joel acaba por sofrer diversos contratempos quando, entre outras coisas, este resolve desistir e lutar contra a sua própria decisão de apagar a namorada da sua memória. A ironia é que os dois acabam, estranhamente, por se reencontrar e ficar cientes do que aconteceu. Ainda assim, resolvem pisar o mesmo caminho e as mesmas dificuldades que sabem (pensam) que sofreram anteriormente.
O filme é, emocionalmente, muito forte, muito embora a viagem pelos confins da mente de Carrey (e, inevitavelmente, de Kaufman) seja, por vezes, exageradamente absurda e «irrequieta». A «vontade de voltar atrás», o «amor» e a simples «vontade humana» são alguns dos temas que se podem reconhecer aqui. É um dos grandes filmes do ano.

Terça-feira, Junho 01, 2004

Um plano bem delineado

A estratégia, cada ano, é sempre a mesma. Seja na Feira do Livro de Lisboa («A» Feira), seja em qualquer outra venda de livros, a estratégia de entrada, consumo e saída é a mesma.
O primeiro dia pauta-se por ser uma visita de memorização, aproveitando para meter logo os raros e os bónus dos alfarrabistas ao bolso (com a devida transacção monetária, pois claro), sendo o plano bem encaixado numa meia-hora de visita. Nem mais um minuto.
O segundo dia, ou segunda visita, já é muito mais planeado. Não deverá sair do limite de 10 minutos, sendo uma rápida busca aos livros já «marcados» em casa.
Isto tudo porque as pessoas que frequentam as feiras são, como eu já disse aqui, na sua maioria, pessoas perigosas. Perigosas porque lêem os chamados «livros de montra» e os livros dos «ilustres» (menino Sousa Tavares incluído), e assim se baseia o seu conhecimento e «experiência». Se conhecerem Kafka já merecem uma atenção especial, pois são uma em cem. Assim, nas feiras, pegar num livro de Nélson Rodrigues (descoberta relativamente recente), ao mesmo tempo que outra pessoa, pode causar uma reacção de concorrência perigosa. O português pensa: «se aqueles compram, é porque é bom». E nem todos os olhos têm a preparação emocional para ler Nélson Rodrigues.
Por outro lado, podem-se ver os casalinhos de namorados em lírica deambulação pelo recinto. As pessoas que, desconfiadas, vão levantando dinheiro das caixas automáticas. Os senhores mais idosos com bom gosto na leitura e na opção de se sentarem o mais longe possível da feira a perscrutarem o que adquiriram. E, por fim, a rapaziada, eles e elas, que vão esquadrinhando as calçadas do Parque, espreitando por cima dos livros, em busca de promessas de copulação. Mas há muito mais...
Assim sendo, a Feira é um mundo, mas um dia basta para (re)ver as sempre caricatas personagens da dita megalópole social. E a estratégia mantém-se a mesma há anos. É um plano bem delineado. Entrar, comprar, sair. Nada de demoras. Um pequeno deslize pode ser, intelectualmente, fatal.

Segunda-feira, Maio 31, 2004

Pirâmide do populismo

Durão Barroso passou a apostar, agora, numa estratégia de «apelo popular» para os combates políticos que aí vêm uns a seguir aos outros. O que é uma outra forma de admitir que aderiu, seduzido pela oposição, ao populismo. E não só.

Uma outra faceta recém-ajustada do nosso Primeiro-Ministro tem muito a ver com o ambiente que rodeou o Congresso. É a «vontade de união». A cegueira que quer fazer passar aos seguidores e, mais perigoso, às bases do partido. A nova mania é a de admirar Alberto João. Como se fosse obrigado a mostrar um agudo sentimento de culpa para com o «afastamento» da Madeira do Governo central. A Madeira está «longe» por causa do megalómano regente da ilha.«, que a tornou num Vaticano ateísta e repleto de uma máfia centralizadora. O «monarca» Jardim nunca me agradou, e não é agora que vai passar a agradar.

O optimismo necessário em tempos de crise é aceitável, mas uma certa barreira que nos separa de um organicismo egocêntrico nacional. O Governo ultrapassou essa barreira. A barreira entre o optimismo e o populismo. E isso é triste.

Sábado, Maio 29, 2004

O nada (o amor da vitória)

É uma mais que árdua batalha sair, todos os dias, de casa. Cada vez que me levanto da cama, sinto-me emergir no absurdo. Lembro-me de passar a noite absorto num desesperante galope no iminente perigo de queda. Na rua, toda a gente festeja algo novo todos os dias. As desculpas passam, solenemente, a razões para decoro público. São, justamente, os filhos da anomia que se comprazem com estes deleitosos momentos de orgulho. O dever das ocultas forças do absurdo é o de amar ou o de odiar, e nunca ficarem indiferentes. E, ultimamente, tem sido o de amar. Mais até do que o normal. Nas ruas, gritam, agitam cachecóis e pedem-me para gritar também. Adoro-os por isso. Mas também é, precisamente por isso, que evito, sequer, vê-los. Porque, dois dias depois, voltam a odiar-me.

Sexta-feira, Maio 28, 2004

Sorte

Aliás, diz Leonardo Ralha hoje no Independente:

[Em Cannes] Também derrotado foi o filme de animação «Shrek 2», que saiu de Cannes com as mão a abanar. Melhor sorte teve outro ogre.

O rei, o sábio... o bobo

Michael Moore é um humorista, pura e simplesmente. A atenção que lhe é dada não tem nada a ver com o que ele faz, mas com contra quem o faz. E assim é escolhido o vencedor. Não há qualidade na sua pretensa «arte». É fácil ser idolatrado «politicamente» com ficção, mentira e humor (palhaçada...). Difícil é sê-lo com seriedade, mesmo se criticamente. A novidade (ou, pensando bem, nem por isso) é o «aplauso» dos meninos bonitos em Cannes. Farenheit 911, aproveitando um nome com mérito, passou por dopcumentário de qualidade. Não fico surpreendido...
Os intelectuais da antiamericanice, com sede na Europa e alguns «imigrados» dos EUA, aplaudem a política no cinema. Moore é medíocre, mas isso não interessa. O dever do povo é amar e odiar. O povo odeia Bush, e o (falso) «cinema» tem que respeitar o gosto do espectador. É a vida...

Quarta-feira, Maio 26, 2004

Boogie man

Os portugueses adoram ver-se ao espelho. E o futebol, como tantos outros artifícios úteis para manter o orgulho nacional pouco enrugado, é um ópio saudável. Como sabem, não costumo falar muito de futebol aqui. Mas, por vezes, há oportunidades que tenho de aproveitar. Senhoras e senhores, eis o papão do futebol europeu:



Parabéns, e aproveitem a festa.

Terça-feira, Maio 25, 2004

Mr. Sting's strange name

No post anterior, apelidei Sting de Gordon Summer, quando, na verdade, é Sumner, com 'n'. O erro foi-me apontado por este senhor. Obrigado. A correcção já foi feita.

Segunda-feira, Maio 24, 2004

Nostalgia # 1



Gordon Sumner (Sting), Stewart Copeland e Andy Summers. Este é o trio que compunha uma das melhores bandas dos anos 80 (para muitos a melhor, e porque não?). Autores de dezenas e dezenas de «êxitos» que, embora fossem «êxitos», eram boas músicas - o que era raro naquela década. Can't Stand Losing You, Roxanne, Message In A Bottle, Don't Stand So Close To Me, So Lonely, são apenas algumas das músicas que estão no lote das minhas favoritas. Nostalgia... magníficos The Police.

À esquerda salvífica

Que triste pretensiosismo... Achar que «ser de direita» é tentar esquecer o que aconteceu em Abu Ghraib é uma presunção que apenas pertence aos patetas. A resposta, de «contra-ataque», no que toca às sevícias do PREC, é um pouco alocada, mas é a única resposta que consegue corresponder ao pretensiosismo da esquerda e calar uma grande maioria dos mesmos, infelizmente. Por favor, condenem o sucedido em Abu Ghraib, mas também demonstrem uma imparcialidade que possa distinguir direitos humanos de afiliações políticas. Será que são precisas fotografias do que se passou nas prisões após o 25 de Abril para poder também condenar os ditos «pais da democracia portuguesa»?

Viva el-Rei

Desde que a realeza do país aqui do lado anda em festa, tem sido possível vê-los a sair dos esconderijos: os monárquicos. Ultimamente, aproveitando a onda de caloroso afecto popular ao príncipe espanhol, os monárquicos portugueses também têm vindo, por vezes a público, afirmar ou reafirmar insistentemente o seu amor, e a sua nostalgia, à monarquia portuguesa. O 1 de Fevereiro tem sido, creio, novamente chorado em alguns recantos e casas de pasto do país. A monarquia morreu há muito. Não se ganhou com isso, mas também não se perdeu, e essa é, politicamente, a grande verdade.

É traço comum do povo ligar a tradição monárquica a um qualquer tipo de absolutismo, feudalismo ou, mais corrente e razoável, ao tradicionalismo (este último não sendo assim tão negativo). E, como se sabe, o «ar do tempo» é, actualmente, a noção de «progresso». E o progresso implica, para parcelas do povo mais «esclarecidotas», a República - a República do mito equalitarista, fraternal e semi-libertário. Mas é o mesmo povo que tão depressa chora a falta de segurança e de justiça como o excesso de autoridade. Voltando ao que interessa, é essa mesma ideia de «progresso» que os leva a fechar, definitivamente, na gaveta, a ideia de monarquia. Mas, pensando bem, nós já não temos rei? O que foi Soares-presidente? E o que é, embora mais discretamente, actualmente Jorge Sampaio?

Diz uma jovem, um «Zé Povinho feminino», que, com pessoas como eu (conservador) ainda vivíamos sob a monarquia. Claro que, não querendo levar ao ridículo a afirmação, pouco respeitadora de semântica, da jovem, até dou a volta à questão e aceito a desengonçada «crítica». Uma monarquia «moderna», constitucional e, em parte, apenas figurativa, não faria mal a ninguém. Os reis e seus descendentes são criados toda uma vida para uma função. Por outro lado, o actual Presidente da República, na sua juventude, devido às afiliações políticas, repudiava, certamente, a ideia de democracia. E hoje é Presidente. Em comparação com o que temos hoje em dia, uma monarquia era um sistema que, sem ser muito diferente do regime actual, cairía bem ao país. O povo português gosta de realeza, de solenidade, de nostalgia, da protecção divina, das benções reais, do sacrifício, e também gosta de festa, de visitas reais, de cortesias, do ego nacional. E, enquanto um Presidente da República consegue tudo isso com um pouco de vagar, um Rei seria, naturalmente, fadado para a tarefa.

A esquerda repudia a monarquia, como é natural. O «progresso» da sociedade e da política fala mais alto. A monarquia é passado, e por isso é inconcebível. Para mim, é simplesmente escusado voltar ao regime monárquico. Na verdade, não me lembro, à excepção do caso franquista, de nenhuma implantação monárquica pós-republicana na Europa. Seria bom, e até nem seria muito diferente, mas parece-me longínquo e «estranho». Se ainda fossemos «súbditos» do Rei, se ainda houvesse uma monarquia, defenderia a preservação da mesma. Hoje, parece-me, sinceramente, em Portugal, uma ideia morta. Voltar a ela seria, não um passo atrás, mas uma súbtil prova de luxo nacionalista, e isso é escusado.

Sexta-feira, Maio 21, 2004

A técnica do cartão

Nas entradas do Metro, cada pessoa tem a sua técnica exclusiva de passar o cartão: há quem esfrege o cartão na «banda», há quem bata com ele verticalmente, há quem o passe preguiçosamente ainda dentro da carteira (como é o meu caso), há até mesmo quem se encoste ao utente da frente por não ter nem cartão nem bilhete. Mas uma técnica estava eu longe de conhecer. Ontem, à minha frente, uma senhora, de meia idade, com ar de viúva e beata, passou o cartão... sem o tirar de dentro da mala. Atirou a mala cheia para cima do local destinado ao cartão e ali iniciou o processo de esfregar a mala em busca de ignição. Após uns largos segundos, lá conseguiu. O Metro é um mundo...

Limbo

É sabido que a condição de Tony Blair como prime-minister está, mais do que nunca mutilada. Embora saudavelmente natural na política inglesa, a posição do líder dos trabalhistas, rodeado (literalmente) de adversários políticos, é irreversivelmente isolada. Os Tories atacam-no, o labour puxa-lhe o tapete debaixo dos pés. Agora a «grande» dúvida recai em saber se Blair cairá, ou se demitirá, antes das eleições legislativas de finais do próximo ano. O debate pode ser vago, mas Blair encontra-se numa condição de trinco de uma porta que divide duas direcções políticas tendencialmente opostas. Por outras palavras, Blair mantém Inglaterra «estável», «coerente», «comprometida», enfim, num impasse.

No entanto, acredito que Blair, para além dos protestos, manter-se-à à frente do governo até às eleições. ou se muda o rumo político, ou se muda o governo. E, em caso de mudança, a opinião pública despertaria, e a percentagem «ciente» da negatividade do Labour aumentaria. Ou seja, uma mudança de líder antes das eleições agitaria não apenas o governo, mas também o partido, e isso seria fatal para o próprio Gordon Brown.

Devo dizer que uma queda de Blair e dos trabalhistas (que acho pouco possível) seria um panorama bem mais positivo para alguém como eu. Com a actual situação internacional, no que toca à relação transatlântica, e, sobretudo, com a «questão europeia», Michael Howard é mais aguardado que nunca. Apesar de ter algum apreço por Tony Blair, nisto sou muito claro: um PM como Howard poupar-nos-ia muitos desgostos num futuro próximo...

«Punir» Bush...

Rodrigo Guedes de Carvalho para um repórter: «Para uma resposta rápida: os Americanos vão condenar os seus compatriotas [quanto às imagens da Abu Ghraib] e punir Bush nas eleições?».

1- Uma pergunta deste género, presunçosa, facciosa e projectando cenários, não pode ter «resposta rápida»... na verdade, nem devia ter resposta.

2- É mais que óbvio que «os Americanos» condenam este género de actos. Mesmo sendo volumosos «monstros do belicismo internacional».

3- Bush não deve nem vai ser punido por este género de acontecimentos. Embora seja o responsável máximo (politicamente), as suas competências acabam muito antes do sucedido.

4- Detesto pivôs espertinhos... Detesto aquele tipo. Se quisesse ver um jornalista engraçadinho, estava a ver o Daily Show...

Terça-feira, Maio 18, 2004

Expressão interior


Edvard Munch, The Scream, 1893

Domingo, Maio 16, 2004

Brain teaser

Nesta última sexta-feira, no Independente, veio uma curtíssima entrevista a Isabel Figueira. A jovem engana-se e «espalha-se» quanto a Kant, Camarate, Marcello Caetano, Dostoievsky, enfim, quanto a tudo... O Independente foi ácido, mas, desta vez, não lhes dou razão.
Cara Isabel, não ligues a estes pretensiosos jornalistas. Não interessa o objectivo das perguntas deles. Tu, apenas tu, não precisas de saber aquelas coisas...

Sábado, Maio 15, 2004

Retrato ideológico

Excelente artigo da Helena Matos no Público de hoje. Sem, por sombras, desculpabilizar o sucedido (na verdade, há uma mais que natural condenação do mesmo), Helena Matos compara, no entanto, certos «ataques» que têm sido feitos à situação, nomeadamente por parte dos que sempre se opuseram, ideologicamente, à intervenção da coligação no Iraque. Aqui fica um excerto do final do artigo:

A menina vietnamita correndo aterrorizada pelos bombardeamentos norte-americanos podia ser um símbolo do horror da guerra. Do Vietname ou de qualquer outra. Contudo, ela foi também um ícone usado por quem contestava a intervenção norte-americana naquele país e, enquanto minimizava as atrocidades cometidas pela tropas do Norte, garantia que a felicidade reinaria quando os homens de Ho Chi Min controlassem todo o território.

As imagens de Abu Ghraib são um símbolo do que não pode acontecer em guerra alguma. Para uns. Ou nesta guerra. Para outros. Aqueles mesmos que nunca mais se interessaram pelos meninos do Vietname assim que os últimos helicópteros americanos partiram. Os mesmos que nunca mais se interessariam pelos cárceres do Iraque caso a coligação retirasse.

O senhor

Em Troy, uma nota positiva: magnífico Peter O'Toole...

O romance

Mais uma razão para ser desfavorável ao casamento entre homossexuais: caso fosse aprovado, Ferro Rodrigues e Francisco Louçã já poderiam casar...

Paz

But I'm a superstitious man. And if some unlucky accident should befall him - If he should get shot in the head by a police officer, or if he should hang himself in his jail cell - or if he's struck by a bolt of lightning, them I'm going to blame some of the people in this room, and that I do not forgive. But, that aside, let me say that I swear, on the souls of my grandchildren, that I will not be the one to break the peace we've made here today.

-Vito Corleone, The Godfather

Sexta-feira, Maio 14, 2004

Será que sempre fui e nunca o soube?

Encontrei um teste curioso n'O Acidental. Como não tinha nada para fazer, lá fiz eu mesmo o teste. O resultado foi curioso, agora resta saber se é bom ou mau...



What Famous Leader Are You?
personality tests by similarminds.com

O alargamento

Sobre o alargamento pouco posso dizer. Na verdade, o Paulo disse, há quase duas semanas, o que eu acho, num seu post. No entanto, ainda queria falar, por uma última vez, sobre o mesmo.

Dizer que Portugal vai ser prejudicado pelo actual alargamento da União Europeia a tantos países é um pouco enevoado e a roçar o «nacionalismo patriota».
Há os que criticam a situação actual do Estado-Nação, por este ser propenso ao belicismo (um argumento que roça, em geral, a demagogia, o internacionalismo marxista e o falso senso comum). Sendo verdade que o Estado-Nação geralmente actua por meios e objectivos próprios, também não o deixa de ser que, desde a formação do que hoje chamamos União Europeia, os Estados europeus nunca comprometeram os Estados vizinhos em conflitos que não os envolvessem «naturalmente». Portanto, para aqueles que criticam tanto a supranacionalidade como o Estado-Nação, as soluções que podem advir da discussão tanto da situação dos novos membros como da Constituição serão em vão. Estarão sempre descontentes. Pessoalmente, embora não pense que o Estado-Nação seja o modelo «ideal», acredito piamente que é a única forma de representação legítima e «justa», preterindo abertamente a supranacionalidade de Giscard.

Depois há os que criticam as consequências enconómicas: perda de fundos estruturais e relegação do país cada vez mais para baixo na «hierarquia» da UE. Aqui há bastante mais razão, mas um pouco toldada por uma ou outra visão política específica. Para um defensor do mercado livre, a adesão de novos países é um passo enorme e uma, ainda maior, abertura de oportunidades económicas empresariais. Uma menina menos elucidada disse-me, há semanas, que «Portugal não tem nada para exportar, senão vinho do Porto». Ora, é óbvio que temos muito mais coisas que, embora raras vezes, por vezes são dos mais procurados no mercado. E depois, temos o benefício dos novos targets do investimento empresarial, mas aí é um campo onde pouco tenho a dizer, por ser claramente ignorante quanto a gestão e investimento.

Quanto à Constituição, também há aqueles que, vendo Chirac, o «novo De Gaulle», fazendo premonições negativas quanto aos países que entram e aos que já cá estavam, começam a concordar com a proposta de Constituição Europeia. Isto porque há, geralmente, uma posição da juventude e das massas que, no espírito de «l'air du temps» se junta na amálgama que sonha com a cooperação e o voluntarismo. Mesmo sonhando que isso não existe na realidade.

Enfim, repudio a Constituição Europeia, ignoro as ameaças de certos figurões franceses, alemães, etc., não acredito num «governo europeu», não acredito em «leis europeias» que digam o que um Estado deve ou não fazer. Enfim, acredito na União Europeia, não acredito na «Europa», que se quer, utopicamente, formar. Na História, as nações só se juntaram, com sucesso, por duas razões: interesses económicos e defesa militar comum. Todas as outras razões para se unirem resultaram, irremediavelmente, em catástrofe.

Sonho de uma noite de Verão...

Quinta-feira, Maio 13, 2004

Think-tank

Eu e alguns ilustres amigos doutrinamos uma sala com alguns pontos mais comuns do conservadorismo. Até de Oakeshott se falou. Entre bocejos e risos, os correligionários anti-tudo-o-que-seja-à-direita, depois de ouvir o que tínhamos a dizer, partem ao ataque.
Defendemos a visão pessimista da natureza e raciocínio humanos - os patetas perguntam, numa chuva de retórica imbecil, se «todas as pessoas são más». Depois, defendemos a intervenção contida ou nula do Estado, os percevejos dizem que deixamos pessoas nas valas das estradas. Defendemos igualdade de oportunidades mas não igualdade económica «natural», acusam-nos de achar que uns devem chegar mais longe que outros (compreendo o medo de quase todos). Por fim, roçamos o tradicionalismo político e institucional, e atiram-nos dois rótulos dos quais nunca me hei-de esquecer: «valores Vitorianos» e «colonialismo». A ignorância ganhou uma vez mais.
Terminamos em grande, escutando a contundente frase da think-tank do círculo da pastilha elástica, quando se referindo à culpabilidade em relação às torturas feitas por soldados americanos: «Ramessféld?? Bush?! Por mim, pegava-se em todos e demitia-se tudo!» (risos)...

Terça-feira, Maio 11, 2004

A ambiguidade do Terror

Ao ler a coluna de João Miguel Tavares no Diário de Notícias de hoje, fico, estranhamente, com vontade de escrever sobre Justiça e sobre Carlos Cruz. Atenção, sobre Justiça e não sobre Lei, sobre a visão do processo e não sobre o mesmo.
O meu incómodo prende-se não com qualquer «crise da justiça nos dias que correm», que é um cliché muito habitual, que se usou tanto durante tantos anos, que já devia ter caído em desuso. A justiça não é infalível, é certo. Mas deve ser feita de trabalho ao mesmo tempo burocrático, rigoroso, justo e célere. Não deve ser um espectáculo de interesse público. Ninguém pode impedir as televisões de explorarem os interesses das pessoas, não se pode obrigar as estações a um códiga de conduta moral assim tão rígido que invalidasse a sua liberdade. O que devia acontecer era haver um mínimo de bom-senso e de tacto por parte de todas as pessoas que adoram ver notícias acerca de processos como o referente à casa Pia e a Carlos Cruz.

Isto porque as mesmas pessoas que, quando Carlos Cruz foi preso, se indignaram com o «mau funcionamento da justiça» estão hoje em aberta oposição à saída do senhor da sua cela «habitual». Isto porque, à luz do politicamente correcto e da justiça comezinha, alguém tem que pagar pelos «crimes contra as criançinhas». As cabeças têm de rolar. Hoje, toda a gente tem pena das crianças e jovens involuntariamente envolvidos no processo e, para isso, aplaudem a queda das figuras públicas. Quando um pobre coitado é condenado por um crime que, confessadamente, cometeu, é defendido pelo povo. As figuras públicas não têm o direito à inocência. As pessoas anseiam pelo desafio à autoridade e ao poder: polícias, políticos, «homens da televisão», empresários, dirigentes autárquicos ou desportivos têm de cair. O povo diverte-se, o povo aplaude. O circo vive.

Com o Terror de Robespierre, resolveu-se ir buscar o já deposto monarca para acabar o que tinha sido começado. Alguém tinha que pagar em nome da «missão». Para os «pequenos portugueses», a missão de hoje é a «justiça». Juntamente com o «fado» português, temos o ódio aos poderosos, e este é, no fundo, o grande vírus da visão sobre a Justiça em Portugal. A crença de que, mais tarde ou mais cedo, «terão de rolar cabeças», mas escolhidas a dedo...

God bless America

Ao entrar pelo porto de Nova Iorque no navio já lento, Karl Rossmann, rapaz de dezassete anos que havia sido mandado para a América pelos pais, gente pobre, porque uma criada o seduzira e dele tivera um filho, viu a estátua da deusa da Liberdade, que observava havia já bastante tempo, como se a luz do dia subitamente se tivesse tornado mais intensa. Parecia que o braço, com a espada, acabara de se erguer, e em torno da figura dela ondulavam as brisas livres.

- Franz Kafka, O fogueiro

Segunda-feira, Maio 10, 2004

O fantasma de esquerda

Faço zapping pelos canais de televisão. Passo pelo ARTV. Assim que «chego», aparece uma jovem deputada (?), silenciosa, no ecrã. Por um breve segundo de silêncio, penso: «é comunista ou esquerdista». Não é preconceito. Há qualquer coisa que faísca perigosamente naqueles olhos. A jovem inicía, em breves instantes, a ladaínha. Projectava a voz com tom ameaçador, dignificava o «operariado» e o «campesinato». Eu tinha razão, era comunista...

Blogger

Sem dúvida que a internet é um dom da tecnologia da informação. Sem dúvida que é de fácil uso. Mas o azar continua a bater-me à porta. Como não sou supersticioso, vou atribuir os problemas que tive ao simples acaso. Foram-se os links e o contador. Mas rapidamente se reconstrói o que ficou «danificado» (até agradecia alguma ajuda de quem me soubesse dizer se consigo recuperar o contador). O pior é a golpada moral que durou uns dias...

Sábado, Maio 08, 2004

A Sábado à sexta...

Ontem, lá comprei a Sábado. Um pouco desconfiado, devido ao carácter da revista. Mas lá tive uma boa surpresa. Talvez passe a ser um novo hábito, tal como o Independente. Até já tem algo em comum com este último: a clara superioridade da qualidade das colunas de opinião em relação ao resto...

A mentalidade e o progresso II

A semana passada, o Tiago comentou algo que eu mesmo escrevi em relação à mentalidade «anti-tabagista». Antes de mais, queria esclarecer algo a que eu, pelo menos, subscrevo. As pessoas confundem a distinção entre fumador e não-fumador com a distinção entre fumador e anti-tabagista. Não é a mesma. O Tiago é não-fumador e anti-tabagista (não é um «esclarecido» ex-fumador). Mas digo isto com todo o respeito pelo Tiago. E ele sabe-o. Mas é claro que é anti-tabagista na medida em que adverte e fustiga moralmente quem conhece, e não numa escala global e estupidificante de espírito de «missão».
Só queria dizer algo em relação ao comentário. O Tiago fala em Hobbes, direito individual e conflito dos mesmos. Mas penso que aí perde um pouco terreno para o que eu acho. Embora seja uma discussão muito baseada em perspectivas pessoais apolíticas, acho que vale a pena discutir algumas implicações políticas.

O mesmo Hobbes achava que a única forma de resolver disputas no espaço «público» era haver uma divisão entre o espaço do Sr. X e o espaço do Sr. Y. Espaços «privados». Ora, não querendo o Sr. X que o seu espaço seja invadido, não invade o do Sr. Y. No entanto, se estes dois se encontram num espaço que não é de nenhum deles, mas que pertence a um Sr. K, as leis não devem ser alteradas para que um dos que frequentam esse espaço se possa sentir melhor. É um caso onde é bem empregue a expressão popular: «Quem está mal que se mude». O espaço do Sr. K é um espaço privado e que não deve ver proibições para que o Sr. Y (não fumador e contra o fumo) se sinta melhor lá dentro. O que este tem a fazer é não frequentar o tal espaço. Como o próprio Tiago disse, num espaço público o bom senso não soluciona o problema e por tal precisamos de leis que defendam as liberdades individuais, e desta forma é que as liberdades são melhor garantidas. Na verdade, é uma discussão um pouco vaga, mas que merece a equiparação com grandes temas.

Numa última nota, queria explicar ao Tiago o meu exemplo dos automobilistas. Referia-me, claro está, à exuberância demonstrada, dentro das cidades, pelos jovens condutores que teimam e não parar o carro diante das passadeiras. Mas, uma vez mais, demonstrei o meu ponto de vista da situação. Isto é, quando estes estiverem na estrada, simplesmente não passo a estrada naquele sítio. Isto porque, na lei, há espaço para um e outro. E isso é a base do debate.

Um pacificador escrupuloso



The fiery trial through which we pass will light us down in honor or dishonor to the latest generation. We say we are for the Union. The world will not forget that we say this. We know how to save the Union. The world knows we do know how to save it. We, even we here, hold the power and bear the responsibility. In giving freedom to the slave we assure freedom to the free -- honorable alike in what we give and what we preserve. We shall nobly save or meanly lose the last best hope of earth. Other means may succeed; this could not fail. The way is plain, peaceful, generous, just -- a way which, if followed, the world will forever applaud and God must forever bless.

- Abraham Lincoln, 1862

Quarta-feira, Maio 05, 2004

Dois pesos, duas medidas

Um velho companheiro dos idos anos da verde juventude dirige-se a mim perguntando-me o que eu acho «disto» e «daquilo». Ao ser interrogado sobre um grupo de pessoas irascíveis que mantém boas relações com o imberbe, torço o nariz e respondo frontalmente: «são um bando de idiotas». Não podia acrescentar mais nada. Sei deles o suficiente para saber que me devo manter afastado do nauseabundo odor a imbecilidade. Depois, com toda a boa vontade, reitero a minha afirmação. Talvez um bando de «simpáticos idiotas». O meu amigo indigna-se. Levanta-se e antecipa a sua saída em grande. Acusa-me: «Lá estás tu... a pôr rótulos nas pessoas!» E remata em grande com uma verosímil afirmação digna de Louçã: «És um fascista». Dois pesos, duas medidas.

Terça-feira, Maio 04, 2004

A corrida da mulher

Hoje, na estação de Metro do Marquês, como sempre, a confusão. Em hora de ponta transforma saídas e entradas nas carruagens num quadro muito semelhante ao transporte de gado. Todos caminham para o mesmo lado, para apanhar o mesmo transporte à mesma hora, no entanto, atropelam-se, como se os lugares não chegassem. Sobretudo, reparo numa coisa que há já uns anos salta à minha vista mas recuso ver: as mulheres atropelam-se.
Nas estações de Metro, como em tudo na vida, as mulheres, em geral, atropelam-se. Os homens caminham, serenos, subindo a escada, em direcção à saída ou à outra linha, dando espaço para os outros transeuntes. As mulheres empurram-se (empurram-me), carregam nas costas das outras pessoas, pisam, em suma, atropelam-se. Dá-me sempre, todos os dias, a sensação de que as mulheres competem mais que os homens. Deveriam ser as donas do mercado liberal. Mas não são. A sua impetuosidade resume-se à competição com o mais próximo.
Não me levem a mal as (mais) feministas, mas parece-me que uma das consequências negativas da emancipação da mulher é esta: desde então que elas se habituaram a correr e a empurrar, querem chegar primeiro que as outras e, sobretudo, primeiro que os homens a algum sítio, que eu não sei bem qual é. Nem elas.
Parabéns, Vitória!

Tenho tido problemas no acesso à internet, daí a ausência. Mas parece já estar resolvido.

Sexta-feira, Abril 30, 2004

Fragmentos

Na Indígena (mais um suplemento supérfluo mas que não chega a ser inútil) duas coisas chamam-me a atenção.

A primeira: Cuba Gooding Jr. apontado como o provável sucessor de Pierce Brosnan no papel de James Bond, o que é incrível, visto o rapaz pouco ter de inglês, de agente secreto ou de «Sean Connery». Os filmes de James Bond são parte da minha juventude também, não tendo, no entanto, o mesmo impacto que Coppolas e Scorseses. No entanto, há muito que 007 passou a ser um mero «blockbuster».

A segunda: a ATTAC (sim, esses mesmos em que o leitor está a pensar) lançou, ou financiou, um disco chamado «Un Autre Monde est Possible». O título serve muito bem e não me choca. O que me choca é a atitude em si. Lançar um disco destes com algumas personagens perigosas lá dentro, Manu Chao e Moby incluídos. ATTAC com um disco no mercado, haverá algo mais irónico?

Modorra

Ontem foi mais um dia não. À noite, muito menos fiz. Chegando ao fim da tarde, já sabia o que aí vinha. Alojei-me no sofá e foi tudo de seguida: Daily Show, Gato Fedorento, Casablanca. Deixando-me ficar nas garras da inércia, até filmes da SIC Mulher me prenderam. Há dias em que não se deve acender a televisão. As estações televisivas são a morte da criatividade.

Quinta-feira, Abril 29, 2004

A mentalidade e o progresso

Pouco a pouco, o tabaco, «luxo indispensável» para muitos, vai passando a ser marginalizado. O fumador é, cada vez mais, um ser de vícios e de costumes homicidas. As notícias, por vezes inflaccionadas pelo merchandising, chegam-nos sem pudor: «o fumador mata-se a si e aos que o rodeiam, mata na rua, em casa, no restaurante». Sem dúvida que os cigarritos incomodam, e muito, em sítios fechados. Sem dúvida que aumentam o risco de ficar sem saúde e sem vida. Mesmo aos que «me rodeiam». Mas, para haver repressão contra os simplórios dos «fumadores» teria que haver para muitas outras coisas que me causam medo no dia-a-dia. Antes de proibir o tabaco, deviam-se proibir jovens imberbes e «auto-detonáveis» de conduzir os seus carros «alterados».
No dia em que puder atravessar a rua sem perigo, deixo de fumar.

Pela raíz

Pelo menos uma coisa sabem os franceses fazer: cortar o mal pela raíz...


Execução de Robespierre

Quarta-feira, Abril 28, 2004

A ignomínia

Há um exercício mental muito famoso entre a juventude (e outros menos jovens) de hoje que é a ignorância, o viver do boato. Talvez pensem que saber menos do que é necessário resulta numa imparcialidade saudável. Rawls pensava isso. Nem um nem outros têm sucesso. A luz é muito ténue dentro da redoma mental destes jovens. Sobre Durão Barroso, sabem três coisas graças ao boato do povo: pertenceu ao MRPP (mas não sabem o que é o MRPP); é actualmente primeiro-ministro; e que tem roubado os pobres para dar aos ricos; e sabem outra graças ao regurgitante Bloco de Esquerda: que Durão é, também, um «assassino». Quantas pérolas da linguagem portuguesa ouvi eu estampadas em versos durante manifestações na fatídica Alameda ou perto da Assembleia? Fiquei a saber que Durão rima com ladrão, cão (de Bush) e «bojão» (seja lá o que isso fôr para a elite intelectual de Alfama).
Ser ignorante permite muito mais coisas do que ser minimamente informado e culto. Evita que se afundem em ideologias doutrinárias ou partidárias e, portanto, permite marchar com os «mini-trotskys» sempre que a vontade assim o proporcione. Permite que se saibam frases «cliché» que se substituem aos argumentos, e que, muitas vezes, salvam o dia para estes jovens. Por fim, permite que apenas se saiba o muito básico de cada assunto e que, por isso, lhes dê menos preocupações. Lê-se pouco, mas vê-se muita TVI, e é essa a formação da grande maioria da nossa juventude. Miguel Sousa Tavares, Manuela Moura Guedes e Marcelo Rebelo de Sousa são as proeminentes figuras que enchem a boca dos argumentadores que tanto nos fascinam nas universidades.
Ao sentir-se embaraçado com uma pergunta difícil, o jovem ignorante dirá: «Não percebo muito disso, o que me interessa é o estado em que Portugal se encontra». Mas, na verdade, será que conhece mesmo o país onde vive?

Terça-feira, Abril 27, 2004

Criminosos

Ficaremos na História como os maiores estadistas de todos os tempos ou como os maiores criminosos.

- Joseph Goebbels, 1943

Domingo, Abril 25, 2004

25 de Abril IV

Não sou de festejar. Não vou «para as ruas» com o povo. Não canto nem ouço cantar. Gosto do liberalismo e da liberdade, o que me faria ter medo tanto do período depois da revolução como do período antes. O 25 de Novembro de 1975 marca a vitória e o início da opção democrática em Portugal. No entanto, o 25 de Abril de 1974 marca e sempre marcará o fim de um regime doente e fora de controlo, que «matou» Portugal de diversas formas. Não festejo a revolução, mas, da minha humilde juventude, comemoro, em silêncio e com um sorriso, este dia.

O espírito socialista

A viagem de autocarro é um ritual que, embora incómodo e asfixiante, se tornou uma rotina quase doentia. Embora seja uma obrigação, também se tornou um vício, mesmo comportando alguns imprevistos. Vício por isto: dá para ler sossegado, e porque certas pessoas falam para todo o mundo ouvir (certas personagens parecem saídas das crónicas de Nélson Rodrigues). E, há dias, aconteceu o mesmo, mas mais caricato.

Dois jovens muito jovens, cada um com o seu sexo, viajavam perto de mim. A rapariga, introvertida mas inteligente, era mais calma. O rapaz, talvez eufórico com as maravilhas da capital, parecia-me adequadamente entusiasmado e ingénuo. As aparências iludem. Embora tentasse, no relativo silêncio da viagem, manter-me atento ao que lia, a meio do caminho, a conversa tornou-se muito agitada. Acabou-se, permanentemente, a concentração, e caí na triste vulgaridade de ser obrigado a ouvir as conversas. Dizia ela:
«Ah, isto é como aquela, a filha do ministro não sei do quê! Queria entrar à socapa! Vejam bem, nós aqui a chularmo-nos para entrar, e ela, como é filha do outro, entra sem mais nem menos. Acho que nem fez os exames nem nada!»
O rapaz, insubmisso, tentou confusamente contrariar:
«Se calhar não é bem assim. Ser filha de embaixador também tem muitas desvantagens. Se calhar deve ter vantagens que a ajudem. Deve ser justo.»
A rapariga explodiu em indignação, falava rápido e decidida, voz como facas:
«O quê?! Cala-te! A outra aproveitou-se, e nós é que nos lixamos! E os coisos dos PALOP's são outros! Esses entram em Medicina com 13 e 14! O problema é que, com este país, uns têm tudo e outros não têm nada!».
O rapaz, perante a sempre pretensiosa superioridade feminina, não foi capaz de retaliar em força. Disse apenas:
«Pois, nisso até concordo contigo... Mas sempre foi assim. Para uns subirem na vida, outros descem. Mas não é crime...».
A rapariga, no seu ímpeto próprio da idade, deixou cair a máscara:
«Não é crime, mas devia ser! Com o Durão Borroso, só os ricos é que têm oportunidades. Tipo, agora as universidades são só p'rós ricos! Tens muitos exemplos, tipo a filha do ministro. Tipo, agora é assim. Só os ricos e os outros é que são gente...»
«E o que queres fazer quanto a isso? Não há nada que se possa fazer, sabes...»
«Há pois! Dividam a riqueza, o dinheiro! Não sei... arranjem-se! Porque é que há ricos com tanta gente a passar fome? É o primeiro-ministro, a outra e o Paulo Portas a lixar isto! Por isso é que Portugal não vai p'rá frente!»

Ah... o facilitismo do jovem espírito socialista...

Sábado, Abril 24, 2004

Nota de rodapé

E agora vou ver o comentário de Pacheco Pereira e a «nota de rodapé mais famosa do país»: Paulo Camacho...

O problema dos humoristas

O humor é um terreno inóspito. Apenas os mais afortunados e os mais confiantes se entregam à «aventura» nesse mundo. E um número muito menor deles sai desse mesmo mundo imaculado ou, pelo menos, nas graças do seu público. É esse o granda trauma dos humoristas. Quando se entra no mundo do «fazer rir», é extremamente difícil decidir quando e se querem, sequer, sair. E quando se tem sucesso ainda mais difícil se torna, pois, nem ele nem o público podem passar sem a piada (piada de sucesso, convenhamos).
Os humoristas, geralmente, têm formação vincadamente de actor. Ponto final. Não são «feitos», regra geral, para fazer rir, mas para encarnar personagens. Dessa base partem para um «mundo» à sua escolha. O humor é uma opção. Mas o humor, tal como muitos outros campos artísticos, não sobrevive sem inspiração. O humor vive, respira do momento, do impacto. E o impacto ou se faz da repetição incessante de frases ou situações ou se faz da «piada nova». Herman «nasceu» com o primeiro (com as personagens) e «foi-se» com o segundo.

Poucos da minha geração, e da anterior, podem afirmar, honestamente, que Herman nunca teve piada. Ou que teve «momentos bons» mas que era globalmente medíocre. Herman era genial. Cresci a ver Hermanias, Tal Canal, Boião, etc, etc. Aquele Herman parecia subir em direcção ao céu. Eu, na minha infantil e juvenil ingenuidade, acreditava que ele seria «Rei», que nunca caíria das graças. É óbvio que não. Com o conhecimento do Mundo veio a evidência, e depois veio a nulidade. O Herman que aparece na televisão na SIC à noite é mesmo isso, uma nulidade. Não faz humor, não tem piada - ele é a piada. A necessidade de recorrer, com muito pouco sucesso (muito pouco mesmo...), a personagens antigas é o reflexo do desespero do humorista. Envelhece, mas está demasiado enraizado no campo do humor para querer, ou arriscar sair, ou arriscar manter-se pelo mesmo. Na euforia do reconhecimento público, o mundo da fama parece pequeno demais, mas a criatividade tem limites.

O problema do humorista é esse mesmo: é que envelhece, que é um «homem». Continua depois do fim. Quando já «morreu» o humorista, continua o artista, num campo que já não é o seu. Cai na vulgaridade de «agradar», recorrendo à piada fácil. Entra em decadência, em vez de «sair cedo e pela porta grande».

25 de Abril III

Penso que o que divide as pessoas em relação ao 25 de Abril, como «um todo», se é que me é permitido adoptar essa expressão, tem a ver com o que viria depois da «revolução».
Toda a gente está de acordo com o 25 de Abril quanto ao período antes, quanto ao que o 25 de Abril acaba: a ditadura. Todos queriam acabar com o aparelho ditatorial, de uma ou doutra forma. Desde meados da década de 40 (cálculo livre) que Portugal começava a sentir as rédeas do regime, e isso era óbvio para qualquer partido «opositor» ao Estado Novo, quer fosse esquerda ou direita.
O que divide, e muito, as pessoas, é o período seguinte. E não me refiro ao PREC, refiro-me a toda a ideia de novo sistema de governo, de nova ideologia, de futuro. Que futuro para Portugal?: esta seria a pergunta que, provavelmente, encontraria maior diversidade e atrito nas respostas dos portugueses. Portanto, o que amanhã se «celebra» não deve ser o início da democracia em Portugal. Não era isso que as pessoas queriam. O que (quase) todos queriam na altura era o fim da herança salazarista e do Estado Novo. A democracia veio por acréscimo... para quem a queria.

War Room

Gentlemen, you can't fight in here. This is the war room!

- Petter Sellers, in Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love The Bomb.

Quinta-feira, Abril 22, 2004

25 de Abril II

A esquerda tem razão. O 25 de Abril foi o que foi: uma revolução. Sem tirar nem pôr. «Evolução» foi o período depois do PREC e, se assim se pode chamar, o período marcellista, mesmo sem ter evoluído em direcção a coisa nenhuma. O golpe militar que se deu em 1974 foi uma revolução, uma mudança brusca de governo e de regime e sem consulta popular oficial.

O cartaz que hoje está nas ruas classificando Abril (atenção, Abril) como «evolução» é dos mais ambíguos de sempre. O tratamento psicológico é perfeito, faz-nos ver o que queremos ver. A esquerda vê uma tentativa, da direita, da sempre «ardilosa direita», de «apagar» o passado. Há, até, quem veja resquícios de nostalgia de núcleos «fascistas» portugueses. Outros concordam, literalmente, com o cartaz - o 25 de Abril, não o dia, mas o movimento do MFA e popular, é uma evolução, mais do que uma revolução. Eu vejo-o de outra forma. O 25 de Abril de 1974 é, sim, uma dia a nunca esquecer. Não deve passar a ser mais um feriado para passear com a família. Mas não deve ser visto somente como «A» Revolução, como o fim do regime dito «fascista», e com o princípio de uma utopia que ficou, felizmente, por realizar. O 25 de Abril deve significar, também, uma vontade de seguir em direcção ao Mundo. De largar, definitivamente, as amarras do Estado Novo e iniciar um processo de descolonização que permitisse salvar vidas e recuperar tempo perdido. E essa é a evolução. É a «ideia» do 25 de Abril, não o movimento e, muito menos, a ideologia por detrás do mesmo.

Mas não se pode juntar Revolução com democracia. Não há, penso eu e espero eu, nenhuma direita a querer apagar o passado. Paradoxalmente, esse é um exercício que é mais comum nos partidos dos senhores que se indignam, na televisão e nos jornais, com a nova «campanha de direita» do 25 de Abril. Há é uma esquerda a apregoar, sempre e cada vez mais, em queda livre, a democracia como grande conquista do 25 de Abril e da «esquerda portuguesa». Mas o passado é inegável. Muitos dos homens que fizeram o golpe de 1974 queriam instalar qualquer regime em Portugal, mas que seria tudo menos uma democracia.

Quarta-feira, Abril 21, 2004

«Eles» quem?

Uma vez, no People & Arts, enquanto almoçava perante a minha televisão rudimentar, daquelas que se procura canais como na rádio (que, por acaso das maravilhas da ciência, também recebe os canas da TV Cabo), deparei com um programa interessante. Adoro programas de «encher», daqueles que não dizem nada, não servem para nada, e só baralham os mais pobres de espírito. Não sei o título da pretensa «reportagem», mas o tema era morte... mortes de gente famosa, com uma coisa em comum em todas elas: conspiração. Ao que parece, a CIA eliminou, com técnicas muito evoluídas, os rebeldes Bob Marley e John Lennon. Marylin Monroe também foi vítima. Uns serviços secretos quaisquer (não dizem quais são, talvez por serem «secretos») também organizaram, pelos vistos, as mortes dos rappers americanos Tupac Shakur e Notorious BIG. Felizmente, quando falaram de Elvis Presley largaram, por momentos, a tese da CIA.

Tal como no programa, também no «café da esquina» se dizia, em tempos, sobre a relação entre Saddam e EUA, que «há muita coisa que não se sabe». Melhor, dizia um senhor: «eles sabem aquilo tudo mas não querem que saia cá para fora». A frase só por si é curiosa. Mas não é esse o problema. O problema é sempre o mesmo: «eles» quem?

25 de Abril

«(...) não ignoremos a questão essencial: o 25 de Abril pertence a quem o fez. Ou seja: à esquerda. Com esta ressalva: o regime democrático pertence a todos. Sob pena de não ser democrático.»

- Pedro Mexia, in O Independente, 16 de Abril de 2004
As férias já acabaram. E as do blog também. A sempre sarcástica homepage do Blogger ainda me tentou deter umas quantas vezes, mas foi superada. Cá estou novamente.

Sábado, Abril 17, 2004

Do terrorismo islâmico

Toda a gente, pelo menos os mais lúcidos, sabe que o terrorismo não pode ser exterminado. Pode-se complicar financiamentos, recrutamentos, execuções e negociações. Pode-se eliminar todos os líderes dos movimentos terroristas ou rebeldes mais violentos e inspiradores. Pode-se acabar com a “coisa”, mas não com o “motivo”, mesmo que este não seja nenhum. O terrorismo é o exemplo mais recorrente e mais evidente dessa “desmotivada motivação”. Não sabem exactamente onde querem chegar, não lhes interessa o adversário. O que interessa é: o que não querem que aconteça (um “Ocidente” e um Islão próximos e recíprocos); e a “sobrevivência” de uma civilização. Não vale a pena compreender o género de terrorismo que se dinamizou nos últimos anos, talvez na última década. É, pura e simplesmente, um novo tipo de racismo, e a uma escala global. Que, como se sabe, cria um ciclo regressivo difícil de impedir – o “racismo” cria “racismo”. Só que aqui não é propriamente a raça que é posta em questão, mas sim o passado, a cultura e o estilo de vida (sociedade, política, …) de cada um. Normalmente, seria possível combater isto se apenas se formassem duas opiniões e dois “mundos”: o “nosso” e o “deles”, o “certo” e o “errado”. Mas tal não acontece. O que acontece é a formação de duas visões e duas “soluções” de um impasse (Israel) que não tem solução, em que o “mundo árabe” mais cumpridor das leis divinas incita todo um povo ofendido a defender “o que é seu” contra Judeus e demais imorais da Europa e EUA, numa escalada “desesperada” mas meticulosa e homicida de violência estatal. Nasce então o quadro: os países árabes (Palestina, Iraque, Irão, Síria, etc.) “oprimidos” pela “expansão ocidental” lutam pela “sobrevivência do seu povo”. E então legitima-se um conflito que não deveria existir.

E depois há outros: os “ocidentais” que, impregnados de uma visão romântica da luta dos fracos idealistas contra os fortes, querem negociar com assassinos, assassinos esses que matam civis inocentes, por vezes os próprios familiares, em nome de uma cultura ou de um povo que, na sua maioria, só conheceram de longe. Tal como no clima pré-nazi, cria-se um objecto de missão e um adversário religioso para vazar frustrações. O que estes querem é uma troca de responsabilidades: “esquecemos tudo o que fizeram e damo-vos o que é vosso se pararem”. Seria o fim da civilização que sangrámos para construir e fazer evoluir, com especial destaque para as razões que levaram às duas Grandes Guerras do séc. XX.

O que estes adeptos do “diálogo” e da diplomacia pretendem não é um absurdo total. É a atitude correcta a tomar quando se pode facilmente prever que as consequências de um prolongar de um conflito serão muito mais terríveis do que as consequências advindas de uma trégua entre Estados. Sobretudo, crêem que os “outros” querem tanto paz e “igualdade entre Estados” quanto nós. Mas será que grupos terroristas como a al-Qaeda e o Hamas querem isso? O Hamas existirá e actuará sempre enquanto Israel existir. Pode-se acabar com todos os terroristas e “filiados” neste movimento, mas o “nome” ficará, tal como o “motivo”, a missão. O Hamas perdura. O ceptro é deixado à deriva até que os filhos dos terroristas do Hamas, criados sob a mesma doutrina de luta contra o Ocidente, a democracia, o Estado secular, as religiões não-muçulmanas, o agarrem.

É verdade que a guerra e a superiorização militar frente a grupos extremistas é uma medida igualmente agressiva e que vitima civis a toda a hora, como inevitável dividendo de qualquer guerra. É uma medida que, só por si, não tem efeito. Mas será que devemos ficar de braços cruzados? Ou pior, será que, frente às insinuações dos grupos terroristas, devemos culpar os nossos líderes pelas vítimas do terrorismo? Será que devemos ter medo e, como tal, negociar o nosso medo e o deles num perdão que vende a nossa moral? Deixo a resposta ao vosso critério.

De um ponto de vista pessoal, a acção militar é necessária sim. Imprescindível. A militar e a policial. Violenta, se necessário. O custo imediato da nossa arrogância é a troca das vidas dos terroristas “deles” pelos civis, tanto americanos, como espanhóis, como iraquianos. Mas é esta “arrogância” que nos permite sobreviver. E que, sobretudo, permite que o modo de vida que nos garante o espaço para discutir este tema possa sobreviver. Não se negoceia com niilistas, com quem espalha o terror. O passo maior terá de ser o de mostrar aos filhos desses homens que os pais sempre estiveram errados. Que morreram por eles, mas pela razão errada. E que eles não podem pagar com a vida os erros e a “missão de terror” dos pais. Mas, actualmente, o que se pode fazer é lutar. Lutar e combater o que e quem nos quer destruir e sempre quis. Enfim, não se pode negociar com quem nunca permitirá que sobrevivamos. Por respeito à nossa civilização e ao Islão.

Quinta-feira, Abril 15, 2004

Este blog encontrou-se e continua de férias. Esporadicamente, não conseguirei evitar aparecer por aqui, mas será raro. Para a semana recomeça. Até breve.

Segunda-feira, Abril 12, 2004

Nota

Num post anterior, fiz referência a um outro post que li noutro blog. Ao ver excessos, excedi-me eu também, em crítica ao post, e não ao senhor que o escrevia. Mas parece que isso não ficou claro.

A forma como me dirigi ao post foi, sem dúvida, dotada de um estilo de escrita talvez muito próprio. Estilo esse que pode não agradar a muita gente, como já não agradou. Mas ainda tenho um certo ponto de equilíbrio entre diversas pulsões. Não sou mal-educado, e não faço juízos impróprios. Ao que parece, também isso não ficou claro. O Rui tem «ligações», parece-me, com o romance original de Bram Stoker, e, como tal, gostaria de ver no filme de Coppola (tendo em conta o realizador, tendo em conta a década) a transição perfeita do papel para o grande écrã. Isso, provavelmente, não acontece. Mas aí é que está o verdadeiro ponto de divergência entre nós, aquele que não referi. A «obra» não «culmina» no argumento de Bram Stoker's Dracula. O filme é, parece-me, uma perspectiva do clássico. Talvez o fim da «luta entre bem e mal» e a introdução das personagens volúveis e cinzentas no argumento. O Rui mantém-se «preso» à obra («As pessoas que contra ele [Dracula] vão lutar estão imbuídas dos pressupostos de um sentido de heroísmo intemporal, condimentado com o carácter vitoriano: coragem, voluntarismo, integridade, gentlemanship, Razão.»), eu mantenho-me «preso» ao filme. Até aí tudo claro, espero.
No entanto, a argumentação e a discussão extravasou para outros planos. Parece-me que não era eu que esperava «um pretexto» para qualquer coisa, mas sim o senhor dos Devaneios. Falei de Saramago, Coppola e Dracula porque, curiosamente, na mesma semana, tínhamos, ambos, falado dos mesmos temas, directa ou indirectamente. Não há teor conspirativo, não há teor ofensivo, apenas contexto livre e uma tentativa frustrada de fazer humor com temas «correntes». Mas nem toda a gente gosta de «diálogo ao estilo inglês». Não preciso de o conhecer pessoalmente para falar das coisas com um estilo próprio e directo. E também não tenho problemas em lidar com a divergência de gostos e opiniões. Se tivesse, nem tinha escrito o post. O post era dirigido, quase exclusivamente, a uma palavra: aberração (sic). Mas alguém se sentiu asfixiado. O campo da psicologia não é o meu. Não faço retratos dos outros. Portanto, espero que, sem razão, não me façam o meu nos tempos que se seguem. Nem que queiram ter piada...

Quinta-feira, Abril 08, 2004

A «aberração»

Enfim... não sei se este senhor é um fanático por Drácula ou se, simplesmente, não gosta de cinema americano. A verdade é que disse uma das maiores idiotices que se poderiam dizer acerca de Bram Stoker's Dracula, de Francis Ford Coppola. Pode-se não gostar do filme. Isso aceito. Coppola não agrada a todos. Pode-se não gostar, simplesmente, de filmes de «terror», tal como eu não gosto, e isso justificaria tudo. Mas não. O senhor diz que o filme é a pior aberração da história do cinema. Ora, aqui não me posso manter calado.

Se o senhor me der uma razão plausível, eu aguento que critiquem o grande filme que é o Bram Stoker's. Se responder que não gosta de Coppola, dou-me por satisfeito. Ate lá, manter-me-ei incrédulo perante a aguda irreverência do crítico de serviço. Porque «aberração aberração» é aquela que ele diz em relação a Saramago num outro post: em Portugal detestam-se os inovadores, ou pura e simplesmente, aqueles com ideias diferentes. Saramago é um tipo assim. Será que, em toda aquela confusão de temas, não trocou os argumentos?

Quarta-feira, Abril 07, 2004

O feirante

Já conhecendo o espectral aspecto das obras e das personagens que deambulam naqueles locais, entro numa feira do livro. Geralmente, caem por lá o género de pessoas que não gostam de ler mas gostam de «oportunidades», de «bons preços». Para a minha sanidade mental, gosto sempre de acreditar que são uma minoria. Vagueio angustiado pelas filas de livros empilhados, com a pressa de fugirem, como se o edifício lhes fosse cair em cima. Como sempre, parece uma iniciativa da Caminho e do Avante!. Mas, já em queda, apercebo-me de uma coisa. Isaiah Berlin a 5 euros. Será possível? 5 míseros euros? Pego no glorioso livro desdenhosamente relegado à prateleira inferior, atravesso em passo acelerado por entre a parada dos livros Saramago, escoltado por algumas pessoas carregando o «Manual do Voto em Branco». Enquanto pagava o livro, resolvi olhar para o vendedor. Penso que ele não compreendeu a minha tristeza. Nunca compreenderá. Tal como eu nunca conseguirei compreender o poder persuasor da «oportunidade». Shame on you, feirantes.

Francis Ford Coppola



A 7 de Abril de 1939 nasceu Francis Ford Coppola. Seria impossível escrever aqui tudo o que se pode dizer sobre ele. No entanto, pode-se considerar um dia interessante para quem adora cinema. Coppola legou-nos, entre outros, em 1974, esse grande mito de Hollywood (e não só) que é o Godfather (pessoalmente, acho que o I e o II são obras primas - o terceiro da saga, com Andy Garcia, desenquadra-se, não deixando de ser bom), o Bram Stoker's Dracula (de 1992), com uma das maiores interpretações de sempre da história do cinema: o inigualável Gary Oldman. Antes, já havia deixado Apocalypse Now (1979), outro clássico, que reconheço não lhe ter grande afecto pois que me «passou ao lado» quando era mais novo. The Conversation (1974), Peggy Sue Got Married (1986), Tucker: The Man and His Dream (1988), e outros, fazem parte do rol.

Podia dizer mil e uma coisas sobre Coppola, mas não sei como. Falta-me contexto. Não tenho jeito para homenagens. No entanto, posso, pelo menos, dizer uma coisa: Coppola, tal como Scorcese e De Palma, marcaram a minha mais tenra juventude e, muito mais importante, o meu gosto cinematográfico. Fica, em baixo, a imagem para a posteridade.

Sobre a lucidez? (2)

O excelente artigo de hoje de Vasco Graça Moura no DN chegou-me por via do Tiago, visto que não tinha lido o jornal. Vale a pena ler. E também me dá vontade de dizer: «não o encarem como crítica política, é apenas uma obra literária.»

No entanto, não me vou demorar mais falando do mesmo. Nunca liguei a José Saramago, com toda a aversão que isso possa causar aos petizes que deliram com a dinâmica escrita do senhor Nobel. A verdade é que a sua moral sempre me assustou. Tanto a dele como a dos outros «reverendos do totalitarismo» que ainda andam por aí nas graças dos portugueses. Não gosto dele, mas também não o critico. Simplesmente não lhe ligo. E nem preciso de achar que é um «biltre político», pois vivemos num país livre, fora da ilusão literária retratada naquela cartilha da Caminho, para muito desprazer do bem-amado escritor. Para pôr uma pedra sobre o assunto (embora pudesse dar mil e umas razões para não gostar de Saramago) do último livro cito uma passagem do artigo de Vasco Rato no último Independente: O escriba não gosta "desta" democracia, mas não avança alternativas. Não pode, porque, simplesmente, não há "outra" democracia. Saramago é hoje um homem amargo, um derrotado da vida que assistiu ao desmoronamento de tudo em que acreditava. Convém recordar que Saramago, militante do PCP, considerou o "socialismo real" da União Soviética superior à "democracia formal" do Ocidente. (...) Saramago é um entre muitos dos que não têm autoridade moral para dar lições de democracia. Este senhor continua a ser o que sempre foi: um apologista da tirania, de sistemas totalitários desprezíveis que, no dizer de Marx, foram relegados para a caixote do lixo da História. Afinal, na política, Saramago nunca mostrou lucidez.

Terça-feira, Abril 06, 2004

O Império...

No recinto entre as palhotas, onde passeavam galinhas e cães, encontravam-se apenas duas mulheres. Uma, já velha, pilava o arroz; outra teria os seus dezoito anos e brincava com um filhinho de meses. Ao ver entrar brancos a velha voltou-se de surpresa. No seu rosto transpareceu a irritação e gritou algumas palavras indignadas. Depois, como mostrássemos intenção de ficar e de ver, largou a correr, sempre desesperada, à procura de socorro. Mas a rapariga não fugiu. Sorria. E ao meu sorriso para o filho, uma criança negra encantadora, gorda e calma, um destes bebés que arrancam exclamações de admiração e de ternura, ao meu sorriso para o filho, que me olhava serenamente com os seus grandes olhos escuros, estendeu-mo para que o tomasse nos braços, deu-mo para os mãos, confiante, segura que dos brancos não lhe viria mal e talvez com a secreta intuição de estar praticando um gesto de transcendente simbolismo: o futuro do povo Vátua agora entregue carinhosamente à guarda, à protecção, à benção de Portugal que ali um ministro representava.

- Marcello Caetano, após uma visita a África.

Domingo, Abril 04, 2004

Reflexões

"Erguermo-nos de um estado miserável é algo que, mesmo com força de vontade, tem de ser fácil. Arranco-me à poltrona, circundo a mesa, solto a cabeça e o pescoço, trago lume para os olhos, contraio os músculos em redor deles. Trabalho ao encontro de cada intuição, cumprimento A. impetuosamente, quando ele agora vier; tolero B. amigavelmente na minha sala; em casa de C., absorvo com grandes tragos tudo o que é dito, apesar da dor e do esforço.
Mas mesmo quando é assim, com cada erro inevitável, o todo, o fácil, o difícil entrarão num impasse, e eu estarei a dar voltas sobre mim mesmo. Por isso, o melhor conselho continua a ser o de tudo aceitar, comportar-se como matéria densa, e se acaso nos sentirmos arrastados, não deixar que nos seja arrancado qualquer passo desnecessário, fitar o outro com um olhar animal, não sentir remorso, em suma, esmagar com a própria mão qualquer espectro de vida que reste, isto é, só propagar a paz final do túmulo, e nada excepto ela deixar perdurar.
Um movimento característico de um estado semelhante é o alisar a sobrancelha com o dedo mínimo."

- Franz Kafka, Decisões
Agradeço ao Spry pela saudosa referência que fez a um excelso senhor, meu avô. Era uma pessoa simples. Provavelmente sentir-se-ia embaraçado. Obrigado, Spry.

Sobre a lucidez?

Diz Saramago: "A democracia está suicidar-se todos os dias". É curioso ver o quanto é possível manipular toda a gente se apenas se erguer o estandarte revolucionário em tempos de contestação. Diz agora o velho casmurro que a democracia já não é democracia. Que todos nós pensamos que estamos em democracia mas não estamos. E, portanto, devemos, para "salvar" a "democracia", dar o tal "cartão amarelo" a esta falsa. Assim, o "tio vermelho" volta a fazer das suas travessuras, para gosto de todos nós. O que ele quer mesmo dizer é: «em honra dos 30 anos do 25 de Abril, vamos dizer não à democracia liberal e recomeçar o que começou em 1974, a Revolução». Esta gente não muda. Para quê levar a sério?

Sexta-feira, Abril 02, 2004

O adepto do Vitória

Não há nada mais básico que um adepto de futebol. Não falo do adepto em todos os momentos da sua vida, mas simplesmente do curto período de 120 minutos que rodeia um jogo de futebol importante (90 do jogo, o resto para confraternizar e digerir). O adepto é, momentaneamente, um ser básico e irracional, um animal instintivamente virado para um objectivo, na companhia dos da sua estirpe.
No entanto, apenas no futebol, e nos grandes adeptos de futebol (que já não existem), se dá o fenómeno a que chamamos de lealdade. O futebol é um mundo diferente daquele em que impera a vontade individual. Na verdade, o futebol é o único sítio em que a despersonalização do homem, e a sua introdução nas massas, se dá correctamente e com um efeito saudável. E que adeptos mais obstinados existiram que os meus antepassados, sempre apoiantes do Vitória de Setúbal?
Contou-me, em tempos, o meu avô, uma história que me marcou para sempre. Reza, então, a minha genealogia que, na década de 1940, um seu primo jogava no Vitória e era muitíssimo cobiçado por todos os outros clubes, sendo o pretendente mais azougado o Futebol Clube do Porto. Ao que parece, o então jovem extremo-direito sonhava, como qualquer “provinciano de Setúbal” de outros tempos, em jogar num clube onde pudesse ser bem sucedido, e onde pudesse impressionar a família. Nada melhor lhe poderia ter sucedido numa altura tão moralmente caótica: o Porto “convidava-o” a jogar por eles. O jovem nem pensou. Não precisava. Era o que queria. Saindo dos escritórios do clube, voltou a casa. Ora, deve saber o leitor mais aficionado que o futebol, antes, tinha muito mais a ver com uma cidade do que hoje tem. E, em Setúbal, quem não fosse do Vitória era até olhado de soslaio no café, no banco, no barbeiro, nas ruas…
A primeira coisa que fez ao chegar a casa foi informar a família da decisão. Por outras palavras, empenhou-se na tarefa de revelar ao pai a sua decisão. «É o meu maior desejo», pensou. O pai dignou-se a ouvir o que o imberbe filho lhe parecia ansioso por contar. O jovem disse: «Vou jogar para o Porto». Aí o pai levantou-se, de um salto, do cadeirão de madeira e, com ar sereno mas militar, deu dois passos em direcção ao filho. Com um só movimento rápido e seco, deu uma bofetada ao filho. «Tu do Vitória não sais!». Naquela bofetada caíram a ambição, a inocência e a “deslealdade”. Era um pequeno e modesto povo na palma da mão. O jovem acabou por nunca jogar noutro sítio senão no Vitória de Setúbal, para grande honra do pai. Outros tempos, outras histórias.
Conto isto hoje porque faz, precisamente, hoje, um ano desde que desapareceu esse contador de histórias, o meu avô. Mas a memória é feita destas histórias que nunca se poderão provar com factos, as histórias de buraco de fechadura mas que alguém viu de perto. E é essa memória que o torna eterno. Faz hoje um ano que partiu, e que começou a deixar saudades…


Copyright.

Quinta-feira, Abril 01, 2004

Nós somos pequeninos

Reza a lenda que Portugal já foi temido. Conta a História que Portugal já foi grande. Mas há algo de sentimentalmente belo em afirmarmo-nos a personagem trágica da História. Sobretudo tragicamente pequenos. E isso corrói-nos em cada momento das nossas vidas. Nos grandes momentos, mas sobretudo nos pequenos. E que momento mais futilmente solene que o futebol? Quando a selecção portuguesa joga, o raciocínio do povo pára, e entra-se numa viagem ao passado que envolve uma capacidade de memória incrível, mesmo para um saudosismo como o nosso.
Bebia eu o meu café, e via o jogo de ontem num sítio habitual, e, à minha volta, bebia-se. Bebia-se muito e prometia-se mais (quando a selecção ganha, os olhares apenas se viram para o futuro). Pouco se conversava. Diziam-se disparates e a euforia desengonçava cada pequeno momento daquela populaça em festa. Não querendo parafrasear, era a "pátria em chuteiras".
A folia ía já avançada quando Itália empata o jogo. Distraído, fui apanhado de surpresa pelo silêncio estarrecedor que invadiu o recinto. Ninguém queria acreditar. Mas algo chamou a atenção a todos eles. Claro, ninguém errara. Era, uma vez mais, o fado português. A criatura mais vivida esclareceu-nos: «Aquilo é falta! Vê-se perfeitamente!». É óbvio. Nem mais. Até eu vi. Mas acontece, penso eu. Ou pensei. O mesmo senhor, voltando-se para o passado (quando Portugal perde, a memória sobrepõe-se ao futuro), voltou a esclarecer-nos. E esta bateu em seco no rol das frases históricas do nosso povo: «Não se iludam. Isto não aconteceria se fôssemos uma França ou uma Espanha. Mas Portugal é o que é. Nós somos pequeninos!». Nem mais.

Terça-feira, Março 30, 2004

Eleições em França II

E o Tiago até o diz melhor e em menos palavras: Nota: A “esquerda” não ganhou as eleições, a “direita” é que as perdeu. Nem mais...

Eleições em França

Uma breve nota sobre as ditas: bem pode a esquerda rejubilar com a vaga de triunfo dos partidos de "esquerda". Ponho esquerda entre aspas pois, em França, direita e esquerda personificam, ao mesmo tempo, a esquerda que detesto e a direita que detesto. Assim, é-me indiferente a constituição do governo, e muito menos as tutelas regionais. É que, naquele país, há algo nos políticos que os faz irremediavelmente detestáveis - são Franceses, com F maiúsculo...

Segunda-feira, Março 29, 2004

Hall of Fame...


Porque há detalhes biográficos que é preciso não esquecer...

Domingo, Março 28, 2004

A questão do Médio-Oriente

E, noutro local, o Tiago afirma: "A coexistência pluralista não eliminará os actuais terroristas, mas impedirá a formação de novos. Será a vitória da Razão sobre a “não Razão” que vencerá, a longo prazo, o terrorismo.
Podemos, se se quiser utilizar um modo rude de resumir toda esta ideia, dizer que: devemos publicitar a democracia, nos locais de onde oriundam os futuros terroristas, para por fim ao terrorismo."


Apesar de não comungar da crença da existência de uma Razão, como o Tiago afirma, isto é, de não acreditar que há realidades supremas no que toca mesmo a sistemas políticos, concordo plenamente com o que se afirma ali. Como já disse antes, a única forma de "acabar" com o terrorismo islâmico (não se lhe pode dar outro nome, ainda que as comunidades muçulmanas se possam sentir ofendidas e injustiçadas) e pacificar a zona da Cisjordânia, e acabar, definitivamente, com o conflito israelo-palestiniano é tornar cada país do Médio-Oriente numa democracia onde a lei civil esmague a lei religiosa, onde o Direito tal como o conhecemos anule o "direito divino" (lei islâmica) sem perturbar a religião, a liberdade religiosa e a influência da religião na sociedade e mesmo no Estado. Quer queiramos ("nós", defensores da democracia liberal) quer não, a religião será, por muito tempo, indissociável do Estado. O ponto vital será mesmo acabar com os Estados "próximos de Deus" e fazê-los mais próximos do povo.

Resumindo: é preciso acabar com a opressão dos Estados islâmicos sem acabar com o Islão, com a "nação islâmica" global. Por outras palavras, é preciso convencer, por quaisquer meios possíveis, as populações do Médio-Oriente de que é possível conhecer as vantagens da democracia sem perder as noções religiosas e, por outro lado, que é possível existir um Islão sem armas, que não precisará de se defender para existir como religião e como civilização. Pois é isso mesmo que hoje está, mais do que nunca, definido: uma guerra entre civilizações...

PS-a seu tempo, escreverei um post muito mais extenso sobre a questão do israelo-palestiniano. Talvez quando o fumo de guerra se dissipar, e quando houver mais tempo e opiniões.

Situações chave da vida em sociedade

Escreve o Pedro Mexia:
É, julgo, uma questão fundamental, que tem sido esquecida por sociólogos, antropólogos e moralistas: quando nos despedimos de uma pessoa, e um minuto depois a voltamos a encontrar, ainda no mesmo sítio, o que devemos fazer? É muito embaraçoso. Arriscamos outro bacalhau? Retomamos a conversa? Fingimos que não demos pela pessoa? Sorrimos? Dizemos «olha, outra vez»? É verdade que a questão palestiniana me preocupa, mas estes pequenos nadas dão-me cabo da cabeça. Ó cientistas sociais, toca a escrever teses de mestrado.

De facto, é uma questão delicadíssima. E é a primeira vez que vejo algo escrito sobre isto. Mas o Mexia tem razão. Eu aconselhava evitar-se proferir frases cliché ou perguntas inteligentes como "ainda estás aqui?". Mas, ainda assim, também nunca saberei como reagir a esta experiência frustrante. Alguém me explica o que é que se diz ou se faz numa situação destas? Algo que se possa utilizar como arma ou como um eficiente jugo contra o estúpido acto de fazer um imbecil mas instintivo aceno de cabeça, acompanhado de um sorriso semi-espantado, em direcção à pessoa em questão. Ou será que esta simples situação será, para sempre, um mistério do instinto social do Homem?

O Processo

Josef K. poderia ser mais uma personagem trágica de uma obra que retrata uma trágica evolução de um homem em direcção ao seu próprio fim. Mas não é. Nem a personagem nem a obra. O Processo é, sem dúvida, uma das obras mais imprescindíveis para conhecer a literatura do princípio do século XX.

A obra introduz directamente no quotidiano de K., um funcionário de um banco que se vê, de um momento para o outro enredado num processo judicial que estará presente na sua vida até ao fim dos seus dias. Praticamente perde a sua identidade como "homem" e passa a ser referido, quase sempre, como o "acusado". Mas, mais do que uma obra de referência das metafóricas e burocráticas críticas às sociedades da altura, é uma obra intemporal sobre a despersonalização do homem. E Kafka retrata, como ninguém, o homem, a personagem, transparente, cuja descrição é apenas um fino véu contra o melancólico passar do tempo no livro.
Mais do que retratando K. sem o nunca chegar mesmo a retratar (K. não tem nome, não tem aparência, não tem passado, não tem família, e os traços mentais aparecem difusos e confusos para os mais desatentos), Franz Kafka retrata a sociedade como cheia de vícios e desprovida de boas intenções e solidariedade. Interessante conhecer as raparigas que brincam no subúrbio perto da casa de Titorelli, o pintor. As raparigas cujo olhar e atitude exprimiam um misto de inocência e depravação.
Toda a acção gira em torno do processo aplicado a Josef K., mas, ao mesmo tempo, nada acaba por ter uma influência directa no desenrolar deste. O que não impede K. de proceder a uma auto-destruição mental graças à preocupação com o processo judicial. Não há heróis, não há crime, não há ilusão, não há solidariedade, apenas melancolia.
Sem dúvida, uma obra marcante...

A plenitude do mal

Os juízos valorativos atribuídos aos militantes do partido “nazi” de Hitler, aqueles encarregues da execução de todos os passos da “Solução Final”, são, certamente, consensuais na sociedade de hoje em dia. Desde Himmler aos kapos, passando por Eichmann e outros, todos são encarados como lesser-beings, seres que afrontaram os valores e a moral da dignidade e, sobretudo, da própria humanidade. É sabido que a Alemanha é, para todos os efeitos, o forno de grande parte da filosofia ocidental e, em 1930, era já uma potência cultural e em vias de uma recuperação económica e militar, vindo a afirmar, mais tarde, o seu vital estatuto no centro da Europa. O que nos faz pensar bem no que se passou nos territórios alemães antes e durante a 2ª Guerra Mundial, isto é, o genocídio e o tratamento desumano aplicado a todos os indesejados, sejam judeus, polacos, ciganos, presos políticos, etc., é a etapa de desenvolvimento, poder-se-ia assim chamar-lhe, na qual o Homem aí se encontrava.

A explicação que não é, geralmente, aceite, é a de que os maus sentimentos, as más atitudes e desejos mais perversos se manifestam, em toda a sua plenitude, quando o ser humano atinge, igualmente, um nível quase pleno de desenvolvimento e lucidez mental. Isto é, o ser humano, embora distinga perfeitamente o “bem moral” do “mal moral”, ou o “certo” do “errado”, a capacidade de reconhecer uma ordem moral rígida desvanece-se à medida que atinge uma autonomia individual e um estado de desenvolvimento humano que lhe permita estar ciente de tudo o que pesa nas suas decisões.

O Homem que ordenou, realizou e executou extermínios em Auschwitz e outros, não era um Homem em fase problemática, era simplesmente o Homem, plenamente capacitado, dando forma a uma ideologia suprema num universo niilista e de grande indulgência para com ele mesmo.

Sábado, Março 27, 2004

Hora morta



Quando a semana finda, começa outro tempo, outro espaço, outro mundo. Quando todas as vozes se calam e tudo se abriga da noite, posso ouvir do meu quarto que algo mais existe. Numa existência paralela à minha, numa existência de ressentimento, os incendiários surgem dos solos e dos cantos e entram em fúria numa despudorada liberdade. Saltam de sombra em sombra, depois de atearem fogo ao seu recatado ressentimento, à desilusão que para com a zombeteira sociedade, a que reciclou os seus sonhos e os transformou em infectos cães, em incendiários. Ouço-os apressarem-se para as suas tocas, uivarem e adiarem a humanidade. No limbo do meu próprio cansaço, sinto-me suspenso entre o meu mundo e o deles, hesito entre dormir ou ler. Formulo desejos, uma delgada depravação assobia na minha janela. Sinto-me ligeiramente indisposto e derrotado, o ar que partilham não pode ser o meu...

Sexta-feira, Março 26, 2004

Delito no momento

A passagem do tempo agrava a doença que há em mim. A culpa corrói-me todos os pensamentos. Encurta-me a visão. Cesso de existir intermitentemente. Deito-me na cama para me tentar esconder dela. A minha existência está presa à sua. A fuga é inútil. Penso em quão fácil seria fugir da minha culpa, se apenas lhe sorrisse. A minha moral corrompe-se a si mesma. A minha saída é um poço sem fundo. Sem saber como, consigo uma vitória. Adormeço numa cama de podridão moral.

Quinta-feira, Março 25, 2004

Inveja

Há um valor superior que nos é exclusivo a nós, seres sociais. Um valor que é renegado e apedrejado como sendo um maligno vírus exterior à nossa existência em sociedade. E esse valor é a inveja.
Haverá sentimento mais humano que é a inveja? Como é possível condenar a inveja nos dias que correm? Já que caminhamos em direcção à generalização da crença de que o egoísmo e o ódio são desvios da nossa personalidade inata e, como tal, devem ser isolados, ao menos poderíamos reconhecer a inveja como o motor da história humana. Mesmo na política, o grande manancial de conflitos é motivado pela inveja. Na economia, tudo é feito para apaziguar, ou benevolamente libertar, a inveja das classes ou grupos mais desfavorecidos.
E, contudo, aqui estamos nós, condenando o afecto aos objectos (característica quase exclusiva ao ser humano), o ódio ao próximo e, sobretudo, a inveja. No dia em que deixarmos de invejar, deixaremos de ser homens para ser algo estranho à nossa própria natureza.

Quarta-feira, Março 24, 2004

O que resta de um homem...

"(...) Para onde vamos, não sabemos. Conseguiremos talvez sobreviver às doenças e escapar às selecções, talvez também resistir ao trabalho e à fome que nos consomem: e depois? Aqui [na enfermaria], momentaneamente afastados das blasfémias e das violências, podemos voltar a nós próprios e meditar, e é então que se torna claro que não teremos regresso. Viajámos até aqui nos vagões selados; vimos partir em direcção ao nada as nossas mulheres e as nossas crianças; reduzidos a escravos marchamos mil vezes para trás e para diante, numa fadiga muda, já apagados nas almas antes da morte anónima. Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem."

Primo Levi, Se Isto É Um Homem

(Ainda) Lost in Translation

O último filme de Sofia Coppola (filha de Francis, e a mesma de The Virgin Suicides) é, simplesmente, genial.



Lost in Translation não é um filme-tipo. Coppola não procura um final durante o filme. Todos nós sabemos o que vai acontecer, simplesmente pela evidência da realidade, do quotidiano, da desilusão e do conformismo. Na viagem a Tóquio, onde acompanha o seu marido, Charlotte (Scarlett Johansson) quase nos parece sustentar algo. A sua relação com o marido John, sempre a parecer frágil e a ameaçar deteriorar-se, no fundo mostra um pouco sobre "quem é" Charlotte. A indefinição do que será o "amor" parece sempre fora do contexto. Na verdade, não interessa. Charlotte está num país novo, encontrar-se-á só assim que lá chega. No entanto, a forma como observa a cidade da janela do hotel é de um certo fascínio e esperança, o mesmo que a acompanha no seu casamento.
Por outro lado, Bob Harris (Bill Murray), um actor em declínio, chega a Tóquio e surpreende-se, à chegada, com o novo país. A curiosidade com que contempla os edifícios e as luzes à noite é breve e, apó a chegada, tornar-se-á raro, se não existente. É um contraste entre a idade e desilusão de Bob e a juventude e fase de indefinição de Charlotte. Mas, ao mesmo tempo, são duas aproximações diferentes a um país que lhes trará a mesma coisa: a solidão.

Bob, também num estado de solidão (com um casamento de 25 anos por vezes inexistente e "secundário"), recorre ao bar do hotel a meio da noite para gastar as horas que não consegue dormir devido ao jet-lag. É nesse sítio que ele e Charlotte se conhecerão, encontrando um meio de fugir à sensação de inutilidade e à sensação de estar perdido. O amor que, a seu tempo, despontará entre eles, não é romântico. É o vazio que cada um sente que se preenche por ele mesmo com o outro. Ambos sabem, ambos sentem a inevitabilidade, mas pouco acontecerá. Bob partirá para os EUA, mas Charlotte ficará. No fundo, ambos sabem que é assim que deve ser.

É um filme de nostalgia, onde a indecisão, a solidão, o conformismo e a relação entre um homem e uma mulher (amor?) se misturam num ambiente desconhecido a ambos. A surpresa de se conhecerem, ao longo do filme, um ao outro, e ao que sentem, é a mesma com que encaram o novo país. Os "clichés" e as frases de amor estão, de forma inteligente, "fora" do filme. No final, Bob ainda lhe diz algo ao ouvido e beija-a, mas essa é a mor-cena romântica que vemos. O resto é, simplesmente, vida e sentimento.
Bill Murray tem a melhor interpretação que já lhe conheci, embora tenha sempre aquele talento implantado no seu semblante e na sua pose (é uma personagem antes de o ser, o mesmo se vê em Jack Nicholson). O seu jeito cansado, amargo, irónico e carismático transmite-nos o sentimento de "Bob". Scarlett Johansson está imparável, como novo talento espontâneo, sentimental e inteligente. Nunca o amor, a tristeza e a comédia, confundindo-se e transferindo-se entre as personagens, combinaram tão bem num filme. E muito menos num grande filme que é, simplesmente, uma história...e nada mais.

Terça-feira, Março 23, 2004

Vincent van Gogh

Vestígios de solidão...



Gauguin's Chair in Arles (with books and candle), 1888

Segunda-feira, Março 22, 2004

Os velhos líderes

Ahmed Yassin, (o?) "líder espiritual" do Hamas, foi assassinado numa operação israelita. De facto, esta acção tem consequências negativas, no sentido em que evidencia que Israel não pousará as armas antes que os palestinianos o façam (na verdade, é altamente improvável que estes cheguem algum dia a fazê-lo). Mas será que deve ser condenada? Penso que não. Especialmente por aqueles que apoiam a "causa palestiniana" (pelas razões erradas) e que ficariam contentíssimos (não generalizo, mas conheço um grande número de pessoas) com a morte de Ariel Sharon. "Bem feita", diriam eles. Mas a repulsa não se faz no sentido inverso, e isso verifica-se agora. Na verdade, torna-se apenas mais uma ocasião para criticar o Estado de Israel.

Mas a grande questão recai noutro ponto. Eu queria falar sobre isto, mas o Bruno antecipou-se. Faço minhas as palavras dele. Diz: Agora, há coisas que não se podem dizer. Por exemplo, o que é insinuado no Blogue de Esquerda. Que Yassin seria um pobre velhinho de cadeira de rodas, que, nem numa arma era capaz de pegar, e que portanto, não era uma ameaça para ninguém. (...) não pegava numa arma, mas os seus incitamentos à violência eram bem mais perigosos. (...) Yassin era a força ideológica do Hamas, sempre rejeitando o direito à existência do estado de Israel, promovendo a existência de escolas onde as crianças são incitadas a tornarem-se "mártires" na luta contra o estado de Israel. (...) O que incomoda senhores como Yassin não é simplesmente os colonatos, mas a própria existência do estado de Israel. A não condenação do Hamas, a legitimação deste como mero movimento de resistência, resulta de uma má percepção de todo o problema.

Mais não poderia ser dito sobre o assunto em questão. Na verdade, compreendo a sensação de injustiça que poderá transparecer do facto de Yassin ser uma pessoa extremamente debilitada. Mas devo lembrar que Mao Tsé-Tung liderou, com toda a violência, o seu país até à sua morte com 83 anos. O mesmo aconteceu com Estaline que, mesmo enfermo, ainda decidia o futuro dos camponeses, russos, e dos próprios partidários do PCUS. Portanto, ao longo da história, temos provas de que a idade não amolece os homens, pelo contrário, só tende a acentuar o idealismo e o fanatismo.

O problema remete sobretudo para aquilo a que se poderia chamar a "necessidade de dar provas de um desejo de paz". Mas qualquer um sabe que isso, embora nem sempre respeitado por Israel, é completamente rejeitado pela Palestina. Yassin não era um "líder espiritual" no sentido religioso, era um "líder espiritual" no sentido militar, terrorista. Não devemos dar graças pela sua morte como não devemos dar pela de ninguém. Mas que ele não faz falta nenhuma a um mundo e, em especial, a um Médio-Oriente estáveis, isso tenho a certeza absoluta.

Guerra de trincheiras

Por lapso e por ausência, havia saltado um texto publicado n'A Triste Sina há uma semana. Na verdade, não perdi grande coisa. Talvez tenha sido obra do destino eu não ver as completas redundâncias que, uma vez mais, são lançadas em forma de dardos venenosos na minha direcção. Queira saber o senhor que, no entanto, é precisamente por essa característica que eu gosto de o ler. Diz-se que um homem só é feliz com obsessões, e este blog parece ter-se tornado numa delas.

Agora o que importa chamar a atenção é a grande capacidade que naquele blog se tem de devolver frases...sem argumentos. Passo a explicar. Daquele canto parte a mor-lúcida afirmação: Por outro lado, consideras que a vitória do PSOE é a vitória do terrorismo. Também pouco posso fazer para te ajudar. Só gostaria de te lembrar que a vitória do PSOE deveu-se a uma manifestação popular de repúdio à mentira governativa... Aí está, mais uma vez, a obtusidade que, infelizmente, está associada, não só a esquerda, mas a todos os que defendem "causas" políticas, sendo coincidente, neste caso, com a "causa anti-PP". Quanto a isto é impossível lutar, pois o tipo de debate não levaria a lado nenhum. Mais sabe ele que assuntos relacionados com segurança não são assuntos de praça pública...

Mas o pior vem mais abaixo: Por fim, ainda que a meio, dizes que "ganhou a crença que um bom governante , e consequente crescimento económico, não fazem um povo feliz".
Aqui é que a porca torce o rabo. Esta frase é talvez a maior asneira que vi escrita em português. Mas pior, bem pior, é que é uma frase fascista: então um povo tem de se sentir feliz porque é governado por um bom governante? Não importa que tipo de governante? Basta ser bom?
Diz a Triste Sina que eu fui infeliz na minha afirmação. Pois, perante este tipo de declaração, tão vaga e imbecil, ostento orgulhosamente o que digo, certo ou errado. Parece estar, novamente, na moda chamar fascista a uma visão conservadora. Alguém que sabe tanto da política espanhola perceberia, caso estivesse em momentos mais lúcidos, que o povo espanhol reelegeu Aznar uma vez mais e preparava-se para eleger Rajoy no dia 14. A minha afirmação dirigia-se à influência da demagogia, mais ainda do que a tragédia de Madrid, no sentido de voto dos espanhóis. Infelizmente, a cegueira do homem sobrepôs-se a tudo o resto e saiu um disparate ao qual não vou, sequer, responder.

Portanto, não vou responder a contendas deste género, a "guerras de trincheiras" que não levam a lado nenhum, simplesmente porque nos encontramos, virtualmente, de lados opostos no espectro político. Enquanto houverem factos, discuto. Quando não houverem...farei um sensato silêncio.

Domingo, Março 21, 2004

Feudos Europeus

Entrei em depressão. Penso que desde De Gaulle que a Europa não cuspia tanto nos Estados Unidos. A vitória de Zapatero em Espanha, para além das consequências que já referi anteriormente, tem uma incidência inigualável na União Europeia. Foi a maior viragem do "navio" desde o início dos trabalhos da Convenção. Adivinha-se uma grande agitação no seio da UE.

Que Zapatero ía afastar-se da orientação de Aznar já toda a gente sabia, nem que seja pelo simples facto de o ex-líder espanhol ser do PP e Zapatero ser de um PSOE em luta contra a situação conservadora de Espanha. O que nunca se pensou era que Zapatero viria mesmo a ter oportunidade de aplicar o que disse. Nos dias 11, 12 e 13 de Março disse mais disparates do que nunca, e os espanhóis aplaudiram-no - em tempos de emoção o disparate é regra e é política. Agora encontra-se no poder. E, por incrível que possa parecer, está sozinho. Está a iniciar a caminhada para a solidão que é típica do homem que quer fazer algo que não sabe como. Quer mudar, quer mostrar ao povo que "está a mudar o país", nem que, para isso, seja necessário criar a ilusão de que tudo, ou o mais importante, estava mal com Aznar. Para tal, já começou a atirar pedras para o Iraque. Disse e quer fazer. Quer os espanhóis fora do Iraque, pois sabe que ainda é cedo para discordar da vontade do amável eleitorado. Ainda é a fase da política emocional.

Assim, encontrando-se sozinho face a ele mesmo, face às próprias propostas, Zapatero tem de confirmar o que disse. E, para isso, tem que se virar para a Europa. Para agradar aos eleitores e, ao mesmo tempo, não ficar sozinho no plano internacional, a única hipótese é, mesmo, fazer-se passar por um europeísta convicto e, como se diz na gíria, "entregar o ouro ao bandido", que, neste caso, é francês. Assim, a europa prepara-se para dar um passo final na questão da Constituição Europeia. Para desprazer de todos nós, Chirac e Schroeder ganharam um novo aliado na "europeízação", e muito forte, sobretudo agora que Espanha cresceu. Espanha era o entrave aos megalómanos desejos de Giscard e Chirac, e agora é o grande motor, é aquilo que faltava aos adeptos da uniformização da UE sob um só poder. Infelizmente, a Polónia já se resignou e afirmou estar "flexível" para negociações. Com Espanha e Polónia "derrotadas", Inglaterra subsiste, pelo menos por agora. No entanto, até uma possível mudança de Blair para Howard, ainda vai um longo período, período esse que poderá vir a ser fatal a todos nós que desejamos uma União Europeia e não "Europa" pura e simples.

O meu desagrado é tal que já não suporto ver qualquer um destes dois homens, quanto mais os dois juntos celebrando mais uma pequena mas ameaçadora vitória sobre os feudos da Europa...

Passeio de sábado

Ontem foi dia de passeata. Em todo o Mundo, o objectivo tinha dois sentidos: marcar, pela negativa, o dia em que se começou a operação no Iraque; e “ser pela paz”. Sim, ser pela paz, porque é isso que se quer naquela massa uniforme de seres humanos levados pela mão como crianças. Á frente, os novos jovens intelectuais (ou talvez não) não-pensantes da sociedade livre (a que abominam), na retaguarda os terríveis bem-pensantes da esquerda, e, pelo meio e em todos os sítios, o povo, o imoral e bem-intencionado povo. Gritou-se à paz, cantou-se, tocou-se, vestiu-se roupa clara, fizeram-se caricaturas dos líderes mundiais, cuspiu-se para o espectral G8, chamou-se macaco a Bush, cherne a Durão, enfim, tudo aquilo que, habitualmente, extravasa dos estádios de futebol para as ruas quando a política “é do povo”. Porque quem não grita no estádio, tem que gritar na avenida.
Quis-se dizer Não à guerra no Iraque e ao terrorismo e Não à morte de civis e inocentes, e acabou-se dizendo “bem-vindo” ao terrorismo em massa pelo bem da convivência de perspectivas "diferentes" da sociedade e do mundo, e gritando “acabem com a opressão de Israel”. Por outras palavras, preencheu-se um dia livre com boas intenções e com campanha eleitoral grátis. Mais um dia para confirmar ódios e ostentar, sem pudor, a ignorância de que padecemos cada vez mais. Não sabemos nada de nada, mas quem mais culpado disso senão o “monarca do véu conservador e belicista” que a todos nós governa? Enfim, foi mais um dia na vida do novo mundo, queimando racionalidade em todos os idiomas.

Sexta-feira, Março 19, 2004

I quote

O liberalismo não é o socialismo e não o será nunca (...). O socialismo pretende destruir a riqueza, enquanto o liberalismo pretende acabar com a pobreza (...). O socialismo ataca o capital. O liberalismo ataca os monopólios.

- Winston Churchill

Quinta-feira, Março 18, 2004

Não ter medo

No editorial de ontem do Público, intitulado "Não ter medo", José Manuel Fernandes explica que, embora a tarefa de definir o tipo de ameaça terrorista a que estamos sujeitos e as medidas para o prevenir esteja urgente e exclusivamente reservada ao governo, nós também temos uma tarefa não menos importante: viver sem medo, sem ceder à intimidação terrorista:

"Será que ainda posso ir ao 'Rock in Rio'?" "Não é perigoso ter comprado um bilhete para a final do Euro?" "E Fátima, no 13 de Maio?"
Ao longo dos últimos dias estas perguntas ouvem-se por todo o lado. Só podem ter uma resposta: vão onde desejam ir, façam a vida como sempre a fizeram, não cedam à paranóia. Mas também implicam uma exigência: queremos autoridades mais atentas, melhor preparadas, treinadas e equipadas. Modificar o nosso modo de vida, ceder ao medo, fecharmo-nos em casa, seria fazer o que os terroristas querem que façamos, seria vergar perante a intimidação. Para que tal não suceda devemos também pedir mais aos responsáveis políticos.


Este excerto de José Manuel Fernandes é muito importante para definir aquilo que realmente é importante quando nos defrontamos com uma ameaça deste género, isto é, que é, quer queiramos quer não, estranha à nossa cultura, e que não se importaria em eliminar o nosso modo de vida (ocidental). Mas não me refiro à cultura ou religião islâmica, refiro-me, sim, à cultura "política" e ao modo de vida submetido à sharia a que os potenciais terroristas islâmicos estão submetidos. O principal alvo daqueles homens não é um tipo de modelo económico, não é um tipo de religião, não é um tipo de governo, é toda uma cultura, toda uma tradição de laicismo, de liberdade, de democracia que já nos é imprescindível e que marca a grande diferença entre as duas sociedades. E é esta liberdade que eles querem atingir. Refugiarmo-nos no medo, nas nossas próprias casas, não sair, não dar nas vistas, não se juntar a grandes aglomerados, não frequentar locais "famosos" ou muito frequentados, etc, etc, é a grande vitória desejada pelo terrorismo islâmico. Mas isto não é novo. E José Manuel Fernandes explica porquê mais abaixo.

Em segundo lugar, é necessário falar aos portugueses. Explicar-lhes que estes riscos não são novos, que não há lugares completamente seguros, mas que a vida continua e temos de a levar por diante, com determinação. Dizer-lhes o que devem fazer para que cada um possa ajudar à segurança colectiva, tarefa difícil pois não podemos passar a desconfiar todos uns dos outros e não há nada mais elusivo que o terrorismo.

Isto não é novo, é verdade. Passo a explicar. Estamos em estado de alerta. Estamos, sobretudo, e isto tem de ser aceite, em "estado de guerra". Mas nada disto é novo. Desde o 11 de Setembro que sabemos que o terrorismo não é estritamente político e, sobretudo, que as vítimas não são cirúrgicas. O 11 de Setembro foi o lamentável início de uma nova era de combate ao terrorismo internacional e, mesmo, regional (aqui refiro-me a separatistas). Já o 11 de Março passado foi diferente. Não mudou nada, pelo menos para os mais atentos. Para mim, foi como se o ataque já tivesse sido em Portugal. Sempre estivemos expostos, sempre estivemos em risco, mas é um risco que não se pode suprimir. É impossível garantir 100% de segurança. Dizia Kennedy que qualquer assassinato é possível, desde que se esteja disposto a fazer sacrifícios, e isto é cada vez mais verdade com o tipo de ameaça que, embora não não seja novo, é cada vez mais agressivo e meticuloso.
Diz ainda JMF:

Por fim é indispensável repetir as vezes que forem necessárias que Portugal, se corre algum risco, é porque é uma democracia liberal e faz parte daquilo a que os fundamentalistas designam como "cristandade". (...) a Al-Qaeda não faz distinções em função das políticas externas deste ou daquele país. "Vã", "absurda" e "cobarde" foram mesmo os termos utilizados pelo director do "Le Monde", Jean-Marie Colombani, para designar a tentação de alterar o rumo da política externa como se isso pudesse comprar uma trégua. A Al-Qaeda não "retalia", como alguns desgraçadamente sugerem.

Aqui pouco se pode acrescentar. Para além de que este é um risco que todos corremos por um combate que todos devemos travar: pela democracia e contra o terrorismo.

Segunda-feira, Março 15, 2004

PSOE ganhou em Espanha

Moralmente, o pior que podia acontecer neste momento em Espanha, nas eleições, aconteceu. Ganhou o reaccionarismo de esquerda; ganhou o falso pacifismo (ou "pacifismo oficial"); ganhou a crença de que um bom governo ou um bom governante, e consequente crescimento económico, não faz um povo feliz consigo próprio; e, sobretudo, ganhou a crença da neutralidade e do verdadeiro isolacionismo. Numa era onde não se pode ser neutro, onde é impossível ser neutro, os espanhóis, como muitos outros estão preparados para fazer, votaram-se à unanimidade do "eu", da "Espanha sem posição" para não ser uma Espanha que combata (hoje em dia combater algo é já doutrinariamente contra o pacifismo). Em Espanha, ontem, ganhou o PSOE, ganhou a ETA e ganhou a causa terrorista. O método terrorista teve, infelizmente, o efeito pretendido.

Sábado, Março 13, 2004

Ecos

A tentação moral, aliás, produz coisas destas: analistas portugueses tentando acreditar que a autoria foi da al-Qaeda para que isso atinja mais o governo espanhol. Só assim se compreende que certas luminárias tenham avançado desde logo para a tese da culpa americana, que hoje está em saldo e com grande aceitação no eleitorado. No dia 12 de Setembro, um dia depois do ataque ao WTC, o fórum TSF deu voz a esse sentimento (não foi preciso esperar pelo Afeganistão e pelo Iraque) de má-fé: eles tiveram o que mereciam.

- Francisco José Viegas, in Aviz

Inevitável

Já se esperava este tipo de reacção em Espanha. Penso que é inevitável. A enorme tensão e medo actuais tornaram-no, mais do que legítimo, "correcto". Todas as pessoas deviam pedir explicações ao seu governo quando se tratam de questões internas. Penso que isso é comum a todos nós, que vivemos em democracias e, portanto, não deve ser encarado como excepcional ou perigoso. As vozes devem-se erguer. Agora que se ergam sem razão e orientadas política e popularmente, naquilo a que se chama a "massa", já não se poderá ver como legítimo.
Não querem acreditar que seja a ETA simplesmente por isto: porque querem acreditar que foi a Al-Qaeda. Pessoalmente, também acredito que foi a organização islâmica. Mas isso não invalida as acções que se têm feito contra todo o tipo de civis inocentes em Espanha, acções terroristas que se tem perpetuado por causa da ETA, e que assim continuarão. O tipo de orientação dos protestos indica também outra coisa: se o ataque fosse feito pela ETA (o que ainda não estã definido se foi ou não) não haveriam tantas pessoas nas ruas a gritar contra o terrorismo basco, que, certa forma, é uma das "vergonhas" do PSOE e dos seus apoios.
Disse, nos posts anteriores, que sentia náusea ao ver e ouvir a esquerda portuguesa, em especial o BE, politizar o terrorismo e a morte. Errei, não é só o BE, não é só em Portugal. O que não quer dizer que eles também não sintam a triste brutalidade do atentado.
Disse, também, que o terrorismo, os grupos que o apoiam, como a al-Qaeda, o Hamas, a ETA, as FARC e o IRA (...), e os partidos que apoiam esses grupos são os únicos "alvos" a abater para encostar as forças terroristas à parede, mesmo sabendo que o terrorismo nunca iria acabar. Disse-o porque já esperava a reacção popular. Para a "massa", os "assassinos" são os governantes, são aqueles que combatem a ETA, são aqueles que também já viram inúmeras baixas ao longo dos últimos 40 anos.
Por fim, sublinhei que a ETA e a Al-Qaeda são a mesma coisa para mim. E nisso continuo a acreditar.
Mas nada disto é novo. Por respeito a todos os inocentes, a todos os expiados, a todas as vítimas dos ataques de quinta-feira, não vou polemizar mais. Mas gostava que se deixasse de manchar de sangue as mãos de quem convém manchar. Gostava que se deixasse de ver três jogadas adiante, como num jogo de xadrez. Sobretudo, convinha lembrar que, neste momento, uns por inocente memória das vítimas de Madrid, outros por razões políticas em cima de razões políticas contra razões políticas, muitos aplaudem a Al-Qaeda e a ETA na capital espanhola.

Sexta-feira, Março 12, 2004

William Turner



Slave Ship (Slavers Throwing Overboard the Dead and Dying, Typhon Coming On), 1840

Blogs reaccionários

Acrescentei mais dois blogs muito políticos, brasileiros, aos links. O Reacionário e o Direita. São os primeiros links brasileiros que faço. O nome é, de facto, sugestivo, mas se não tivesse gostado mesmo de os ler não os tinha acrescentado aí ao lado.

Quinta-feira, Março 11, 2004

Atentados terroristas em Madrid

Também o Bruno e o Paulo souberam do atentado há pouco tempo, tal como eu. E o Bruno sublinha um detalhe que já referi no post anterior: não interessa quem realizou o atentado. Tal como não me interessa que o Herri Batasuna esteja solidário com o povo madrileno, e em especial, como eles disseram, com os trabalhadores - na verdade, manifestarem solidariedade só me fez odiá-los mais. Tal como não me interessa o que poderá resultar para Portugal no futuro, pois já estamos, desde que nos declaremos como nação democrática, sujeitos aos ataques do mundo terrorista. Tal como não me interessa saber quem condena atentados como o de hoje, mas interessa-me, sim, saber quem será capaz de realizar qualquer tipo de atentado no futuro. Nada disso me interessa quando o sangue madrileno ainda está quente nas calçadas da capital espanhola, quando as ruas ainda estão manchadas de sangue, de lágrimas e de vultos humanos.

O terrorismo como "método excessivo em nome de uma causa", ou "acto desesperado", ou "única arma dos pobres oprimidos" é uma ilusão, uma hipocrisia, uma imbecilidade. As populações pobres acedem à violência para conseguir comer, para conseguir ter bens, para ser felizes. As populações pobres não derramam o sangue de centenas de pessoas (hoje já houve 130 vítimas mortais confirmadas) por uma causa, pelo menos desde a cegueira de 1917. A causa aqui é mais do que pessoal, é política, é civilizacional, é tudo menos boa intenção. Por isto, só posso sentir náusea ao ver e ouvir a esquerda portuguesa, em especial o BE, politizar o terrorismo e a morte.

E é assim que a democracia está cada vez mais ameaçada por inúmeras frentes, mas há uma que me preocupa mais que as outras: aqueles que acham que o terrorismo é triste e condenável, mas que "só acontece porque...". O terrorismo, os grupos que o apoiam, como a al-Qaeda, o Hamas, a ETA, as FARC e o IRA (e todos os outros dos quais não me lembro o nome), e os partidos que apoiam esses grupos são os únicos "alvos" a abater para encostar as forças terroristas à parede, mesmo sabendo que o terrorismo nunca iria acabar.
Enfim, gostaria de saber quantos acham que a data escolhida, 11 de Março, é oportuna e se traduz numa piada de muito mau-gosto mas que, enfim, é motivada por uma causa... Por outro lado, estou farto do activismo anti-guerra e da tentativa de compreender a "razão de ser" dos atentados terroristas, que se juntam para formar uma amálgama de emoções muito mais complexa mas difícil de explicar...

O inimigo sem face

A pergunta faz-se nos canais de televisão: ETA ou Al-Qaeda? Não importa, o ataque, levado a cabo seja por quem for, é uma prova de que o maior inimigo do mundo, e não só do ocidental, não tem nação. É o inimigo sem sem rosto, o inimigo escondido que, caia as vezes que cair, levantar-se-á repetidamente. Por outro lado, é mais uma oportunidade para os pacifistas das nossas sociedades, que tanto choram por Bush ainda estar na presidência americana, abrirem os olhos para uma realidade: é por haverem líderes como George W. Bush que ataques como o de hoje não se fazem com armas nucleares, biológicas ou químicas. De qualquer forma, muitas pessoas tem prioridades trocadas... mas não tenho pena deles.

Tenho pena, sim, dos espanhóis. Não da Espanha, mas dos espanhóis, que não esperavam mais um inimigo deste tipo. Hoje é mais um dia triste para todos nós.

Famílias diferentes

O Tiago refere, num post intitulado O Perigo da Homofobia, a "necessidade" (não sei se será a melhor palavra) de se fazerem mais concessões ou criarem mais facilidades à adopção por casais homossexuais, de forma a que se possa permitir que estes possam adoptar, e sem problemas, crianças que se encontrem em orfanatos ou instituições dentro do mesmo género. Vou partir de um ponto em que estamos de acordo: a situação das crianças que seriam adoptadas.

O Tiago diz que "será muito melhor possibilitar a adopção de crianças a casais homossexuais dispostos a lhes proporcionar amor e afecto do que simplesmente deixá-las em instituições de “luz artificial” (isto é, sem contacto afectivo ou efectivamente afectivo)". Neste ponto, tenho que concordar com ele. Aliás, já noutras discussões tinha alertado para o facto de, independentemente dos problemas de identificação social e familiar que a criança poderia ter, ser importante que cresça num meio que lhe seja mais pessoal e mais fechado, menos institucional, digamos. Na verdade, apesar das instituições que acolhem crianças órfãs ou abandonadas serem, muitas vezes, sustentadas por voluntariado, o que, regra geral, melhora a qualidade e garante maior sinceridade dentro deste género de serviços, a grande realidade resume-se à incapacidade das mesmas de acompanharem o crescimento das crianças a partir de uma certa idade (a partir da idade escolar). Quanto a isto estamos de acordo.

No entanto, também tenho de discordar em quase todos os outros pontos. O Tiago diz que os problemas psicológicos que a criança pode criar, devido a se encontrar numa situação familiar destas, são minoritários e também podem aparecer em crianças que vivem sob a tutela de um casal heterossexual. O lapso do Tiago tem a ver com o facto de que o grande problema de integração que a criança pode sofrer não virá de si própria, mas sim dos seus demais, dos colegas e amigos que, tendo em conta a actual posição da sociedade face à própria homossexualidade, seria de alguma estranheza para com o miúdo. E todos nós sabemos que o maior problema psicológico que o ser humano pode facilmente ter não tem a ver consigo mesmo, mas com os outros, com a comparação do que tem ou do que é com aquilo que os outros têm, são ou acha que são. E acho que será desnecessário referir os gravíssimos problemas que as crianças e jovens têm quando se sentem diferentes...

Mas esta não é uma posição sólida contra a adopção por casais homossexuais. Ao contrário do que penso em relação ao casamento homossexual, que é um absurdo do equalitarismo desmedido e primário, e que está ligado sobretudo à tradição, à família e à descendência, a adopção tem tudo a ver com os dias que correm, especialmente em relação às crianças que não têm pais ou não sabem quem são e que, por isso, vivem num orfanato. Respeito estas instituições, mas não as creio mais tradicionais e mais "paternais" que um casal homossexual com uma vida e com uma vivência estáveis. Mas também não acho que os dias que correm sejam os mais propícios para entregar as crianças a casais de pessoas do mesmo sexo. Por uma simples razão: mentalidade. As mentalidades de hoje em dia não estão preparadas para aceitar estas situações. Nem a comunidade homossexual em geral está, muito menos nós...

Quarta-feira, Março 10, 2004

A educação das Luzes

As escolas primárias em Portugal sempre me fascinaram, e ainda fascinam. O facto de se terem levantado novas questões em relação à educação e aos exames no Ensino Básico lembrou-me, precisamente, a minha própria e terna experiência de escola primária.

Um dia, na chamada quarta classe, uma nova professora ficou encarregue de nós. Muito mais nova que a anterior, adivinhavam-se novos "métodos" e novas mudanças. Não gostava de mudanças, ainda não gosto. Mas essas começaram imediatamente, quando ela resolveu juntar os esforços dos petizes para trazer livros para um canto da sala de aula, que tão afincadamente decorámos e destacámos. Que orgulho! Mal sabíamos a finalidade que teria aquele instrumento que a nossa inocente e voluntária servidão edificara... A cruz dos meninos da sala viria a ser aquele gélido goulag cultural.

A dura realidade ganhou forma e face quando alguém pisou a linha. O menino nem sabia o que o esperava. Um castigo que atormentaria inúmeros portugueses da minha geração uma década depois. A professora mandou-o para o inédito canto. O rapaz lá engoliu o orgulho e sacrificou-se à infantil auto-promoção heróica. Lá chegando, a professora falou-lhe baixinho, e o menino rebentou em prantos. Respirou-se medo por um momento. Vendo-nos apavorados, a tutora viu-se obrigada a explicar o vindouro terror robespierriano. O aluno construíra a sua própria guilhotina. Tipicamente português, o castigo do menino era ler um livro...

Terça-feira, Março 09, 2004

Boa vizinhança

Acrescentei o Transumâncias aos links. Poesia, música, cinema e outros são os temas de grande potencial no blog. A acompanhar este blog de uma ilustre amiga.

Segunda-feira, Março 08, 2004

Ideologias siamesas

O bolchevismo estalinizado e o nacional-socialismo constituem os dois exemplos de regimes totalitários do século XX. Não só são comparáveis, como formam, de alguma maneira, uma categoria poítica.

- François Furet, O Passado de uma Ilusão.

Domingo, Março 07, 2004

Traffic

Voltei a ver Traffic, de Soderbergh. Para ser sincero, e alguns amigos espantam-se quando o digo, não gosto de Sex, Lies and Videotapes, para muitos um grande filme, dos melhores do realizador. Quase todos adoram, eu não gosto. Por nenhuma razão em especial, simplesmente porque não tem nada de mais aquele filme, especialmente se comparado com outros filmes do mesmo realizador (Traffic e Ocean's Eleven são ouro).

Enfim, Traffic é um dos melhores filmes que já vi, pela globalidade: a montagem, o argumento, o elenco, o realizador. Mas a razão porque o revi foi Del Toro... Um portento de actor e de interpretação.

Interrupção da Responsabilidade

A questão, ou as questões, do aborto (ou IVG, para quem não gosta de chamar as coisas pelo nome) desceu, de novo, à rua. E desceu literalmente, pois tenho visto, perto da Assembleia, diversos protestos em defesa da despenalização do aborto e, consequentemente, da despenalização das mulheres que os fazem (isto é, que se submetem, as "mães").

A grande dificuldade em conseguir uma lei que garanta, perdoem-me a expressão, "satisfazer" as diversas causas e credos de todos os portugueses representados na Assembleia, tem origem na dificuldade de ver o problema à luz das verdadeiras questões, do everyday life. Sempre o disse, e digo aqui, que o aborto é permitido em quase todos os casos excepcionais (malformações, agressões sexuais, risco de vida da mulher,...) que se integram nas situações que, durante os últimos anos, foram apresentadas como "razões" quando, na verdade, são quase como "desculpas". O que deixa quase isolada a questão pura e simples do "filho não desejado": seja por razões económicas, psicológicas, de mera incapacidade de se ser mãe (caso seja uma adolescente) ou outras quaisquer terminações circunstanciais que a mulher poderá ter ou prever para enveredar pela via da interrupção da gravidez.

Ora, na Assembleia o assunto caíu numa espécie de romantismo religioso-partidário. Os dois partidos mais activos nesta discussão, CDS-PP "contra" a despenalização, Bloco de Esquerda a "favor", quase criaram uma espécie de fundo doutrinário que estipula os termos que os seus deputados vão discutir. Deixou de estar em questão se a mulher que abortou podia ou não ter o filho, se o podia ter criado e não criou por comodismo moderno, da fuga às responsabilidades que se tornará um fio imperceptível sempre prostrado no chão, imperceptível até que se tropeça nele... E esta lei será isso mesmo. É provável que seja alterada para algo que satisfaça o moderno sentimento de independência da mulher (com todo o direito, até um certo limite, o que se discute aqui), a oposição política e o laxismo humano, mas, a longo prazo, as consequências em todos nós e na sociedade dos nossos filhos far-se-ão sentir. As razões, cada vez mais restritas na discussão, para abortar são estas mesmas, e não o lastro judicial que se anexa quando se referem violações e malformações, pois essas já estão incluídas na lei (corrijam-me se estou em erro).

Deixem-se de programas de partido e discutam pela razão e não pela "luta". Sejam razoáveis e inteligentes, e não "modernos", pois há coisas que não devem nunca mudar, especialmente em relação à vida humana e às decisões sobre a mesma. Para mim, quanto à questão do aborto, neste momento a Lei e a política rodam em torno de uma única questão central: a responsabilidade de cada um.

Sábado, Março 06, 2004

Carta

Uma pequena nota para o limitado, mas fiel, militante da "supra-esquerda" (aqui refiro-me a todos os partidos trotsquistas, maoístas, comunistas sul-americanos, da orla do Bloco de Esquerda):

Caro leitor, estou solidário consigo. Sei que tem tido problemas em dormir de noite, preocupado com a hipótese de George W. Bush vir a ganhar de novo as eleições. Sei que acorda noite pensando que não consegue ajudar as populações que vivem nas regiões mais pobres e que sofrem o atrito do capitalismo americano ou do comércio internacional. Sei que está preocupado com todas as mulheres entre os 16 e os 20 que, contra e desumana lei, terão de fazer um aborto para poder continuar a ter tempo livre para a luta contra a injustiça, contra a guerra e contra os conflitos aqui ou ali. Sei isto e muito mais. Por isso comove-me a sua impetuosidade, a sua energia, a sua dinâmica e, sobretudo, o seu poder de repetição (coisa que, honestamente, admiro) em relação aos grandes problemas da nossa sociedade e do nosso mundo.

Admiro, também, a sua energia ao envergar o vestuário de activista. Desde os lenços característicos da Palestina (independentemente de ser fabricado lá ou numa casa do Barreiro, o que importa é o simbolismo) às vestes de Che Guevara, tudo é agradável à minha vista. Aliás, sabe, certamente, que Che Guevara, tal como Trotsky, não são muito diferentes de Fidel Castro e Estaline, à excepção de que os primeiros eram capazes de matar pela própria mão e de ter prazer ao ser noticiados do extermínio de norte-americanos ou britâncos.

Por outro lado, admiro o "idealismo activista" tão comum a todos vós. Aquela crença que, figurativamente, vê como um crime disparar contra um homem que tem uma faca. Em conjunto com a máxima "os fins justificam os meios", o quadro está completo nas mentes mais complexas e mais "esclarecidas" do nosso tempo. As mentes que, dia após dia, como dizia Nélson Rodrigues, "acordam sem passado"...

Not forgotten...

Um senhor não esquecido...

Para variar...

Fim da semana. Fim do dia. Fim do horário de trabalho. Hora de ponta. Surpresa: avaria no carro onde viajava, daquelas que é impossível "remediar". Aprendi que a Ponte Vasco da Gama é insuportavelmente fria de noite, e que o carro não anda sem a correia principal.
Para além de me ter sentido um nómada, fui, de novo, confrontado com surpresas. Ainda haverá quem adore surpresas e "variações"? Não gosto de variar, se não for para algo que já conheça bem. Já variei, em tempos, com uma viagem de ambulância, e agora, com uma viagem de reboque. Haverá, ainda, algum transporte pior à espera?

Quarta-feira, Março 03, 2004

Minus

Escolher os piores filmes de sempre é uma das escolhas mais ingratas que se podem fazer. Mas, em conversa com alguns senhores, aqui o rapaz resolveu lamentar algumas mágoas e alguns arrependimentos cinematográficos e lançar o repto.
Por agora, sugiro alguns filmes que realmente me conseguem intimidar e trazer à memória momentos de profunda aversão.

1- Gerry, de Gus van Sant. Poderia ser mais um bom filme de Gus van Sant, mas não era. Quando percebi era tarde demais. O filme é um mistura inesperada e insuportável de vazio e de longevidade. Realmente não gostei nada, talvez pelo poder de desilusão.

2- American Pie. Qualquer um... Não sei como ainda há sequelas. Não sei como há pessoas que ainda contribuem para que haja sequelas. Talvez não goste mesmo do género de filme.

3- The Mask. Não há nada a dizer aqui. O filme é um dos piores de sempre. Pena, porque o Jim Carrey até tem alguns filmes com alguma piada. Pena, porque até viria a ter o Truman Show no currículo...

4- They Live, do John Carpenter. Para quem gosta de clássicos de terror e da ficção científica, este até é um filme divertido. Até conheço quem adore o filme. Quanto a mim, é dos piores que já vi...

5- Titanic. Nota 20 aos efeitos. Os restantes aspectos nem os quero relembrar.

Origens

Acerca das declarações de Francisco Louçã ontem em relação a Paulo Portas, vou fazer o que ele devia ter feito, ficar calado. Ou talvez não.
Primeiro, não se fazem ataques pouco políticos, mais pessoais, deste género, com o oportunismo tão típico do Dr. Louçã. Portas não é um bom exemplo de dignidade política e de "fazer política", que é algo diferente de ser político, mas Louçã ensinou-nos que o seu carácter ainda é pior e mais terrivelmente inventivo.

Segundo, o carácter e competência de um homem vê-se pela sua evolução. A sua credibilidade talvez. Mas a evolução contará se tivermos em conta 20 anos de "evolução". E em especial se tinha 19 ou 20 anos quando escreveu um artigo que é publicado, quando tem os seus quarenta, para o prejudicar?

Valha-nos Deus se Portas começar a desenterrar as origens, ainda mais sombrias, de Louçã...

Terça-feira, Março 02, 2004

O melhor...Mystic River

Este sim, para mim, o melhor filme. De qualquer forma, não ligo muito aos Óscares. Peter Jackson merecia, no entanto, reconhecimento pelo imenso trabalho que fez. Mas Melhor Filme é que é um exagero. De qualquer forma, após muito ponderar e discutir se seria este ou Lost in Translation, este acaba por ser, para mim, o melhor do ano. Desculpem, mas não resisti a esta obra-prima...



Nota: graças ao meu caro amigo Bruno, já sei pôr imagens no blog. Thank you. Um pequeno passo para o Homem...

Segunda-feira, Março 01, 2004

A náusea

Ao almoço, ouvia as notícias. Um tal Avelino Ferreira Torres andara aos pontapés dentro de um relvado, mas sem ser na bola. Tudo bem, nada de novo no "desporto das cavernas"...

Ao jantar, a mesma notícia na SIC, ao que mudei para a TVI. Pouco depois, enquanto comia esparguete e pensava na vida e no que escrever aqui, a mesma notícia reapareceu, desta vez acompanhada por uma entrevista orientada por Manuela Moura Guedes. Tanto a senhora como o senhor (autarca) insultaram-se e trataram-se como deviam. Para o meu prazer, vi mais um presidente da câmara populista e parvo ser insultado. Como bónus, ainda ouvi a própria Moura Guedes ser insultada. Rejubilei, só lá faltou Miguel Sousa Tavares. No entanto, aquele triste espectáculo perseguiu-me desde o almoço até agora, e tirou-me a vontade de escrever e ser sério...

Domingo, Fevereiro 29, 2004

Amargura

Há, em toda a amargura, um juízo sobre o mundo.

- Albert Camus

A sociedade das "extremas"

Antecipa-me o Tiago com a questão das "extremas" na política. Concordamos, pelo menos, num ponto: a extrema esquerda, a extrema amiga do ambiente, amiga da ideologia, amiga da luta contra "eles" (sujeito variável), os intelectuais, os patronos do politicamente correcto, filhos do antifascismo e antiliberalismo obsessivo germinado no pós-2ª Guerra.
Excluindo os partidos populistas, pelos quais veementemente manifesto alguma aversão e que manterei longe da reflexão, os partidos que se fundamentam ou descendem de ideologias mais radicais agradarão a uma parte mais limitada, definida da sociedade. Será? Não. O populismo tornou-se desnecessário para legitimar partidos de "extrema esquerda" na Europa (com importações do perigoso esquerdismo norte-americano).

Pessoas como Sartre, Bordieu, Chomsky dominaram a produção cultural que vinha dos "intelectuais esclarecidos" para as massas durante as últimas décadas. Esses senhores alertam as populações para os perigos que se formam no seio das sociedades "que julgamos democráticas, que julgamos civilizadas, que julgamos pacíficas", especialmente as que estão no "Império" do outro lado do Atlântico. Mas porque será que estes senhores, ditos intelectuais, são vistos como esclarecidos, lúcidos, inteligentes (mesmo apologistas de Estaline, Mao, Pol Pot, ...), os partidos de "extrema esquerda" são vistos como "alternativas saudáveis", mas os partidos de "extrema direita" (por vezes nem se aproximam sequer, na ideologia, dospontos mais redundantes do fascismo) são indiscriminadamente associados à genealogia de Adolf Hitler e vistos como a "maior ameaça às nossas sociedades democráticas"?

Na verdade, não há resposta directa e simples a esta questão, apenas a confirmação da cultura concebida numa luta idiota contra o ressurgimento das "forças de direita". A "luta" é legítima, mas fechar os olhos às aberrações históricas que se proferem, desde há décadas, em defesa do que se fez, outrora, por uma ideologia "benéfica" (em nome do "povo que trabalha"...), enquanto se olha com repugnância todos aqueles que, talvez influenciados por uma formação ideológica de "extrema direita", tentam aplicá-la sob a aprovação e os votos do povo, então estamos no mau caminho.
Uma vez Álvaro Cunhal disse: Se eu estivesse no poder em Portugal, garanto-vos que não haveria Parlamento. Tendo em vista dimensões ideológicas, imaginem o que não diria Louçã ou algum limitado jovem zelote do PSR. É esse o caminho, então?
Enquanto os tais intelectuais, liderados por Chomsky, continuarem a ovular a nossa cultura, estamos mesmo no mau caminho...

Trivialidades

Neste momento na RTP faz-se uma homenagem a José Hermano Saraiva, historiador. Tudo bem. Pessoas ilustres, pessoas que se destacaram em certas áreas, pessoas com que o povo se identifica, devem ser homenageadas. Mas não irracionalmente canonizadas.
Até me atraem as homenagens. Mesmo aquelas tão tipicamente portuguesas, num programa tão tipicamente de Júlio Isidro. Até me comove de certa forma. Mesmo o senhor Saraiva, professor muito admirado, me consegue cativar quando o põem daquela forma perante mim. O que duvido é que uma grande maioria das pessoas que estão na plateia por decisão própria, aplaudindo entusiasticamente as pequenas máximas do historiador, conheça uma única obra do dito homenageado. Até podem já o ter visto na televisão, mas não saberiam dizer o título ou o tema de uma única obra (escrita) de José Hermano Saraiva. É pena, mas é típico. Caso me engane, caso saibam, então peço desculpas, pois o homem até tem peso entre nós (mesmo que o não admire assim tanto como "todos") e já é, há muito tempo, uma figura adorada (tal como Marcelo Rebelo de Sousa passou a ser há cerca de dois anos) dos portugueses, muito graças à televisão. Faça-se, pois, a merecida homenagem...

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004

A Alemanha e o "complexo do Reich" / a "direita invisível"

Sempre achei que o país crucial da política, da economia e da conjuntura geral da Europa é a Alemanha. Desde os primórdios da política que a Alemanha é, mais do que um palco, um "forno" de tudo o que peak de indústria, cultura, filosofia, arte, política... Mas é também um "forno" de problemas. Dos problemas do continente.

Sendo, como disse, um país crucial, é claro que os alemães têm uma das vozes mais fortes da União Europeia, entre outras organizações que, sendo virtuais para muitos, permitem o exercício de algum poder continental por parte dos países mais fortes. Portanto, a Alemanha é, claro está, um desses países fortes. Desde De Gaulle que a Alemanha (encaremos, neste caso, a RFA) é a pequena mas importante balança nas relações transatlânticas - Europa-EUA - da política internacional. Muitas vezes, as bifurcações políticas" entre franceses e norte-americanos (que são mais um "bater de pé" dos pobres teimosos francófonos do que verdadeiros desentendimentos) colocam a Alemanha numa situação de escolha. Deu-se na década de 60, deu-se na altura do fim da RDA e, mais claro para as gerações mais jovens, na última crise do Golfo. Tendo alinhado pela "via" escolhida pelos países encabeçados pela França, a Alemanha optou por criar um eixo franco-alemão tendo em vista uma (na minha opinião, infantil) disputa da hegemonia americana. Portanto, a resolver a questão do "poder americano", isto é, das suas consequências para a unidade e estabilidade europeia (tanto da União como da economia internacional), a Alemanha terá de ser, novamente, o palco das questões políticas para o séc. XXI. É necessário que se acabe com a hegemonia "rosa", para permitir um governo que assegure uma visão, enfim, mais lúcida e menos "francófila" da situação da Europa Continental perante os EUA e perante o Mundo. Mas esta realpolitik tem tudo a ganhar quando não há um partido de direita forte.

E é esse o grande problema, o maior, da política alemã. A ausência de um partido de direita com condições verdadeiramente boas para assegurar uma viragem do país à direita sem coligações e sem libertar o espectro do militarismo e do nazismo, aquilo a que chamo o "complexo do Reich" (falarei disto num outro post). A CDU e outros partidos com menor força são partidos sem grande força na opinião pública. As pessoas têm medo de votar numa direita desde 50. Mesmo após tantos anos, a Alemanha carrega às costas o "fardo da culpa", lado a lado com o "fardo do poder". Assim, com uma "direita invisível", que se quer e se faz invisível, a Alemanha mantém-se um país de contra-peso numa questão que é crucial para nós: a questão transatlântica.
Para mim, a Alemanha é o centro da Europa. Precisa, também, de ser o centro da política. Um eixo, mas virtual, e sem interferências parisienses.

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004

O Fim da história

Aqui a história é mesmo assim, com "h". O Na Estante, com o qual até andava a colaborar, acabou. Dele apenas ficou a experiência dos blogs e uma vontade de escerever, que esteve sempre em segundo plano no blog. Desta forma, deu-se o fim daquela história e o nascimento de outra. Surge o Certeza da Dúvida, do mesmo autor, "sem dúvida", de qualidade...

Terça-feira, Fevereiro 24, 2004

Copos e narizes vermelhos

Afinal, porque festejamos o Carnaval? Será para aproveitar a única oportunidade (ou uma das únicas) que temos de ser aquilo que nós, portugueses, mais gostamos de ser? Engraçadinhos, ébrios, idiotas, enfim..."palhaços".
Tirando as crianças e jovens até, sensivelmente, aos 16 anos, nunca percebi a real obsessão pela festa em massa, pelo ambiente de "fête-total", do povo em festa, qual libertação de um opressor, apenas que, neste caso, o opressor somos nós mesmos, e a vergonha. Assim, durante 3 dias, o povo sai, dança e distrai-se. Para quem não se diverte com a sabedoria ou com british nonsense, o Carnaval é, provavelmente, o apogeu das criaturas que adoram palhaçada: aquelas que aplaudem a caricatura de Durão Barroso em forma de peixe, mas que conhecem mais do cherne do que do senhor; aquelas que dançam para alegrar, mas cuja figura já é por si triste; aqueles que se vestem de mulher, cada ano se esmerando mais; enfim, todas as possíveis variantes do "povo em festa".

Na verdade, estes dias são a única altura do ano em que os idiotas se tornam Idiotas e que pessoas mais sérias passam por idiotas igualmente, passando a haver uma linha mais ténue entre as duas qualidades de honrados cidadãos portugueses. Reflectindo livremente, a verdade é que o país até seria um país muito melhor se os palhaços apenas saíssem à rua no Carnaval...

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2004

25th Hour

Finalmente, aluguei A Última Hora (25th Hour). Sempre adorei Spike Lee. O Do The Right Thing e o Boyz'n'Hood são, para mim, dois clássicos do cinema americano. No 25th a história é, no entanto, muito mais complexa. Aborda muito o trato psicológico das diferentes personagens e as escolhas que eles têm de fazer durante um dia. Escolhas de Monty (Edward Norton, um portento nesta interpretação), Frank (Barry Pepper), Jakob (Phillip Seymour Hoffman) e outros, como o seu pai, mas principalemente as escolhas de Monty, o personagem central. A história, muito ao estilo "urbano" de Spike Lee, decorre em redor de Monty, que vê a sua vida mudar drasticamente ao ser apanhado na posse de droga e ser condenado a 7 anos de cadeia. O último dia deste antes de dar entrada na prisão é passado numa evolução quase regurgitante de ódios, amores, amizades e dúvidas.

Para ser sincero, fiquei um pouco decepcionado, pois espero sempre muito de Spike Lee e da espontaneidade do argumento. Mas penso que o que aconteceu foi a mudança de estilo para algo mais virado para as personagens (seguindo à risca o livro que deu origem ao filme) e menos para a estruturação do argumento. No entanto, é um grande filme, ao estilo "New York story", e com mais um retrato da sociedade norte-americana (enganem-se os que esperam ver um retrato à maneira do insecto Michael Moore). Interessantes as partes em que as personagens falam e vêm o "Ground Zero" pela janela do apartamento. É mais um filme de Spike Lee que deve ser visto com muita atenção, e uma interpretação muito boa (não digo excelente porque já vi muito melhores) de Edward Norton e outra, que, pessoalmente, gostei muito, de Brian Cox, que interpreta o pai de Monty. Mais um dos filmes que passam um pouco ao lado da "indústria" mas que mereciam um lugar de destaque. Muito bom.

A memória do eleitor

Afinal, segundo o próprio, Santana Lopes não vai concorrer contra Cavaco. Não quer defrontar o ex-patrão nas urnas, diz o senhor. Por outro lado, Guterres também já deixou no ar leves rumores que se agitam com o vento mas confundem a vista: pode não ser candidato a Belém. Santana está onde queria, não vai arriscar perder tudo para ganhar nada, e muito menos ma derrota prematura à imagem que (talvez) quer transmitir. Já Guterres está onde "nós" o queremos, a memória ainda está fresca para muitos. Para a esquerda talvez seja o Messias, mas para o apartidário povo é ainda um "fugitivo" político.

Portanto, pela lógica da "memória à portuguesa", o acaso deixa-nos com duas vias de voto muito demarcadas para o comum e ponderado eleitor. A via de quem gostou do governo de Cavaco e a via de quem não gostou... Mas até 2006 ainda muito há para fazer e definir. Até lá devíamos continuar a pensar no que é importante. Afinal, quantas vezes por ano sabemos o que anda a fazer o sempre etéreo Presidente da República?

Voz da ausência

Esta tarefa de manter a cabeça fria, para escrever algo com sentido no blog, é difícil, especialmente nos períodos mais conturbados. E este é um período assim. E como não gosto de "diários cor-de-rosa", direccionarei desabafos e comentários viperinos para o papel e para a família. O Mundo vai ter que esperar.
Por vezes penso acabar com isto. Mas penso que sou demasiado teimoso para desistir de algo que adoro. Apenas estou a desfrutar de uma longa ausência, que terminará assim que reunir forças e reorganizar o meu espírito crítico e de trabalho.
Ultimamente até a ler me demoro demasiado nas primeiras páginas. O cansaço intelectual anda em baixo. Este é o tempo da esquerda. Deixem-nos a eles pensar agora. Assim que puder voltarei à carga. Até já.

Domingo, Fevereiro 01, 2004

Are you awake?

Desfrutando de uma amena tarde de ócio, fui, finalmente, ver Lost in Translation. Nunca tinha visto Coppola (falha-me o The Virgin Suicides), nunca tinho visto Johansson. Surpresas genias para mim o que foram confirmações para outros mais devotos. Quanto a Bill Murray, não poderia apontar-lhe o dedo. Um excelente actor (como eu digo, ele mesmo é uma personagem, antes de actuar já tem um talento em bruto), mas nunca o pensei capaz de me levar quase às lágrimas, daquelas que não correm, que não têm forma.

Em tom "sabido" e de gozo, disse ao Bruno que um filme não se deve repetir antes de um bom tempo de interiorização. Mas eu não sabia que filme era, mesmo. Vi na Sexta. Vi no Sábado. Sem palavras...

Sábado, Janeiro 24, 2004

Lamentações

Há quem diga que tenho laivos esquerdistas. Um esquerdismo desobstinado, a espreitar a justiça social. Talvez...mas isso prende-se sobretudo com uma juventude comum a muitos outros, de crenças e sonhos. Penso que nada tem a ver com política, mas sim com bases e origens sociais. Nada tem a ver com a justiça social baseada na inveja do cidadão que vê o outro enriquecer rapidamente, mas com a justiça social que impede que se caia num poço sem fundo. Pela "antecipação", um qualquer bem singular não dará para dois homens. Caso o mais fraco perca todas as oportunidades, poderá ver-se num poço sem fundo, no fundo é uma preocupação social com aqueles que poderiam ser eu mesmo. Apenas isto, e nada de ilusões visionárias, paixões políticas e sociais românticas ou perigosos jacobinismos...

Para mais, na arte, acabo por admirar socialistas ou realistas como Vincent van Gogh, Albert Camus, Chaplin, Eça, e outros mais graves dos quais não pronunciarei o nome. Perigosos esquerdistas e diletantes, é certo. Sem grande poder influenciador, mas cá estão. Por entre a imcompreensão que reservo à esquerda, encontra-se este "respeitinho" à perseverança, ao torpor da desilusão, e aos incorrectos rebentos reaccionários. Mas, no fundo, não passam de artistas...

Mais dois...

Decerto devem ter reparado em algumas adições na minha lista dos blogs "diários". Tenho-o feito indiscriminadamente, talvez ferindo algumas susceptibilidades. Optei por dividir, não propriamente entre quem gosto/não gosto, ou quem leio mais/menos, mas por aqueles com quem mais concordo e outros que ou discordo completamente, ou dou algum crédito, mas que gosto, ainda assim, de ler. Muitos outros blogs de qualidade ficam e ficarão de fora, até os "descobrir" melhor. O Céu em Fogo e o Na Estante são as duas mais recentes indústrias de produção intelectual a figurar na minha muito ínfima lista. Dois bons amigos mas, como é óbvio, dois bons blogs. Ambos na mesma orientação direitista e pluralista que eu.
Por vezes tenho pena de mim próprio. De querer e poder, mas sentir-me livre para não fazer. E o blog não é excepção à mais humana regra de todas. Na minha recente enfermidade, deparo-me todos os dias com este local para escrever alguns pensamentos, ódios, críticas, mas acabo sempre por não o fazer. As minhas últimas 72 horas foram passadas com médicos, analistas e demais zeladores da saúde pública, Revel e algum estudo. Mais não consigo. Paciência... Lá diz o povo, amanhã também é dia.

Terça-feira, Janeiro 20, 2004

O papagaio de Churchill

Hoje, sem assunto mas com muito trabalho pela frente, encaminho-vos para aqui. Pessoalmente não acredito na veracidade do artigo, mas vale a pena ler para relembrar grandes senhores.

Domingo, Janeiro 18, 2004

O Quiosque

O PCP já tem uma loja virtual. O nome eleito e escolhido foi "Quiosque". Por agora mantiveram a produção pela t-shirt vermelha com foice e o martelo, tapetes de rato e gravações do Avante, para não atrapalhar o fluxo comercial. Proponho a venda do Kit Revolução Operária (t-shirt do ido PCUS, cartilha marxista, espingarda barata), do boneco voodoo de Mário Soares, de cassetes da História do Alentejo para revisitar o passado, e do busto de Cunhal. O DVD das performances artísticas de Boris Ieltsin sei que nunca passaria pela aprovação do Comité...

Ali mandam elas...

O Pedro Lomba chama, hoje, a atenção para algo bem caricato. Algo com o qual concordo profundamente e que evito repetir ao público femino para prevenir reaccionarices feministas. Ele diz que não percebe a permanente vedação da discussão aos homens. Aliás, eu nem sei porque é que ser mulher implica perceber medicina e o funcionamento exacto de todos os seus órgãos. É o mesmo (falso) know how que ouvimos em conversas com ex-clandestinos ou ex-presos políticos, mesmo aqueles que apenas escreviam nas paredes. Quem nunca esteve preso, não percebe como tudo isto funciona, não percebe o sentido da conversa, pois claro!

Sábado, Janeiro 17, 2004

Memo

Hoje almoçei no MacDonald's, sede da economia transatlântica do "Império". Comi e não gostei. Nunca gosto. Mas enquanto o fazia lembrei-me das pessoas que dizem que a "globalização" destrói culturas. Que a "globalização" impede que se desfrute das culturas que são secundarizadas. Que esta não dá tréguas às culturas dos locais "globalizados" ou "integrados". Mas também me lembrei que os atentados terroristas (refiro-me aos praticados por pró-islâmicos suicidas) são engendrados e feitos, muitas vezes, por quem come em locais daqueles, tal como eu, e bebe Coca-Cola, tal como eu...

Sexta-feira, Janeiro 16, 2004

Vamos a votos...

Hoje, assim que consegui atravessar o "lodaçal" e o "manto negro" dos problemas técnicos da internet, começei o dia da melhor maneira, com este post (cartoon) do Mata-Mouros (espero ter linkado correctamente)...

Abstraccionismo ideológico

O abstraccionismo, quando levado a sério e transposto para uma qualquer prática, é um perigoso instrumento de massas. É uma ilusão que pode destruir, assassinar e regredir para o "nada", em nome de um castelo construído nas nuvens. Mas perguntam já, certamente, a que me refiro com abstraccionismo. Ao comunismo, como é óbvio... Mas deixemos a utopia por agora, passemos, de momento, ao praticável e analisável, o socialismo.

O socialismo é a ideologia entendida, neste sentido, como a orientação do Estado em direcção à protecção da igualdade dos cidadãos, prioridade face à protecção das liberdades individuais. Ora, tal é ponto assente e aceite por todos nós. Antes do mais, pergunto porque se confunde igualdade de direitos e liberdades com igualdade económica e de "capacidades"? Será que esta última não será mais um dever do que um direito ou garantia? A liberdade, essa sim, é, ou deve ser, a principal prioridade de um Estado, começando na via jurídica e constitucional, e acabando no quotidiano dos escalões mais básicos da sociedade. Darei um exemplo simples: como é possível fazer uma (re)distribuição igualitária de bens e de riqueza por dez homens e mantê-los como "iguais". Se nove deles gastarem a sua riqueza numa semana de forma igual, e o décimo não o gastar simplesmente porque não gosta, porque se esqueceu de o fazer, ou porque prefere fazer algo que não necessite fundos - imagine-se os outros nove irem a um jogo de futebol e o décimo ficar em casa a ler -, já estará um pouco mais rico que os outros. Já está desigual, já está mais "poderoso", no ponto de vista financeiro. Esse homem será, de acordo com uma visão marxista, um potencial burguês, pois enriquece a olhos vistos quando comparado com a restante sociedade. Este tão siplmes exemplo eleva já a doutrina do "tio" Carlos ao quase absurdo. Mas passemos à aberração propriamente dita.

O comunismo, como diz o meu caro amigo Bruno, encontra-se numa ilha, à espera que o Homem construa ou desenvolva a via para lá chegar (seja pelo socialismo revolucionário, pelo socialismo "europeu", ou pelo Grande Salto em Frente) e se estabelecer, e que "isto diz respeito a outra ideia feita à volta do Comunismo, que seria uma ideia muito bonita se fosse possível". E esta observação diz muito. Mas eu acrescento mais. Os ideólogos comunistas não só criam a ilusão de "um mundo melhor", ou seja, a ilusão de que a sociedade comunista conseguirá, caso estabelecida, abolir as barreiras entre os homens e eternizar o trabalho e a riqueza iguais para todos. Eles criam a ilusão de que essa "ilha" é o que nós queremos. E esse é o grande perigo, não só da ideologia comunista, que gasta livros, mas da prática comunista, que gasta vidas e gasta o Homem. Até mesmo o estandarte do socialismo marxista à passagem para o séc. XXI, o Estaline barbudo das Caraíbas, está gasto. Ele e o país que quis ajudar a salvar, mas que acabou por liderar em direcção à auto-destruição.

O comunismo e a "ilha soviética" nasceu, na prática, na Rússia czarista, e morreu com a CEI. A URSS, o sonho soviético, inspirou tanto e tantos que acabou por implodir sobre si mesma, arrastando os (resistentes) pró-soviéticos ou para a loucura, ou para a desilusão, ou para a simples inutilidade ideológica. Independentemente da variante, deixou-os a sonhar com o castelo construído nas nuvens e com conspirações norte-americanas...

Terça-feira, Janeiro 13, 2004

O mundo cubano

Em Cuba restringe-se, agora, também, a liberdade de acesso à internet para todos os habitantes que não os funcionários do Estado (aliás, melhor seria dizer que ninguém poderá entrar na internet sem Fidel saber). É mais um trunfo que os castristas jogam - que nos faz pensar naquela ilhota, e faz engasgar os grandes admiradores do socialismo. Mas, afinal, diriam esses "admiradores", não será esse o preço a pagar pelos benefícios do socialismo? Benefícios? Quando um ditador cai, o que se segue é "novidade", um pouco como os programas de televisão que os nossos compatriotas tanto adoram, cai o "reality-show" de um canal, o outro será um bom substituto ("sempre será melhor que o que tínhamos...").
Sobretudo, adora-se sentir que o "povo chega ao poder", e foi isso que Fidel Castro fez. Chegou ao poder, ao lado de tantos outros militares e tantos outros populares. Fez guerrilha, fez guerra, fez uma ditadura que hoje a uns assombra e a outros recalca, mas a todos relembra...que o comunismo nunca desaparecerá, nem que seja para haver um local em que uma bandeira se hasteie mostrando a cor vermelha subtilmente.
Para os que elogiam Cuba fugindo à questão e dizendo que é um bom povo e um bom país, gostaria de oferecer um visto de trabalho para lá exercerem as suas funções. Com tanta "democracia" e tanta preocupação social, quem não se sentiria em casa?

Sexta-feira, Janeiro 09, 2004

Porque não os 'air-marshals'? 2

O Bruno refuta a minha posição em relação aos sky-marshals. Antes de mais, gostaria de dizer que este tema, apesar de incidir num aspecto importante da segurança (o dos vôos comerciais, ou não), também parte de uma análise muito subjectiva e pessoal de cada um de nós. Do que nós entendemos por sky-marshals.

O Bruno acredita, sobretudo, no perigo que um homem destes, armado, representa para a "estabilidade" de uma eventual situação de terrorismo, quer seja desvio de aviões, tentativa de homicídio ou outros panoramas piores. Ele, tal como muitos outros (eu mesmo incluido, no sentido de compreender os prós e os contras), acha que um terrorista perigoso, talvez armado, já representa suficiente ameaça à integridade do avião, do que ter mais um homem armado e a consequente iminência de uma troca de tiros. Ora, penso que o tal sky-marshal, embora tenha acesso a uma arma de fogo, não necessita de a utilizar em caso de intervenção, mas isso é um caso muito específico.

Onde eu queria chegar agora é onde já tinha tentado chegar no anterior post. Aquele polícia armado no avião é, sobretudo, um último reduto a uma situação de terrorismo que ponha em risco as vidas de dezenas de passageiros. Pessoalmente, parto da crença de que ele apenas agirá, incondicionalmente, se o avião pousar, se as vidas de todos os passageiros (ou mais pessoas) estiverem em risco mais que evidente, se tiver ordem superior (de alguma forma) ou em outros casos semelhantes. Porque uma arma não é necessariamente perigosa, é, isso sim, o homem que a empunha, e, nesse aspecto, penso que não será negligenciada a preparação, física e psicológica, dos marshals para as situações.

Quinta-feira, Janeiro 08, 2004

O eterno sossego do cansaço...

Infelizmente, por eventualidade dos transportes, não cheguei a tempo de ver o Flashback, na SIC-Notícias, com grande pena minha...mas ainda fui a tempo de ouvir o primeiro-ministro no mesmo canal. E, com sorte, também vou a tempo de descansar um pouco...
Ainda ocasião para um sorriso ao verificar que no Contra a Corrente também se aprecia jazz (e bom)...e Stone Roses!

Quarta-feira, Janeiro 07, 2004

Porque não os 'air-marshals'?

Surge agora, em grande força, a questão da legitimidade das forças de segurança armadas em situações "especiais", neste caso os vôos comerciais. A polémica mais sonante partiu da Grã-Bretanha, onde os pilotos da British Airways contestam esta "estratégia" de contra-terrorismo. Na verdade o que se quer perguntar é: será que um polícia armado a bordo garante mais segurança ou, pelo contrário, garante mais uma arma perigosa (devido à pressurização do ar) a bordo da aeronave?

Do meu ponto de vista pessoal, esta é, mais do que nunca antes, pelo menos em termos de iminência de terrorismo, a altura propícia para "fechar algumas portas" aos possíveis terroristas ou, pelo menos, dificultar-lhes a sua acção. As tais forças de segurança exclusivas aos vôos comerciais, os sky-marshals, terão de ser obrigatoriamente, segundo me parece, destacadas para os vôos para os EUA. Ora, claro que muita gente, num estilo crítico de complexo orwelliano, apoia os pilotos que não querem esses guardas armados nos aviões (entre eles os pilotos portugueses). Mas a verdadeira razão dessa sua atitude remete-nos para o maior paradoxo da própria questão do porte de arma: a sensatez, ou não, de, mesmo em legítima defesa, responder, com uma arma de fogo, a uma agressão física desarmada.

Mas essa questão será sempre secundária quando estão em jogo as vidas de, pelo menos, umas 90 pessoas. Poderão mesmo estar em risco as vidas de muitas mais, caso a terrível estratégia terrorista do 11 de Setembro se repita. Também revela indícios de reaccionarismo obtuso se aproveitarmos a situação para criticar a posição de segurança nacional adoptada pelos Estados Unidos, pois grande parte dos passageiros dos aviões que voam em direcção aos EUA são europeus. Para mais, com a relação transatlântica, não são só os americanos que se tornam alvos para a ofensiva pseudo-muçulmana dos terroristas antiamericanos, antidemocracia e antiliberais, somos todos nós, as nossas famílias, os nossos países, sejamos portugueses, ingleses, espanhóis ou, mesmo, franceses!

Portanto, finalmente, deve-se tomar sempre em conta que os planos terroristas, de sabotagem, hijacking, desvios ou mesmo suicidas, não são aqueles que vemos em filmes de acção, ou aqueles eventos que tristemente se celebrizaram na década 70, onde terroristas nervosos e armados, sem preparação e sem planos, eram dirigidos por um ocidental de raízes islâmicas. Não, como vimos, a estratégia perpassa a acutilância dos serviços de informação e serviços secretos americanos, que se encontram, aparentemente, ao melhor nível mundial. Desta forma, não seria uma arma e um homem de elite preparado para estas situações que pioraria a situação.
Hipocrisia à parte, eu sentir-me-ia, num võo, muito mais seguro com um polícia armado algures (sem saber onde) dentro do avião do que levantar vôo com 60 outros passageiros desarmados, entre eles um ou dois terroristas suicidas...vocês não?

Domingo, Janeiro 04, 2004

Diálogo de café em prime-time

Conversa entre o professor Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) e o pivot Júlio Carlos Magalhães (JCM) a meio da análise semanal:

MRS- Então e o "seu" Porto? Já jogou?
JCM- O Por...
MRS- Ah não, é só amanhã!
JCM- Pois, é amanhã em Rio Ave.
MRS- Muito bem..
JCM- E o "seu" Braga?

Juntamente com a referência do Professor Marcelo às jogadas importantes de um jogo de futebol (e aos "frangos", pelos vistos), estas coloquiais conversas adquirem sempre uma grande utilidade para o serviço público alternativo...

*isto sem retirar crédito a qualquer um dos dois intervenientes, sublinhe-se.

Terça-feira, Dezembro 30, 2003

O Metamorfopsia fecha, assim, as portas por dois dias, no mínimo. Visto que a vontade não é municiadora da criatividade e da eloquência, tenho o hábito de me ausentar imprevisivelmente (mau hábito), o que vai acontecer, espero, cada vez menos. Sendo assim, aproveito o espaço de aviso para desejar a todos os que me lêem, e aos que lêem os que me lêem, e mesmo aqueles que, lendo-me e aos que me lêem, não concordam com o que lêem, um final de ano feliz e uma boa entrada em 2004. Enfim, um feliz e livre ano novo.

2003 e o ódio de estimação

No Diário de Notícias de hoje, para além da muito boa review do ano do Pedro Lomba, houve um "kalkito" do qual gostei imenso. Já que não posso transcrever a coluna inteira para aqui (o que seria uma afronta aquele senhor e aquele jornal), deixo aqui a transcrição do pequeno anexo, e espero que o Pedro Lomba não se importe. Aliás, que melhor mensagem e visão de 2003 poderia alguém como eu escolher? Aqui fica:

Bush

Howard Dean, George Soros, Michael Moore, Eminem, Ben Laden e a esquerda intelectual portuguesa passaram 2003 a odiar George W. Bush. Não há memória de um presidente americano ser tão odiado. A "bushfobia" chega a comparar inteligentemente o homem com Hitler. O ódio por um político é livre mas era bom que se percebesse que não quer dizer nada. É impossível discutir ou argumentar contra um ódio ou uma má disposição. E depois, o que dizer de pessoas que odeiam Bush mas, ao mesmo tempo, ficam em êxtase com Álvaro Cunhal ou Fidel Castro?

Os impulsos naturais

Ainda no âmbito do escândalo da "Casa Pia" (e, por outro lado, sem ter nada a haver), reflicto sobre a sexualidade na adolescência. Qualquer jovem adolescente entre 15 e 17 anos (ou mesmo menos) que tenha relações sexuais, ou mantenha uma "relação amorosa", com alguém na casa dos 20, 30 ou 40 anos, não poderá fazê-lo de livre vontade? Facilmente se condena o interveniente mais velho e se parte do princípio que a(o) adolescente foi forçada(o).

Lembro-me que, pelo menos a partir da minha geração, os miúdos de 10 anos já sabiam muito sobre nudez e sexualidade, aos 12 sentiam os primeiros impulsos sexuais fortes e, por volta dos 14, adquiriam, em geral, um conhecimento mais aprofundado do assunto. Porque será que confundimos moral, sexo e amor com instintos básicos do ser humano?
Penso que muitos concordarão comigo, mas este tema será, por muito tempo ainda, tabu, e ignorante e ilegitimamente confinado ao conservadorismo da nossa sociedade (que, devo dizer, caminha à parte do outro Conservadorismo).

Celtas

Uma pequena nota. Em animada e generalista conversa de café, soube que o Sporting de Braga vai inaugurar o seu estádio novinho em folha num jogo contra o Celta de Vigo. Talvez seja mau agoiro. É irrelevante o que eu penso, até porque porque estou alheio ao futebol, mas parece-me que esta equipa nos visita umas duas vezes por ano, e com sucesso, ou não?

Paulo Pedroso

Ele está aí, acusado...e de novo afastado do Parlamento. Até tenho alguma simpatia pelo Dr. Pedroso, independentemente da sua acção política, mas mesmo que o conhecesse pessoalmente, e bem, não viria desafiar a Justiça em nome de um partido político em luta consigo próprio. Os políticos do PS este ano bem se assemelharam aos "sangue-azul" do absolutismo, assombrados com a perda de imunidade política. Independentemente do desenrolar do processo-crime, as escolhas dos líderes do PS são indeléveis, e, até às legislativas, muitos não se esquecerão disso.

Os dez indomáveis patifes

Finalmente, a pronunciação do Ministério Público. Foram feitas as acusações oficiais a dez dos arguidos do processo "Casa Pia" (confesso que este "processo", que já entrou na linguagem televisiva, no som-ambiente, já me farta). Até aqui, nada de substancialmente novo, excepto, talvez, a (re) incidência que a acusação de Paulo Pedroso terá no grupo parlamentar do PS, com muitas culpas para os senhores socialistas. Saltando, pois, os aspectos jurídicos, chegamos aos aspectos mediáticos...e populistas.

Escusado seria dizer que a TVI esteve na "frente" da notícia, moldando a informação e desenhando os contornos de uma notícia, pouco parecida com um processo, muito parecida com um filme. O espectáculo televisivo atingiu o seu esplendor. No alinhamento dos acusados estava "Bibi", pois claro, o imoral criminoso expiador de todos os pecados que se respiraram na dita instituição. No audacioso telejornal desfilavam as caricaturas, as representações vicentinas da amplitude do pecado e do crime. Ritto, "o diplomata", Pedroso, "o libertado", e por aí fora, cada um anexado a um profile digno de um formidável argumentista. Lembrava-me, entre outros, o filme Doze Indomáveis Patifes, em que doze combatentes são reciclados e tornados uma força de elite. Personagens-tipo, carácteres burlescos tornam-se anti-heróis, havendo sempre um, no mínimo, que conquiste a simpatia do espectador. "Neste" filme são Carlos Cruz e Herman José os que granjeiam mais admiradores e paladinos da moral e dignidade profissionais.

A TVI relegou os nomes para segundo lugar, esqueceu as pessoas e criou personagens. Tratou por "tu" o processo e fez dele espectáculo (mas não só a TVI, os outros canais fazem o mesmo desde a eclosão do processo). Nasceu, sobretudo, o jornalismo "reality-show". Receio que, ainda antes do fim deste século, poderemos vir a votar, a partir de casa, o resultado final de um julgamento, ou dar a nossa opinião. E haverão críticos jornalísticos avaliando os processos. Muitos portugueses discutem a acusaão ao "médico do Ferrari" e o que se passa na "casa de Elvas". E quantos saberão quem é e o que faz Carlos Silvino? É falta de ocupação do português...

Segunda-feira, Dezembro 29, 2003

Hiroshima

Acerca da eterna e controversa questão da bomba atómica de Hiroshima, quero deixar aqui alguns excertos de um artigo do Dr. Karl T. Compton (antigo cientista e investigador do governo norte-americano) na Atlantic Monthly de Dezembro de 1946, intitulado "If the atomic bomb had not been used":

It is easy now, after the event, to look back and say that Japan was already a beaten nation, and to ask what therefore was the justification for the use of the atomic bomb to kill so many thousands of helpless Japanese in this inhuman way; furthermore, should we not better have kept it to ourselves as a secret weapon for future use, if necessary? This argument has been advanced often, but it seems to me utterly fallacious.

(...)

Was the use of the atomic bomb inhuman? All war is inhuman. Here are some comparisons of the atomic bombing with conventional bombing. At Hiroshima the atomic bomb killed about 80,000 people, (...). Compare this with the results of two B-29 incendiary raids over Tokyo. One of these raids killed about 125,000 people, (...).

Was Japan already beaten before the atomic bomb? (...) General MacArthur's staff anticipated about 50,000 American casualties and several times that number of Japanese casualties in the November 1 operation to establish the initial beachheads on Kyushu. (...) There was every reason to think that the Japanese would defend their homeland with even greater fanaticism than when they fought to the death on Iwo Jima and Okinawa. (...)
A month after our occupation I heard General MacArthur say that even then, if the Japanese government lost control over its people and the millions of former Japanese soldiers took to guerrilla warfare in the mountains, it could take a million American troops ten years to master the situation.
(...) It is not generally realized that there was threat of a revolt against the government, led by an Army group supported by the peasants, to seize control and continue the war. (...)
We gained a vivid insight into the state of knowledge and morale of the ordinary Japanese soldier from a young private who had served through the war in the Japanese Army. (...) This young Japanese told us that all his fellow soldiers believed that Japan was winning the war. (...)

Did the atomic bomb bring about the end of the war? That it would do so was the calculated gamble and hope of Mr. Stimson, General Marshall, and their associates. The facts are these. On July 26, 1945, the Potsdam Ultimatum called on Japan to surrender unconditionally. On July 29 Premier Suzuki issued a statement, purportedly at a cabinet press conference, scorning as unworthy of official notice the surrender ultimatum (...). Eight days later, on August 6, the first atomic bomb was dropped on Hiroshima; the second was droppes on August 9 on Nagasaki; on the following day, August 10, Japan declared its intention to surrender, and on August 14 accepted the Potsdam terms. (...)

If the atomic bomb had not been used, evidence like that i have cited points to the pratical certainty that there would have been many more months of death and destruction on an enormous scale. (...) And it was not one atomic bomb, or two, which brought surrender; it was the experience of what an atomic bomb will actually do to a community, plus the dread of many more, that was effective. (...)

Chomsky no sapatinho

Já tinha reparado há muito, mas só hoje resolvi denunciar a afronta... Na FNAC do Chiado, na secção de política, as pequenas sub-divisórias advertem: política nacional; política internacional; Europa; América; África; e, salve-se quem puder, a secção "Noam Chomsky"!!
Bem, a julgar pelos bons valores cristãos que se deverão praticar em locais abertos ao público, esperava que, em quadra natalícia, retirassem das prateleiras as ditas "obras-primas" do senhor. É que títulos berrantes e frases curtas, muito ao estilo Schwarzenegger dos anos 80, costumam atraír a populaça (mesmo aqueles que se julgam astutos chegam a cair irreversivelmente na literatura da extrema-esquerda americana), e alguns jovens e menos jovens intelectuais da urbe lisboeta.
Não quero ser alarmante para quem gosta de ler ensaios políticos de esquerda, mesmo que seja por mórbida curiosidade, mas ter, sem saber, um livro chomskiano debaixo da árvore de Natal é o mesmo que ter uma bomba artesanal na caixa de correio durante uma semana...

Sexta-feira, Dezembro 26, 2003

O que fica do Natal e do menino Jesus

O Natal passou...todos desejámos uma feliz quadra natalícia uns aos outros, uns por respeito, outros por amizade, outros por conveniência, mas fizémo-lo. E porque o fazemos? Porque aceitamos esta data como crucial no nosso ano cristão? Pelo que sei (perdoem-me as imprecisões bíblicas) não há referência concreta a esta data em qualquer texto dos testamentos, isto é, não há provas de que Jesus Cristo tenha realmente nascido a 25 de Dezembro. Na verdade, é uma data que marca, ou marcava, uma festa pagã dos romanos, em adoração ao Deus Sol, e que foi adaptada ao calendário, às "necessidades" simbólicas e históricas dos cristãos. Portanto, mais não é que uma data feita por nós. O que nos leva à Bíblia. Será que esta também não terá sido elaborada, sem qualquer precisão histórica e humana, apenas no interesse cristão, "para bem de todos", digamos?
A resposta a esta última pergunta é, geralmente, um firme "sim", fundado no ateísmo e na agnosia reinantes numa sociedade mais permeável às crenças modernas que às mais básicas e, sobretudo, construída sobre o descrédito e o mediatismo. Mas não será tão fácil assim, também, desmontar os argumentos e a força de um documento como a Bíblia Sagrada. Mais do que uma prova religiosa, é uma prova de civilização. Quer tenha sido feita em nome de Deus ou em nome dos homens, é uma das mais sólidas bases morais (e, na minha opinião, um indestrutível legado de "leis") da história da Humanidade. É por essa razão, pela conjunção religiosa, moral e civilizacional bíblica, que a Igreja Católica ainda detém o alargado crédito e função na nossa sociedade.

Paralela a esta reflexão, está a de descobrir a veracidade das origens dos homens e, consequentemente, da origem "do Homem", do Criador e de Deus. Será que o Homem foi feito à imagem de Deus, ou foi este feito à imagem de nós? Bem, a verdade é que não interessa para nada esta reflexão. As premissas que utilizamos são sempre insuficientes. Por mais que busquemos a verdade, haverá sempre uma nova questão que se levanta, pois este é um tema mais referente à actualidade do que ao passado. E, no fundo, não há realmente um objectivo, ou há? Não será desnecessário sabermos o que nos precede em relação à religião?
Se Deus existe ou não, o que interessa é o que ele simboliza, o que ele nos "diz" (que é exactamente o que queremos dizer aos outros homens e mulheres). Interessa o "porquê" de Deus. Tal como o Natal, que detém um valor simbólico e não histórico, que exerce, quer queiramos quer não, uma grande influência sobre nós. É por ter uma força moral que nunca mais chegará ao idealismo mas que continua viável, que assustou a concepção da dialética histórica, e que agora, de certa forma, nos assusta a nós...

Domingo, Dezembro 21, 2003

Tirania constitucional

Em alegre e festivo período natalício (embora não esteja fervorosamente alegre e tocado por este período) eis que deparo, num programa da nossa televisão, com um comentário bastante revelador (mas nada surpreendente) de um eurodeputado francês.
Esse deputado, Olivier Duhamel, declarava algo como "um dia os outros países-membros [os que resistem à aprovação da Constituição Europeia] cairão em si e preceberão que precisam da UE, precisam da solidariedade entre todos os países e de uma Europa mais forte e mais unida." Embora não sejam as palavras exactas do eurodeputado, a mensagem foi quase igual.

Ora, para um eurodeputado com responsabilidades, sobretudo, de "propaganda política" (tendo em conta os aspectos positivos da "propaganda"), é uma declaração que se torna uma pedra de toque em toda a acção dos senhores de Paris e de Berlim e, mais ainda, dos convencionais giscardianos. Duhamel revelou, pois, toda o enredo de "chantagem" franco-alemã subjacente em toda a acção da Convenção e das CIG's. Revela-se (com surpresa para uns, com menos para outros) não só um projecto de Constituição, mas um projecto de consolidação do poder central. Segundo as palavras do próprio eurodeputado francês, "a Europa, ou seja, todos os países europeus, e em especial os mais pequenos, precisam de ser liderados", e aqui pouco poderá ser acrescentado...
Portanto, será impossível, à medida que as resistências à afirmação do tratado da Contituição aumentam e se firmam, aos senhores Chirac e Schröeder (perdoem-me a personificação) pressionar sem ser pressionados. Já ninguém tem dúvidas, espero, da existência de uma "Constituição dentro da Constituição", feita numa espécia de novo jacobinismo giscardiano, que sublimará, caso seja aceite, a influência francesa e alemã na União.
Resumindo, Duhamel, (ao que dizem reputado) constitucionalista e eurodeputado francês, escolheu mal as palavras, ou pelo menos descuidadamente, e disse o que realmente pensa. A Constituição "de Valery" porá França e/ou Alemanha na égide da UE.

Quarta-feira, Dezembro 17, 2003

É natural...

Diz o Bruno, e muito bem, que é impossível falar de outra coisa senão da captura de Saddam. De facto, as mentes humanas facilmente se preenchem com as excelentes e as péssimas notícias. Adoramos o mediatismo, mas, mais ainda, adoramos o "imediatismo", comentar o assunto (o acontecimento) sem este se encontrar ainda bem delineado. Em especial se forem as más notícias, pois a tentação de destruir argumentos é enorme, a sede da crítica subserviente, fiel ao "politicamente correcto" e à estupidez. E foi isso que já se fez notar com o eco da notícia dada por Paul Bremer, especialmente por entre as hordas da esquerda.

Primeira reacção, "aquele Saddam é falso, tal como o perú". Pois claro, é apenas um embuste, um isco lançado pelo verdadeiro ditador para nos enganar a todos. Afinal, o "Império" deve ser ludibriado, de forma a manter a resistência "heróica" dos iraquianos que não querem ser "subjugados" pela democracia ocidental. Por amor de Deus (e aqui é bem empregue o termo cristão), se fosse um sósia não estaria escondido num buraco no meio do nada! Mas essa nem é a principal questão, pois ninguém no seu perfeito juízo diria tal coisa, excepto, claro, a "nossa" esquerda ("nossa" não, que se fosse minha já a tinha reciclado...). A questão é analisarmos bem a razão porque dizem isto. Se por apreço pelo homem, se por desprezo pelas notícias que partem de políticos americanos. Mas esse argumento morreu em algumas horas...

A segunda reacção foi às imagens. Ouviu-se dizer que as imagens atentavam à dignidade humana, aos direitos humanos, aos direitos dos prisioneiros. Talvez haja um fundo de verdade, no que toca à selecção de imagens. Penso que, embora houvesse um claro objectivo com aquela selecção, certamente não era intimidar ninguém, nem, propriamente, "humilhar" o prisioneiro. Foram, ali, naqueles segundos, demonstrados o actual poder do senhor e a fragilidade de qualquer ser humano (mesmo debaixo do papel de "demónio"). Mas não foi nisso que a esquerda pensou quando se indignou. Pensaram em torturas, humilhações, desrespeito por convenções jurídicas internacionais e por aí fora. Curiosamente, indignaram-se, sensivelmente, as mesmas vozes esquerdistas que, no último ano, aplaudiram as "medidas de segurança" fidelistas na sua tão amada Cuba (sem querer, de forma alguma, generalizar).

Por último, claro está, e esta reacção é a actual, todos ficaram felizes e contentes com a prisão do "ditador". "É sempre ocasião de "regozijo e contentamento quando um ditador é levado à justiça", diz-se por aí. É verdade, não poderia deixar de ser verdade, mas todos sabemos que esse contentamento não era a aspiração inicial de ninguém, especialmente daqueles que, e aqui julgo não me enganar, prefeririam ver ali George W. Bush. Em relação a essas pessoas, mantenho um enorme desprezo político e de opinião. A sua opinião não conta para nada. E aqui vou ter de criar um "lugar-comum" ao dizer que esta vitória é "nossa", dos que apoiaram a decisão de intervir naquele país naquelas condições com aqueles objectivos, decisão arriscada, custosa e com muitos dividendos, mas que não deixou de ser necessária e crucial, mesmo não tendo levaod um destino exemplar. Como diz também o Pedro Lomba, caso não houvesse guerra, não haveria captura de Saddam, tal como há muitos anos não teria havido Hitler...
Isto, entre outras coisas, é o quadro natural de reacções da actual "esquerdice", aquela que nos parece sempre prestável às causas sociais, mas todos sabemos que não é tão simples assim. Hoje estão contentes, mas acham que falta o essencial (bin Laden, WMD,...), amanhã estarão pessoalmente contentes com outras capturas de ditadores e criminosos, mas acharão que o "verdadeiro criminoso" ainda está em liberdade... Enfim, quando, no fim, todos nós (todos!) reconhecermos mérito e triunfo à operação (não quero ser entusiasta...), a mesma "esquerdice" conformar-se-á, aplaudirá e passará para outros assuntos de "luta" mais em voga... é natural...

Domingo, Dezembro 14, 2003

Saddam capturado

Afinal, é mesmo verdade, Saddam Hussein encontrava-se, ainda, no Iraque. Foi apanhado, penso que esta madrugada, buma casa de Tikrit, enquanto dormia. Irrelevante será o facto de ele ser apanhado em casa, mas a mensagem que transmite para a opinião pública (e para a moral dos soldados da coligação e não só) é mesmo esta: a partir de agora, todos os líderes do Baas e de outras forças de resistência terrorista apologistas e fiéis do antigo regime de Saddam serão apanhados em suas casas - se mesmo o próprio ditador foi capturado, os restantes não terão escapatória.
A partir de agora, penso que só se poderão abrir duas vias: um rápido desmantelamento das forças ligadas ao partido de Saddam, ou uma sublevação irada dos desconexos focos de "poder" do Baas e outros de forma a reafirmar a influência que tem sobre o povo iraquiano.
Pessoalmente, penso que será a primeira hipótese a ganhar contornos, é a mais humanamente provável (reparem que não estou a contar com o típico fundamentalismo desesperado presente em muitas variantes islâmicas no Médio-Oriente) e mais desejável por todos nós, que, habituados à democracia oceidental, a gostaríamos de propor a todas as nações que há muito que vivem subjugadas em regimes do tipo religioso-ditatorial ou mesmo laico, à base da força dos soberanos.
Por fim, é mais uma vitória da legitimidade democrática, e mais um peso que sai de cima dos ombros dos iraquianos e dos ombros das forças da coligação.

Sábado, Dezembro 06, 2003

Édito

Não pense o caro bloguista que me retirei deste grande mundo de discussão política. Simplesmente vi-me obrigado a fechar as portas por uns tempos (situação que, infelizmente, se prolongará por mais uma semana) devido ao tempo que me tem sobrado da vida propriamente dita. Provavelmente, alguns senhores rejubilaram com a minha ausência, pensando que me havia deixado vencer. Não, o NKVD não me apanhou, pois estarei brevemente por aqui a bater ao pé aos irados esquerdistas. O regresso (quase) maquiavélico terá lugar dentro em breve, espero não ter perdido o meu canto na rede de interminável debate.

Quinta-feira, Novembro 27, 2003

O PEC e as influências

A propósito do PEC, aconselho-vos a ler este post do Bruno. Peco por não ter acompanhado os blogues nos últimos dias, mas ainda vou a tempo. Leiam esse posto sobre o PEC, pois está bastante esclarecedor e converge totalmente com a minha posição acerca das finanças públicas e do moderado (mais moderado do que reduzido) intervencionismo do Estado na economia.

Três notas internacionais

1- Bush visitou, hoje, sem qualquer aviso prévio, as tropas americanas estacionadas em Bagdade. Por ocasião do Dia de Acção de Graças, o presidente americano teve a iniciativa de se tornar o primeiro presidente do seu país, alguma vez, a entrar no Iraque. Poderia ser uma trivialidade como outra qualquer, a qual apenas os pró-americanos louvariam, mas não é. Pessoalmente, penso que a visita de George W. Bush adquire um simbolismo enorme pelo timing a que se propõe. É, sobretudo, um fitar de olhos ao "inimigo invisível", ao terrorismo, é a prova da nova atitude americana face ao terrorismo: não de prevenção e contra-ataque, mas de um desprezo pelas accões terroristas que se têm vindo a intensificar nos últimos dois ou três anos. George Bush está disposto a provar que a coligação não se "esconde por detrás das esquinas" perante a ameaça terrorista e os regimes anti-democráticos.

2- O Governo americano decidiu "reduzir as garantias bancárias a Israel em 289,5 milhões de dólares". Esta medida tem, segundo o jornal "Público", um valor simbólico. É verdade, é uma súbtil advertência, ou sinal de desagrado, dos Estados Unidos ao governo israelita, nomeadamente em relação aos colonatos. Para mim, que nunca consegui tomar uma posição firme relativamente ao conflito israelo-palestiniano senão a que me é imposta por humanidade, esta medida vem, simbolicamente, ao encontro da opinião pública moderada de origem islâmica. O que não retira, nem um pouco, a responsabilidade e a palavra (quebrada vezes sem conta...) dos palestinianos. Os processos e os "roteiros" de paz nunca chegarão a bom porto enquanto a má-vontade israelita e a perigosa desconfiança palestina não se dissiparem.

3- Last but nos least. Leio num rodapé de um qualquer canal português que o "príncipe William foi ameaçado pela Al-Qaeda". Não sei se será um notícia oficial e verdadeira. Na verdade, até duvido da sua veracidade. Mas depois pensei: o que acontecerá se esta ameaça se revelar verdadeira e se intensificar? É o estádio último da acção terrorista, o de atacar as personalidades internacionais que nada têm a ver, nem indirectamente, com os conflitos. Seria a derradeira "chapada de luva branca" nas pessoas que fazem e sempre farão a apologia dos regimes totalitários desde que estes advogem a luta contra o mercado livre, o capitalismo e, quer queiram acreditar ou não, a democracia.

Segunda-feira, Novembro 24, 2003

Tightrope

You should have been an angel, it would’ve suited you
My gold-leafed triptych angel, she knows just what to do
In the half light of morning, in a world between the sheets
I swear I saw her angel wing, my vision was complete

And I know I’ll never want another lover, my sweet
Can there be more in this world than the
Joy of just watching you sleep?
I don’t know just what to feel
Won’t someone tell me my love’s real?

Are we etched in stone or just scratched in the sand
Waiting for the waves to come and reclaim the land?
Will the sun shine all sweetness and light
Burn us to a cinder, our third stone satellite?
I’m on a tightrope, baby, nine miles high
Striding through the clouds, on my ribbon in the sky
I’m on a tightrope, one thing I’ve found
I don’t know how to stop, and it’s a
Long, long, long, long way down

She’s all that ever mattered, and all that ever will
My cup, it runneth over, I’ll never get my fill
The boats in the harbour, slip from their chains
Head for new horizons, let’s do the same
I’m on a tightrope, baby, nine miles high
Striding through the clouds, on my ribbon in the sky
I’m on a tightrope, one thing I’ve found
I don’t know how to stop, and it’s a tightrope baby
Nine miles high
Striding through the clouds, on my ribbon in the sky
I’m on a tightrope, one thing I’ve found
I don’t know how to stop, and it’s a
Long, long, long, long way down.

Stone Roses, Tightrope

PS - para quem não conhece, fica o excerto. Uma banda de referência para este "senhor".

Domingo, Novembro 23, 2003

Tempo dos esquecidos

Encontrei uma baixa na minha compacta biblioteca...um cadáver que foi desprezado, intocado, no campo de batalha, entre muitos outros. É o Ian McEwan, com o seu Criança no Tempo. Coitado do Ian...esquecido no tempo, perpetuar-se-à como inúmeros livros iguais aos das minhas estantes, atravessados por um marcador como se este fora uma seta certeira e letal. Já havia recolhido um livro da revolução bolchevique, de John Reed, o Crime e Castigo, a obra erótico-obsessiva de Nabokov Lolita e ainda, crime dos crimes, um livro de Saramago (esforço último fora preciso para acabar o primeiro e único capítulo que li...).
O Ian, foi mais com o cansaço que com o tédio que me venceu. Teve mérito, a seu tempo encontrará alguém amadurecido e retemperado para o enterrar de vez. Por agora, pu-lo a salvo, de quarentena, longe de contaminação, longe dos bolcheviques e do Sr. Saramago...

Sábado, Novembro 22, 2003

O dia do consumo

Hoje foi dia de descortinar as almas diletantes. Visitei a FIL do Parque das Nações, talvez em busca de facilidades literárias e económicas fundidas. Também confirmei uma realidade: o ser que vai à feira é um ser umbiguista, desligado das relações pessoais, é o consumismo desmesurado, não interessa o livro, o objecto, as pessoas, o local, interessa o oportunismo, o passar do tempo livre e a reunião social.
Nos saldos atacavam as sedentas hordas, livros de culinária, de poesia, romance niilista, revistas "cor-de-rosa" viajavam juntos apertados pelos braços femininos daquela gente. Entre mim e alguns livros interessantes de teoria política, inflamavam-se dois liceais em terno acto de concupiscência, não me viam e eu tentava não os ver, enquanto me empurravam para outra banca.
Na parte dos livros antigos e de armazém, era a euforia junto de alguns livros eruditos de Pires Jorge, Ary, Brecht, Nietzsche. Jovens e velhos alternavam-se a abrir os livros (prestes a despedaçarem-se) e a sorrir levemente como quem compreende a luta e a revolta. Escritos marxistas antigos também agradavam, claro está, às tribos.
Noutra ala, um pai concedia, de forma incauta e insultuosa, um livro de Kissinger ao seu filho de 9 anos (política externa interessa a todos).
No fim, saí descontente. O saldo: três pisadelas, dois cafés, nenhum livro comprado, uma desilusão (fica para outro dia). O povo veio à rua, todos compraram, menos eu...
Hoje foi dia de consumo.

"Tópe" literário

De manhã cedo peguei num jornal e vi um qualquer "top" de livros de uma qualquer livraria de Lisboa. Os 5 mais vendidos na área da ficção são os últimos de Nicholas Sparks, Margarida Rebelo Pinto, J.K. Rowling (ah, genial Harry Potter quando equiparado!), Modignani e Joanne Harris. Gastaremos "nós", realmente, dinheiro, em época de crise, em tais títulos?
Só uma rectificação: eles não são de ficção, do meu ponto de vista são de uma realidade bem assombrosa...

Sexta-feira, Novembro 21, 2003

Inimigo sem rosto

Gostei imenso do artigo de José Manuel Fernandes hoje no Público. Entre outros, o Intermitente também cita o artigo. Acho que é uma óptima síntese da evolução das mentalidades e das posições que assumimos perante a guerra.

Há uns dias, aquando da primeira vaga de atentados em Istambul, então dirigidos contra a comunidade judia (os de ontem visaram os britânicos), Pacheco Pereira interrogava-se no seu "blog": "Quantos dos milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares, que vão chamar a Bush assassino, sairiam para a rua contra a Al-Qaeda? Não é uma pergunta retórica, é uma provocação pela verdade. Um em dez mil?"

(...) Razão tinha Pacheco Pereira: "Como estão confundidas as nossas prioridades!" E baralhadas as nossas referências.

(...) Melhor ou pior, Bush e Blair convergiram no essencial apesar do muito que possam ter divergido no acessório. Essa convergência permitiu que se complementassem, permitiu que fossem levadas às Nações Unidas discussões que, sem tal aliança, porventura nunca lá teriam chegado. Em contrapartida, os que optaram por seguir outra via, com destaque para a França, não entenderam o essencial de ser-se aliado. Não entenderam que, se tivessem colaborado, poderiam ter ajudado a evitar erros e divisões. Que teriam tornado tudo mais fácil - ou menos difícil - no Afeganistão, no Iraque e no Médio Oriente.

(...) No momento em que a Al-Qaeda ataca indiscriminadamente americanos e italianos, britânicos e turcos, sauditas e judeus, quando mata friamente tanto soldados como funcionários da ONU ou médicos da Cruz Vermelha, quando nem sequer poupa os companheiros da mesma fé, temos de entender aquilo que ontem disse Tony Blair: "O que causou o ataque terrorista na Turquia não é o Presidente dos Estados Unidos, não é a aliança entre a América e a Grã-Bretanha. O que este último ultraje terrorista nos mostrou é que isto é uma guerra e o seu principal campo de batalha é o Iraque". E agir em conformidade.

- José Manuel Fernandes dixit

Quinta-feira, Novembro 20, 2003

Trabalhos forçados

Amanhã é um dia diferente. Perturba-me o quebrar da rotina, o faltar aos compromissos. Mas a razão é boa: o Colóquio "Estaline em Portugal", do qual eu já tinha falado e aqui me refiro numa nota final. Vai ter lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no Anfiteatro III, a partir das 9h30 de amanhã. Entre outros, Pacheco Pereira vai lá estar.

Mas esta não é a minha única questão paradoxal de momento. Os pequenos cortes com a rotina deram-se imperceptivelmente durante as últimas semanas, e agora bati no fundo. Tenho pilhas de livros para ler, dezenas de páginas para escrever e muitas horas de tédio à minha frente. Parto para essa missão de sorriso nos lábios (e aviso que nos próximos três dias só cá devo vir escapulindo-me à minha própria tirania da racionalidade). Mas vou ser forte, isto não é nada... Crise, qual crise?!

Terça-feira, Novembro 18, 2003

E o Dia Mundial do Não-Marxista?

Hoje, ao que parece, é Dia Mundial do Não Fumador. Não gosto de repetir o que os outros (o Statler dos Marretas e o João Pereira Coutinho) dizem, mas neste caso vou ser inconstitucional e fugir à lei. Proibiu-se o ópio aos índios sul-americanos, proibiu-se o suicídio nas legislaturas de países "civilizados", e agora iniciou-se uma Revolução visando o derrubar das perversões do homem não-esclarecido.
Sim, não-esclarecido, porque é essa a imagem que vamos a passar a ter após um ano de campanhas "fumar causa infertilidade" ou "o fumo contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído(...)". No fundo, é uma nova estratificação, ou quase segregação, ao bom velho estilo dos "esclarecidos" do Mississipi. Qualquer dia, num estabelecimento público, terei de escolher entre as portas do WC dos "homens", "mulheres" e "fumadores".
Eu sou um reaccionário, não deixei de fumar, apenas iniciei um processo de auto-destruição mental sob a tirania dos "Fumar mata". Gostava agora de propôr também um Dia Mundial do Não-Marxista. Afinal de contas, esses pobres diabos também precisam de orientação e iluminação...

Alexandre Dumas

Pacheco Pereira realçou ontem as comemorações do 200º aniversário dos romances de aventuras e de Alexandre Dumas. É um ponto interessante, visto que Dumas é, francamente, o maior romancista de sempre (talvez esteja a ser muito exagerado, mas tem todo o crédito como um dos maiores). Claro que esta comemoração tem um gosto especial, um gosto, sobretudo, nostálgico. Para mim, o "Conde de Monte-Cristo" é o meu "primeiro livro". É um dos pilares do gosto pela leitura de qualquer um. Lido e relido três ou quatro vezes, o Conde é o romance mais utilizado da minha biblioteca. Aconselho-vos vivamente, caso tenham perdido a oportunidade até hoje, de ler o "Conde de Monte-Cristo". É um grande livro, indispensável para qualquer homem contemporâneo e fulcral para quem adora romances (que, curiosamente, nem é o meu caso).
E leiam aqui "Duas notas sobre Alexandre Dumas em Portugal" de José-Augusto França.

Segunda-feira, Novembro 17, 2003

Duplicidade esquerdista

Vejam a nota que o Pedro Lomba escreveu ontem sobre a visita de George W. Bush a Londres e a duplicidade de argumentos da esquerda portuguesa (tão em voga nos dias que correm, e não só no nosso país).

Na verdade, vejo, hoje em dia, uma fé cega numa geração (talvez também seja irremediavelmente a minha) que se assume como a libertadora de todos os males e todas hipocrisias existentes no mundo. Uma geração que vê em ditadores ou, por outras palavras, assassinos e sanguinários totalitaristas como Kim Jong-Il ou Saddam Hussein uma rede de anti-heróis que servem como último reduto ao avanço do tão aclamado "imperialismo americano" ou mesmo dos "perversos desejos de Bush de dominar o mundo".

Na verdade, o que essa geração (a "esquerdalha", como costuma dizer o Bruno, mas não só) faz é gritar, cantar e queimar como fantoches das réstias de idealismo marxista e rosseauniano existentes no Mundo. Exibem-se nas ruas, em qualquer situação, com 't-shirts' de terroristas como Ernesto "Che" Guevara, lenços da colecção do igualmente mefistofélico Yasser Arafat e, mesmo, modestas referências ao "pai" Estaline estampadas à vista de todos. Pensam que acordaram para a realidade, tal como vimos no filme "Matrix", e têm a mão a ingrata missão de salvar a humanidade do seu fim, quase inevitável, às mãos do capitalismo selvagem. Miúdos que tudo têm na vida, escondem as suas posses debaixo da cama para poderem gritar bem alto e sem vergonha à classe política e à direita (seja ela qual for), nas manifestações estudantis e não só, com os amigos que tanto adoram por corroborar na despenalização de tudo e mais alguma coisa que prolongue o ócio e a sensação de rebeldia.

Enfim, resumindo este desabafo, é a certeza de que há uma curiosa mentalidade impressa nas mentes desta juventude: se, em meados do século XX, Estaline tivesse invadido a Alemanha e derrubado Hitler, seria desculpado dos seus crimes e aclamado como herói (e hoje já deveria haver mais roupa com a sua linda imagem...), mas se Hitler tivesse chegado à Rússia e morto o ditador soviético, Estaline seria um mártir do perverso manto de trevas do fascismo.
Por mim, tenho hoje a mesma repugnância de sempre por ambos os lados. Pela extrema-direita reprimida e pela extrema-esquerda excitada. Mas aprendi uma coisa nos últimos anos, a tolerância (politizada por Marx) apenas circunscreve a esquerda, o resto é abismo.

Charlie Chaplin

Esta sexta-feira, ainda apanhei, a tempo, na RTP 2, um GRANDE FILME! Não sabia que o íam passar novamente, portanto a surpresa foi mais que agradável. O filme era o "Tempos Modernos", do inconfundível e indelével Charles Chaplin.
Gostaria de me demorar em complexos, ricos e poéticos elogios, mas quanto mais dissesse, mais ficaria por dizer. Chaplin era um génio, e pouco mais se pode acrescentar a isso. Espero um dia poder fazer aqui uma verdadeira ode à altura de um seu fã.

Quanto ao filme, o "Tempos Modernos" é, no meu ponto de vista, o melhor filme de sempre, lado-a-lado com o "O Grande Ditador" (obviamente do mesmo senhor). Só por si dispensa qualquer documentário sobre a Grande Depressão e representa um dos períodos mais conturbados da história do Homem moderno. Um homem (o "vagabundo", Chaplin) passa, sozinho, por todas as adversidades que se apresentavam aos operários e simples trabalhadores daquela época. Mas, no fundo, é uma mensagem de esperança e optimismo, que se tornou intemporal, diria mesmo imortal!

"Tempos Modernos" é um grande documento, um grande filme, um grande poema, uma enorme criação de um eterno sonhador, um retrato tão humano quanto "mecânico" da sociedade, um legado de optimismo aos nossos tempos e uma obra de arte. Imperdível.

Domingo, Novembro 16, 2003

O mal-amado

Vejam o editorial da Spectator desta semana, sobre George W. Bush e a imagem que o presidente americano construíu, ou viu ser construída, de si.

Aqui vai um excerto:

"George W. Bush did not begin the war on terror which, though few remember now, was waged in half-hearted fashion by Bill Clinton. But he has brought maturity and conviction to it. Where Clinton tried to fight the war on terror from 30,000 feet and said he ‘felt good’ about his missile strikes, President Bush has done what critics of America were until recently claiming the country would not dare to do: put troops on the ground to finish what he started. If the strength of the lingering resistance was underestimated, is there anyone who can honestly claim that Iraq is a worse place now than under the Baathists?"

O limiar da reportagem

Como todos sabemos, sexta-feira o dia foi negro para Portugal. Três jornalistas portugueses foram "abordados" por civis (?) armados iraquianos que, num espaço de poucos momentos, se tornaram raptores iraquianos. A notícia veio, presa a um punhal, alojar-se nos televisores e na rádio. Temeu-se o pior em frente à televisão. No fundo, os portugueses têm muito disto, gostamos de acompanhar as crises de perto. O negativismo arrepia-nos...mas é esse mesmo negativismo que resulta sempre das nossas perspectivas.

Maria João Ruela, Rui do Ó e Carlos Raleiras seguiam no seu jipe em direcção a Bassorá, integrados numa comitiva onde figuravam alguns dos principais órgãos de comunicação portugueses. O problema é que essa "comitiva", ou "comboio", estava empenhada na notícia com tom de aventura. Os jornalistas (divididos por três jipes) viajavam: sem escolta militar ou policial; sem armas; sem conhecimento preciso da área; numa área ela própria perigosíssima; e, o mais grave de tudo, contra a advertência e quase imposição das autoridades para que não viajassem naquele local, naquele momento, naquelas condições. A advertência caíu em seco. Os jornalistas partiram. Maria João Ruela fora alvejada numa perna e Carlos Raleiras fora raptado (hoje libertado sob pagamento de resgate).

A grande questão está na atitude que os jornalistas tomaram. Muitas vozes populares, que os aclamavam como corajosos, já iniciaram o julgamento popular: "Irracionais!", "Que acto estúpido, saber como é o Iraque e irem assim!", "É bem feita que é para aprenderem!". Mas agora pergunto-vos, não foram a mesma "irracionalidade" e "estupidez" que nos trouxeram, de Timor-Leste, reportagens de elevadíssima qualidade e imagens que marcaram a nossa memória e a nossa vida para este novo século? Não é o rigor do momento e a qualidade dos recursos humanos que tanto elogiamos e exigimos dos nossos repórteres? Então que fizeram eles mais do que o seu dever e o seu hábito?

O problema está no facto de que o mesmo negativismo, de que vos falava mais acima, orientar o discurso dos portugueses. Num acto tão reflexo e rudimentar como este, os jornalistas mostraram uma enorme iniciativa. Mas, como em tudo o resto, o valor da acção não está na acção em si, mas no seu resultado. O limiar da reportagem, e da atitude dos jornalistas, estava no momento do desfecho da acção jornalística. É tão humano, e tão curioso, como uma linha tão ténue, que é apenas delineada pelo acaso, pela hybris, separa a coragem da estupidez. Tal como a mente brilhante quando, empunhando um novo papiro de conhecimento e ameaçando cortar com o paradigma existente, se prepara para encarar o trono da genialidade ou, por outro lado, o pelourinho da loucura.
Quanto aos nossos jornalistas, a minha opinião pessoal não recai nem na coragem nem na estupidez. Recai, isso sim, na certeza de que fariam e farão o mesmo se tiverem oportunidade. Arriscaram, como arriscam sempre, pela mais importante das notícias. Se é brio profissional, vaidade pessoal, inaptidão reflectiva, irracionalidade, amor pela notícia, amor pelo perigo ou desamor à vida que os leva a repetir a cena, não sei dizer, só sei que o farão. E, tal como desta vez, por cada vez que o fizerem, cá estarei eu a respeitar a decisão de pessoas tão determinadas e a esperar o regresso, ileso, de tão ilustres portugueses.

Quarta-feira, Novembro 12, 2003

And now for something really good...

Escapou ao meu conhecimento a campanha da Toys'r'us. O slogan é este: "Apanha todos os brinquedos que possas em 2 minutos e leva-os grátis".
Apenas as maravilhas do capitalismo permitem uma competição tão saudável como esta entre as crianças.

Bolchevismos II

"Universal elections exist and are also held in some capitalist countries, so-called democratic countries. But in what atmosphere are elections held there? In an atmosphere of class conflicts, in an atmosphere of class enmity, in an atmosphere of pressure brought to bear on the electors by the capitalists, landlords, bankers and other capitalist sharks. Such elections, even if they are universal, equal, secret and direct, cannot be called altogether free and altogether democratic elections.
Here, in our country, on the contrary, elections are held in an entirely different atmosphere. Here there are no capitalists and no landlords and, consequently, no pressure is exerted by propertied classes on nonpropertied classes. Here elections are held in an atmosphere of collaboration between the workers, the peasants and the intelligentsia, in an atmosphere of mutual confidence between them, in an atmosphere, I would say, of mutual friendship; because there are no capitalists in our country, no landlords, no exploitation and nobody, in fact, to bring pressure to bear on people in order to distort their will."


- discurso de Estaline, a 11 de Dezembro de 1937, no Teatro Bolshói, em Moscovo.

PS-qualquer semelhança com a realidade comunista portuguesa é pura coincidência.

Um longo caminho para a GNR

O destaque de hoje em diversos jornais é a partida do contingente das forças especiais da GNR (chamar-lhe-ia semi-militar), vulgo Subagrupamento Alfa, para o Iraque. Hoje no "Público", José Manuel Fernandes destaca, e bem, no seu editorial alargado, a importância da participação de Portugal nas acções internacionais militares conjuntas.

Acima de tudo, enuncia um princípio que exige uma visão isenta de partidarismo político mas focada na cooperação internacional. Tal como J. M. Fernandes diz: "(...) deveria ser pacífico que o sucesso ou insucesso dessa operação não diz apenas respeito aos EUA e ao Reino Unido, ou ao senhor Bush e ao senhor Blair: diz respeito a todos os que desejam um Iraque democrático que seja um factor de estabilidade no Médio Oriente.". E isto diz tudo. Se antes da ocupação militar de 2003, Iraque era um regime ditatorial perigoso para a relação entre "mundo ocidental" (Europa, EUA, Austrália, etc.) e Médio-Oriente, a partir do momento em que as operações militares concretas tiveram início, o país tornou-se um barril de pólvora prestes a rebentar. Hoje começa a ficar esquecido entre "nós" portugueses, "nós" comunicação social e, sobretudo, entre aqueles que optariam pela guerra como medida extrema. Mas é neste momento que a maior dificuldade aparece. São as democracias liberais, e a segurança dos seus cidadãos livres, que estão em perigo. E é a população iraquiana que está a mercê da competência dos intervenientes políticos e diplomáticos tanto do seu país como da ONU e EUA. Por isso, tem de haver um esforço internacional para mostrar que a população iraquiana nunca foi o "alvo", mas sim, o regime de Saddam. E a GNR é uma das provas a apresentar nesse debate a tempo real.

Por cá, Fernandes ressalva um tópico interessante: as posições de alguns dos nossos partidos políticos.
O PSD, ao longo dos anos de governo de Cavaco Silva, teve uma atitude moderada ainda presa aos acontecimentos e movimentos democráticos germinados em 1974. O país estava primeiro, e por pouco passava-se ao lado das relações internacionais (lembremo-nos que Portugal não se "manifestou" durante a primeira crise do Golfo). Obviamente, o actual PSD de Durão Barroso quis continuar, a nível militar e humanítário, a política europeísta e cooperativa que António Vitorino sempre defendou, e bem, junto dos congéneres europeus.

E isto leva-nos para o PS. Obviamente que o Partido Socialista não se podia aliar aos interesses transatlânticos nos quais o partido do governo milita. Como tal, o discurso abundante em demagogia, carente de vernaculidade, dos dirigentes socialistas pecam por ser oposicionistas, e pouco mais que isso. Falta o "caminho coerente" de que nos fala José Manuel Fernandes. Um respeito pelo legado de Guterres e Vitorino.

Em relação ao Bloco de Esquerda, por seu lado, não há muito a dizer. Antes de se saber a sua opinião, já se sabe o que estes "jovens" vão dizer. A causa está lá, falta é a coerência e sensibilidade internacional para que os possamos ouvir.

Os argumentos do PCP são irrelevantes. Acho até que não se pode esperar muito de um partido que, provavelmente, apoiaria o envio de tropas para apoiar a Coreia do Norte na sua luta pela "justiça social".

Por fim, gostaria de apelar ao tacto das pessoas que tanto acarinham os militares portugueses. Há uma falta de visão por parte de todos nós quando achamos que os militares voluntários não deviam ser expostos ao perigo. Se não os militares, então quem? Todos os homens e mulheres que partem hoje para o Iraque só têm uma coisa na sua mente - o cumprimento de uma missão. E é essa dedicação, coragem e, mais ainda, sentido de dever que os leva, antes de tudo, a se alistarem ou nas Forças Armadas ou na GNR. Deixem-nos fazer o seu trabalho. Pois todos os portugueses os querem ver voltar sãos e salvos, de missão cumprida, mas para aqueles homens está primeiro o elemento pelo qual dariam a vida: o dever.

Segunda-feira, Novembro 10, 2003

Estado democrático

"A Europa foi construída sobre as cinzas da II Guerra Mundial, que assistiu à mais terrível alienação dos que eram considerados outros; uma alienação que se tornou em aniquilação". Mas qual é a verdadeira lição a tirar do Holocausto? Será a de que o Estado constitucional democrático é inadequado, ou que os piores males vêm do fracasso em estabelecer e consolidar Estados constitucionais democráticos? A mim, parece-me claro que a lição a tirar é a segunda. Estou certo de que se fosse alvo de neonazis ou outros anti-estrangeiros, preferiria de longe confiar os meus direitos e o meu destino à protecção garantida por um Estado constitucional democrático, que combina o direito com a força, do que a uma qualquer arquitectura transnacional.

- Marc F. Plattner, in Soberania e Democracia (em Nova Cidadania XVIII)

Domingo, Novembro 09, 2003

A política de Ferro

Ferro Rodrigues optou: mantém-se na liderança do PS até 2006, ou pelo menos assim o declara publicamente. Escolheu manter a identidade do partido e um certo moralismo político de "só me deixo vencer pela escolha dos portugueses". Mas será que esses mesmos já não fizeram a escolha na sua cabeça?

Pessoalmente, penso que Ferro Rodrigues está acabado como secretário-geral do Partido Socialista. A sua atitude só abre dois campos de opções: ou ele está a usar o PS ou o PS o está a usar a ele.
Se Ferro está a "usar" o partido, é evidente que geriu mal o seu tempo e deixou extraviar o propósito inicial.
Se a direcção do PS o está a deixar, pouco a pouco, sozinho no palco político e, consequentemente, a desprender-se da imagem dele, então está a preparar um candidato messiânico (nestas condições, não me admiria, embora ficasse surpreso, se Sócrates ou Coelho avançassem). João Soares já admitiu que a ideia é sedutora num futuro breve. Até Cravinho já se sente mais entusiasmado na Assembleia...

Entretanto, o PS debilita-se perante os olhos do eleitorado exterior ao círculo militante socialista, e sob o nariz dos homens alvo - Ferro Rodrigues e António Costa, e a sua direcção continua sem plano político para o futuro.

Para o futuro, apenas uma advertência:

Whoever is first in the field and awaits the coming of the enemy, will be fresh for the fight; whoever is second in the field and has to hasten to battle will arrive exhausted.

-in Sun Tzu, Art of War

Sexta-feira, Novembro 07, 2003

Cassete riscada

Vê regimes comunistas poderosos por todo o Mundo. Para ele o muro de Berlim não caíu. Até já se tornou um vigilante contra o terrorismo imperialista. Observei-o desde sempre. Examino agora o seu comportamento.

Paciente: Álvaro Cunhal
Diagnóstico: METAMORFOPSIA (perturbação perceptiva que se traduz na modificação deformante da visão das formas, das dimensões de objectos ou de pessoas).

Irreverências e irrelevâncias

No Washington Times:

California's attorney general said yesterday that he warned Arnold Schwarzenegger that the groping accusations against him are "not going to go away" and that the governor-elect should cooperate with an investigation.
Bill Lockyer said he spoke with Mr. Schwarzenegger as recently as Wednesday about the accusations leveled against the action star during the closing days of the campaign, the Associated Press reports.
The accusations will not go away "until he is willing to have some form of independent, third-party review of those complaints to see if there's any criminal liability or not," Mr. Lockyer said.
The attorney general said he had no plans to open an investigation of his own because that is generally the jurisdiction of local district attorneys.


Estará este homem condenado à mesma imagem pitoresca que ameaçou Clinton durante os últimos anos da sua presidência?

Quarta-feira, Novembro 05, 2003

E hoje estreia...

...o terceiro filme do "Matrix". Sinceramente não vejo nenhum misticismo naquele filme. Para mim é apenas mais uma mistura de efeitos especiais com acção e um enredo de "cabala" por pano de fundo. Muitos outros já seguiram a mesma fórmula e caíram no ridículo, o "Matrix" ao menos entretém. Bem, mas no final da semana também o vou ver... para não me sentir antiquado.

A história de Tarek Aziz

José Manuel Fernandes, no editorial de hoje, comenta as afirmações de Tarek Aziz, ex-vice primeiro-ministro do governo iraquiano (era Saddam, evidentemente), no "Washington Post". Aziz revela, entre outras coisas, que o governo francês e o governo russo se mobilizaram em esforços (dificilmente) diplomáticos na direcção de uma aproximação Paris-Bagdad e Moscovo-Bagdad, respectivamente, em nome da democracia (será?).
Esta frase de Fernandes é muito evidenciadora:

Nas vésperas da guerra muitos acreditaram que se a comunidade internacional se tivesse mantido unida os esforços de algumas diplomacias árabes para afastar Saddam do poder teriam resultado e a guerra teria sido evitada. Já sabíamos que a comunidade internacional se desunira - não sabíamos era que parte dela tinha ido a Bagdad reconfortar o ditador.

Não querendo ser faccioso, remeto-vos, apenas e novamente, para o editorial do "Público" de hoje.

PS - esta notícia do "Washington Post" ainda vai dar muito que falar...

Terça-feira, Novembro 04, 2003

Histórias do Futebol 2

Lembro-me, também, de ter acompanhado a evolução, no Vitória, de Eric Tinkler, um jogador, centrocampista, sul-africano, de rude recorte técnico mas grande batalhador (desde finais da década de 80 até hoje viriamos a ter dezenas de atletas semelhantes). Mas Eric foi um elemento chave naquela equipa em Setúbal. Tempos saudosos.

*Esta referência é, também, em tom de provocação ao Treinador de Bancada, para que desenvolvam a minha nostalgia de forma muito mais idílica.

3ª parte - "O Regresso do Rei"

Este também já paira sobre a blogosfera. Aah, presidenciais...

Constituição à luz da "discussão"

Ontem vi, atentamente, o debate sobre a Constituição Europeia na RTP. Gostei imenso de ouvir o grande Jorge Miranda. É uma voz mais que qualificada para debates sobre este assunto. Só é pena o debate já vir um pouco tarde e ser um caso isolado, chegando a roçar a hipocrisia. Mas foi bem conduzido e houve algumas intervenções bastante claras.

Não vou falar mais do mesmo, visto que iria repetir os argumentos que já referi noutro post. Ao invés, vejam a opinião do Carlos do Mata-Mouros e de Pacheco Pereira, entre outros, sobre o "Prós & Contras" de ontem.

Harry Potter

O Aviz, acerca do lançamento de Harry Potter no Panteão Nacional, volta a dar palavra a alguns leitores e a responder, em parte, com o seu "encolher de ombros". E faz muito bem.

Por um lado, tenho um pouco de vergonha no facto de ser raríssimo haver iniciativas tão "ricas" (e tão divulgadas) dedicadas a autores portugueses contemporâneos, sejam obras actuais ou já um pouco esquecidas, e depois vir um pequeno feiticeiro dos confins da Grã-Bretanha arrebatar os corações de tantos portugueses em solo sagrado português. Mas será essa sacralização tão legítima assim?

Claro que não, minhas senhoras e meus senhores! Em primeiro lugar, motivou inúmeras crianças a visitar um monumento que enaltece a nossa história e, sobretudo, o nosso passado. Talvez até tenha retirado o manto soturno daquele local e aberto muitas mentes para a sua importância. Só é pena que a autora seja inglesa e não portuguesa, mas admito que os livros até têm a sua piada, se já estivermos preparados para a simplicidade das narrativas.

Agora, caírmos nesta beatice e puxarmos o tapete debaixo dos pés das crianças portuguesas é estar a relegar para segundo plano um livro que deve ter inserido milhares de miúdos portugueses no mundo da leitura, é estar simplesmente a ser obtuso. Numa sociedade a transbordar de ateísmo e de audiências gigantescas em frente às galas do Big Brother, aflige-me ver tanta polémica em torno deste acontecimento.

Segunda-feira, Novembro 03, 2003

Micro-europeísmo / A acção do Parlamento Europeu

Num post de ontem, o Bruno fala do conceito de cidadania europeia, que eu também rejeito. E refere ainda a importância habitualmente atribuída ao Parlamento Europeu como uma falácia (eu diria, mesmo, que é um "beco sem saída" na maioria dos casos).

O Bruno explica, de forma sintética e bastante clara, que o conceito de cidadão é o que influencia a prática democrática e de decisão no Parlamento Europeu. Não havendo consciência (com todo o sentido) de cidadania europeia, também não haverá um interesse supranacional ou europeu em primeiro lugar. São as questões que importam a França, Alemanha, Portugal, Espanha, etc., que são votadas, não são as questões que importam à Europa. Nessas muitos deputados admitem ser espectadores atentos e nada mais.

Querendo "dar poderes" ao Parlamento Europeu está-se, quer queira quer não, a desrespeitar os Parlamentos Nacionais e o processo democrático de decisão a que cada país tem direito. É a importância do direito de veto que está em causa e em risco, com o projecto de "Constituição" Europeia (que já vai além de ser um mero projecto). Também é interessante referir o que muitos deputados portugueses presenciam no PE: há um hábito de votações em bloco, para fazer prevalecer o interesse nacional (os eurodeputados Pacheco Pereira e Ilda Figueiredo, tão diferentes, admitem essa situação).

Portanto, se deve haver igualdade na Europa, é na decisão a nível internacional, a nível da União Europeia, mas á partir de órgãos nacionais e internos. Ninguém deve votar como "europeu".

Ensino Superior e propinas

Quero desde já distanciar-me dos fáceis comentários que são, diariamente, dirigidos ao aumento das propinas no Ensino Superior. Este é um comentário pessoal, distinto e pragmático de um espectador imparcial. Primeiro importa aqui aplicar a pergunta que está na base de todo e qualquer protesto: O Ensino Superior Público deve ser livre e gratuito?
A resposta aqui aplicável não será um simples "sim" ou "não", mas todo um leque de argumentos a favor de cada um. A minha perspectiva defende os interesses de quem responderia "sim", mas o carácter da pergunta e, mais importante, as consequências de tal suposição levam-me a responder "não".

Primeiramente, é útil distinguir, desde já, o Ensino (Superior) Público e o Ensino (Superior) Privado. A razão da distinção não tem a ver com qualidade de ensino aí praticado ou com as capacidades económicas de quem frequenta cada um deles. Tem, sobretudo a ver com os fundos disponibilizados, para cada uma das administrações, pelo seu financiamento.
O Ensino Privado é financiado, única e exclusivamente, pelos seus alunos (não importa aqui referir as verbas auferidas directamente dos administradores), através de uma propina "privada" que é decidida segundo um equilíbrio entre as necessidades educativas e as financeiras.
No entanto, o Ensino Público recebe um duplo financiamento "em bruto". A par das propinas que os particulares, os alunos, pagam, há um financiamento adicional estatal que vem, directamente, dos impostos à população. Ora, aqui há um desequilíbrio na liberdade de ensino - os indivíduos que escolherem, para si ou para os seus filhos, seguir a via educativa privada, têm que pagar um duplo "imposto" sobre o ensino (mais adiante falarei abertamente deste elemento). Esta diferença deveria permitir a existência de melhores condições nas universidades públicas que nas privadas, mas o facto é que tal superioridade é falaciosa. Na verdade, o prestígio é superior mas a verdadeira qualidade fica aquém da exigida. Logo, aqui há um desequilíbrio mais forte do anterior, no que toca à aceitação profissional dos rótulos académicos de cada um. Estes dois desequilíbrios têm de ser moderados (pelo Estado, presumo) para permitir uma igualdade de oportunidades para todos os alunos, fazendo "tábua rasa" das suas origens sociais e posses económicas.

Passando ao aluno propriamente dito, faço para já uma advertência, em especial ao jovem manifestante: onde existe liberdade, e liberdade de ensino especificamente, deve haver uma responsabilização do indivíduo pelas suas habilitações, pela sua educação. Por outras palavras, embora não seja um Estado de laissez-faire, este deve conceder uma liberdade de ensino ao indivíduo que queira seguir uma via profissional que exija uma especialização e, sobretudo, uma aprovação para exercer uma profissão.
Isto é, o aluno do ensino superior não é um menor, não está a adquirir, no ensino superior, o saber mínimo exigido a um cidadão. Qualquer pessoa que se candidate ao ensino superior, deve ter uma consciência do mercado de trabalho, sobretudo num contexto actual. Isto porque, sobretudo, não é um problema de ser educado, de adquirir, em parcas palavras, o "conhecimento". O "conhecimento" não é exclusivo às universidades, pode ser adquirido por qualquer cidadão recenseado numa biblioteca (basta que, para isso, se disponibilizem mais recursos para estas, ao mesmo passo que se centralizam os postos em pontos mais fortes).

Por isto, os alunos do ensino superior devem ter consciência de que o que é realmente importante é obter igualdade de oportunidades e igualdade de tratamento sem destruír o verdadeiro privilégio do ser humano racional - a desigualdade de competências e interesses. Esta é, sobretudo, uma perspectiva pluralista, que visa defender os direitos de todos os estudantes.

Portanto, havendo uma base económica estável, o Estado deve cobrir as necessidades económicas do aluno e não as suas licenciaturas. Ou seja, é, como eu dizia mais acima, a asserção, por outras palavras, dos benefícios de um sistema de financiamento às famílias e não às escolas. Em síntese, é a defesa da liberdade de ensino com um equilíbrio sólido à partida e em toda a sua extensão, que permita a todos os cidadãos ter acesso ao Ensino Superior mas que este o não ofereça gratuitamente. Havendo mecanismos (serviços sociais) de apoio, de garantia, ao indivíduo, ou ao aluno, passa a existir maior prestígio para a licenciatura superior, mas com um crescente apoio directo às famílias mais carenciadas para que estas possam escolher a via de ensino que mais lhes convier. É, por fim, o princípio de ensino livre, ou ensino superior, que está aqui em causa.

Histórias do futebol

Elucidado pelo Spry, fui visitar uma página muito interessante sobre futebol, embora seja mais específico dizer que é sobre Yekini.

Para quem gosta, gostou, precisa do futebol ou, simplesmente, tem curiosidade pelas histórias do futebol português, aqui vai um conselho: mantenham-se atentos a esta página, pois Yekini é um símbolo para todos os que cresceram a par do futebol português dos anos 80 e 90. Um estilo de jogo muito sui generis e um estranho carisma africano fizeram de um homem de parcas ambições um ícone da passagem dos tempos desportivos em Portugal e, sobretudo, em Setúbal.

Post scriptum:
O futebol não devia mover tanta mediatização, mas move. É preciso conviver com esse facto sem lhe dar protagonismo mas também sem o desvalorizar. Com a lento definhar do Fado e de Fátima, o Futebol manteu-se como o elemento cultural mais marcante do povo. E a verdade é que 4/5 (dado incerto) da população portuguesa "tem" um clube. E a "culpa" é toda do futebol, que chegou mesmo a desvalorizar outros desportos importantes do nosso país (o ciclismo, o hóquei em patins, atletismo e outros projectaram o nome de Portugal na Europa durante décadas).
Por outro lado, muitos bolsos se encheram com esta mina de ouro, e os desportistas, tal como os adeptos, passaram a ser mercadoria de comercialização e politização do desporto em si. Por vezes, exige-se tanto "profissionalismo" aos jogadores de futebol que se esquece o seu direito à educação e se permite que sejam "pop-stars" dos relvados e, quem sabe, até mais que isso...
O resultado desta mediatização é que, hoje em dia, há mais abstenção (taxativa) para as eleições do Parlamento Europeu do que para as eleições dos dirigentes dos clubes. Não há propriamente uma solução para isto, apenas a exigência de bom-senso para que não se exponham políticos (no activo e com responsabilidades, e não do género "autarca corrupto") a aprovações populares como aconteceu no Estádio da Luz que foi recentemente inaugurado. (O Treinador percebe isso, não faz vénias aos presidentes, e respeita alguns homens que choraram com o seu clube, quer jogassem quer treinassem lá.)

Quarta-feira, Outubro 29, 2003

Correspondência

N'A Triste Sina nasce a observação: fugi ao tema. É verdade. Mas nunca prometi manter-me fiel à linha de Kant (aliás, conheço apenas pontas da sua vasta obra).

Por outro lado, uma correcção ao caro e eloquente José Costa - Kissinger NÃO é um ideólogo a que eu me associe. Em termos de Democracia, aconselho Tocqueville. Mesmo para quem receia a conversão...

Aqui...a luz ainda se apaga

Isto de escrever lado-a-lado com quebras de energia e faltas de luz não é nada abonatório para alguém que queira manter o raciocínio (até Miguel Sousa Tavares tem achado essa tarefa difícil e ingrata). Portanto, está explicada parte da minha misteriosa ausência, pois não sou um homem decididamente noctívago. O restante tempo das minhas "soirées" tem sido passado a consumir a "Nova Cidadania" (bons artigos na última edição), Espada, Sabato, Herculano e até um pequeno grande negócio (2,5 euros na FNAC): "Les Misérables" (em inglês, pois claro!) de Victor Hugo.
Portanto, espero raciocinar mais e melhor nos próximos dias. Espero...

Segunda-feira, Outubro 27, 2003

Time is (?) on my side

O tempo já começa a apertar à medida que me insiro (ou inserem...), cada vez mais, no aparelho de rotina português. O tempo escasseia, a rotina abunda e controla. Mas é bonito, é sedutor para qualquer pessoa que goste de desafios. As coisas feitas no limite enriquecem qualquer um.
E amanhã vou encarar os grandes titãs da burocracia ibérica: a tenebrosa Função Pública portuguesa. Dai-me forças, Senhor...

A paz perpétua II

Desembarcando num, se me permitem, espaço contextual último do Triste Sina, vou apenas aproveitar para tecer uma ideia em redor da temática do equilíbrio de poder. Pessoalmente, sempre encobri o conceito de "perfeição democrática" como algo quase inatingível, mas possível, real.
Para mim, perfeição (existe, mas não em todos os contextos) não é um patamar a atingir, não se deve encarar como uma meta, mas sim como um nível médio de alguma relação ou sistema de relações.

A "perfeição democrática" é, assim, o perfeito equilíbrio entre o exercício da liberdade de cidadão e o exercício do poder por parte de um conjunto de homens eleitos por entre os homens "livres". Neste aspecto, concordo com a ideia geral que os anti-americanos da esquerda europeia transmite: os EUA não são a democracia que pensamos. Pois não, são tudo menos perfeitos, e tudo menos equilibrados na escolha dos seus governantes (governantes a nível federal incluídos). Mais perto desse nível consensual está o sistema britânico, que o meu caro amigo Bruno conhece melhor que eu. Afasto-me, portanto, de qualquer ponte entre o Reino Unido e EUA.

Discorrendo sobre o assunto da paz entre povos, há muito (não muito, tendo em conta a minha declarada juventude) que descobri que aí nunca haverá perfeição. Conheço a ideia de Rousseau no que toca a relações entre os homens, mas acrescento que um homem livre tende a reagir inversamente ao ambiente que o rodeia, ambiente esse que pode ser construído pela religião ou pelas políticas, por exemplo. Penso até que as populações sentem-se similarmente inseguras com relações internacionais demasiado precárias como com relações demasiado fortes (veja-se a "partidarização" da União Europeia). Há, a par da bondade inata do Homem racional, um reaccionarismo que se torna numa tendência natural para a mudança. Tal tendência nunca permitirá a manutenção da paz concreta.

Portanto, é uma constante luta pela construção de paz, de cooperação, de um genuíno respeito pelo que entendemos por liberdade e bem-estar, que nos deve impelir à acção nacional e internacional, e não um conformismo "politicamente correcto" com as vozes que gritam mais alto.

Até porque a voz mais forte não é aquela que grita mais alto, mas aquela que ecoa por mais tempo...

*Em breve falarei mais deste tema.

A paz perpétua

An appeaser is one who feeds a crocodile hoping it will eat him last. - Winston S. Churchill

É uma frase que, bem contextualizada, não justifica a guerra mas demonstra a importância da mesma para o processo de construção de paz, ou, pelo menos, de uma cooperação a todos os níveis. Considero que, no início deste século, o preconceito tornou-se uma arma muito mais devastadora que qualquer recurso militar. Como cidadão e observador, considero mais importante para o futuro da civilização e da paz global um conflito preventivo como adido da paz do que uma falsa pacificação como método de contenção de políticas extremas.

Bolchevismos

Nikolai Bukharine, dirigente bolchevique, dedicou uma vida inteira à causa socialista. Para além de acompanhar Lenine, juntou-se a Estaline como um dos seus braços direitos de maior confiança. Resistiu muito tempo ao projecto do "pai dos povos" de expansão da colectivização dos campos, sem nunca abandonar o ditador soviético. De nada lhe serviu, o próprio Estaline mandou-o fuzilar em 1937, na sequência dos "processos de Moscovo", juntamente com outros bolcheviques que teriam agitado o regime por si construído e assim "traído a URSS". Diz-se que tomou a decisão sem remorsos...pelo bem-estar da pátria.

Esta e outras histórias e curiosidades a serem abordadas no "Colóquio Estaline em Portugal", a 21 e 22 de Novembro, na Faculdade de Letras da Universidade Lisboa. Lá estarão João Medina, José Pacheco Pereira, Fernando Rosas, António Ventura e muitos outros. Para quem tem tempo, são umas horas bem empregues.

Um dicionário dos diabos...

Na verdade, não sei qual é o verdadeiro significado de "iconoclasta", tal como não sei o verdadeiro significado de "liberdade", e muitas outras distintas. Daí a importância de dar palavras multi-usos, que a todos sirvam como ponto de partida para uma análise.

O José Costa sentiu que o meu dedo acusador o identificou com o pouco nobre título de "destruidor de imagens". Duvidando que ele seguisse o radicalismo de Huss, apenas o classificaria como alguém que se recusa a ter um livro de cabeceira (neste caso, em relação a Pacheco Pereira) de um pensador ou ensaísta da última parte do séc. XX. Um tratamento hiperbólico por ambas as partes apenas nos está a conduzir a situações caricatas (daqui a pouco sou "maoísta" também!).

Sempre gostei do Grã-Dicionário, mas fujo à sua utilização derrotista. Gosto do que escrevo, sou egoísta com as palavras e não as repito, admito. E é nisso que me revejo em JPP, um grande argumento para a consistência das suas argumentações. E das nossas, espero...

Sábado, Outubro 25, 2003

A Luz acende-se hoje

E agora vou dar uma vista de olhos para ver se o Estádio da Luz merece mesmo uma festa...

Regra nº1...

Regra nº1: o interesse é inversamente proporcional ao nível de um tema. Portanto, insiro aqui duas frases de ontem ricas em humor.

Em Portugal existe uma verdadeira caganeira judicial: todos os intervenientes fazem um esforço muscular no abdómen, abrem o esfíncter e cagam com força no segredo de justiça.
- Domingos Amaral, in "O Independente"

Este país fede a sexo. Rasca. E a vida dos portugueses transformou-se numa rotina de bordel.
- João Pereira Coutinho, idem

Quinta-feira, Outubro 23, 2003

Um ícone

D'A Triste Sina parte a advertência. Em carta registada diz assim: Homens, aparentemente, inteligentes, deixam-se, aparentemente, seduzir por Pereira, Pacheco Pereira. A simpática referência ao meu blog não podia passar despercebida.
Mas o japcosta é claro na sua opinião. Opinião que só me apresenta duas situações: ou é um iconoclasta de esquerda ou não gosta de Pacheco Pereira. Estou mais inclinado para a segunda.

Por mim, continuo a ler o JPP, que já me "seduzira" ainda eu não sabia o que era um blog e ainda via Yekini no Estádio do Bonfim. E continuo também a ler A Triste Sina, com bom gosto.

Ministros

Há dias atrás, dizia-se, em animada conversa de café: Ana Gomes ainda vai ser primeira-ministra!. Ao que aqui o vosso amigo responde "Concordo, claro! Mas lembra-te que Rowan Atkinson ou Ana Bola estão há mais tempo à espera de sua oportunidade!"
Dias depois, outro amigo: A Ana Gomes é alguém com convicções, não tem papas na língua, por isso é que a respeitam. Ora, resposta imediata partiu do metamorfópsico e revoltado escritor: "E o Manel João Vieira?! Ninguém se lembra dele?! Porque não lhe dão também uma chance no Rato?".
Prometo incluír aqui, brevemente, uma síntese desse novo movimento de esquerda: o "anagomismo".

O Dicionário de JPP

E as palavras de José Pacheco Pereira completarão a minha última opinião. Leiam este seu artigo de hoje no "Público".

Em areias movediças

Não querendo demorar-me muito falando sobre o PS, vou apenas dar duas ou três palavras sobre o assunto em questão (falo, claro, do "estado" do Partido e da sua saúde). A seu tempo, voltarei a abordar o mesmo tempo, quem sabe acompanhando as opiniões alheias.

Primeiro, é claro, e é o mais importante desta corrente de acontecimentos, está o obus que caíu bem no centro do Largo do Rato. Falo da evolução do caso de Paulo Pedroso. A sua detenção (e, mais importante, o género de detenção) motivou muitia indignação dos outros dirigentes do partido e d emuitos portugueses. Mas foi, curiosamente, a sua libertação que permitiu o descontrolo dos acontecimentos. A enormíssima (e ridícula, note-se) mediatização da libertação de Pedroso e dos dias que se seguiram - Pedroso na Assembleia, Pedroso na sede do PS, Pedroso em casa do irmão a almoçar - foi a maior evidência de que o PS de hoje não é um partido de verdadeira oposição mas um partido que segue uma linha populista tentando ocupar o lugar de "simpatia" que cabe sempre a um partido na hora das eleições. Mas esta mediatização não parte só da comunicação social, são os próprios socialistas que a motivam, alimentam e permitem, sem saber que apenas estão a criar uma perigosa criatura à solta no Partido e na política.

Por outro lado, é a fatia relativa às escutas divulgadas de Ferro Rodrigues. Sendo abertamente contra escutas telefónicas cujo objectivo não seja devidamente clarificada, mais indignado fiquei com a forma como as conversas do Secretário-Geral do PS vieram parar aos jornais e às televisões. Ora, há em tudo isto uma facção pretensiosa que ainda não consegui identificar - alguém, para além das publicações de informação diária e mesmo o próprio governo (na medida em que perde a oposição), consegue lucrar com isto. Não corroboro com a teoria de cabala, mas corrijo as palavras de Ferro Rodrigues: pois isto não é um ataque ao PS como partido, mas um ataque aos próprios dirigentes. Em alguns casos, um "feitiço" que se inverteu e se voltou contra o feiticeiro.

E, por último, a "mirabolante" carta aberta de Manuel Maria Carrilho pedindo um Congresso antecipado. Não sei qual a elevada importância que isto tem e o que vai abalar. Não vejo características especiais nem na carta nem no seu autor. Carrilho disse o que toda a gente já sabia, mas falou bem e tem razão (pela 1ª vez acredito neste homem...). Mas também duvido muito que ele realmente queira subir a secretário do partido, como alguns populares já clamam nos canais de televisão. Não tem foro, não tem apoios, não tem futuro imediato.
Por outro lado, admira-me muito como ainda não ressurgiu em cena Jaime Gama, por exemplo. É um dos únicos plausíveis de agarrar o partido na ideologia em que foi deixado (há já bastante tempo, admitamos).

Resumindo, o PS tem-se debatido demais para um partido que tem o papel principal da oposição. Não apresenta soluções nem para si nem para o país, não apresenta propostas, nem sequer se defende correctamente das adversidades com se têm deparado. Mas, costuma-se dizer, quanto mais esperneiam e se esforçam (de forma barafustante, desorientada e mesmo brejeira) mais se afundam. Como se de areias movediças se tratassem...

Terça-feira, Outubro 21, 2003

A lâmpada eléctrica

Precisamente no dia de hoje, 21 de Outubro, em 1879, Thomas Alva Edison inventava a lâmpada eléctrica. Uma curiosidade supérflua sobre um invento revolucionário e um homem essencial à história da Humanidade.

Iraque

Segui o conselho do meu amigo Bruno e fui dar uma vista de olhos ao artigo de ontem do Jonah Goldberg. Eu já conhecia o Goldberg (mais visionando a CNN do que outra coisa qualquer) de algumas posições e teorias que apresenta e representa nos canais de televisão norte-americanos e em alguns artigos na internet, mas nunca o tinha lido com a devida atenção. Li e gostei, e aconselho-vos a ler, pois é relativamente conciso, objectivo e, por conseguinte, "rápido" de ser lido (para quem prefere moer languidamente os problemas e as questões, renunciai a minha oferta, por favor). No entanto, o sentido que o enriquece não está ao alcance de todas as sensibilidades, pois Goldberg tende um pouco para a direita "moderna".
Resumindo, olhem que o rapaz tem jeito para aquilo...

Domingo, Outubro 19, 2003

A cagada

A grande notícia de ontem era a revelação de algumas "declarações" (não oficiais, claro) feitas no âmbito da detenção do deputado Paulo Pedroso e do processo da "Casa Pia", ou da parte do processo que envolvia o nome de alguns membros e dirigentes do PS.
Numa dessas declarações, supostamente, Ferro Rodrigues afirmou, ao telefone com António Costa, que se estava "cagando para o segredo de justiça". Ora, quantos de nós não dizem coisas semelhantes ou mesmo piores relativamente a importantes fatias da justiça ou do sistema institucional ou político português? Agora, por amor de Deus, conversas feitas sob escutas telefónicas ilegítimas virem a público? Não quero ver chegar o dia em que o "Big Brother" se liberta completamente da caixa de Pandora para se acomodar indefinidamente nas nossas casas...

Bola falada

Para quem adora futebol (como eu) e está cansado das fastidiosas questões políticas que sofrem acção diária da complexa teia de blogs de "colunistas", deixo-vos uma sugestão: o Treinador de Bancada, do (Roger) Spry e do (Malcolm) Allison. Para quem não vive em Setúbal ou se alheia bastante do futebol em Portugal, deixo uma pista: eles não vivem em Inglaterra...

Quinta-feira, Outubro 16, 2003

O Dr. Salgado de Coimbra

Há pouco, soube pelos telejornais que se mobilizaram um aglomerado de estudantes da Universidade de Coimbra em protesto contra o aumento das propinas (ao que já adiconaram argumentos como a redução da autonomia das instituições - mas afinal não foram as reitorias que estipularam as propinas?).
Por um lado, compreendo, como estudante com igual ou pior preocupação do que eles com as despesas mensais de um estudante deslocado. Mas será que alguém pensa no que se poderá fazer com uma solidificação do orçamento das faculdades e, por conseguinte, da acção social (vulgo, bolsas de estudo)? Já para não falar no que se poderá fazer com o equipamento de reprografias, tipografias e, mesmo, biblioteca.
Penso que há toda uma lista de melhoramentos que podem ser feitos pelos alunos de forma a exigir melhores condições, mesmo que não seja já este ano. Os paizinhos desta geração esforçaram-se a trabalhar (muitos sem a "educação", ou acesso ao ensino, devida) para permitir que o ensino secundário fosse acessível para todos.

Daí a bloquear estradas, manifestações em frente a edifícios públicos, entupimento de vias públicas, etc., vai uma larga passada. E porque é que os meninos de Coimbra, sob a tutela do agora famoso Vítor Salgado, resolveram fazer meia hora de silêncio? Pelo óbito da razão?

Quarta-feira, Outubro 15, 2003

Saddam nunca existiu...

Vejam o brilhante cartoon que o Valete Fratres anexou ao seu blog ontem, dia 14. Querem melhor?

Economia-mundo

Acerca da economia-mundo, ou economia global, e o perigo da competição económica reaccionária em relação ao "centro":

Toda a economia-mundo exige um centro, geralmente uma cidade excepcional e, à sua volta, uma zona privilegiada - o coração. Implica, nos seus limites externos, uma periferia, normalmente vasta, relativamente menos povoada (...), bastante pobre, inerte, submissa, explorada. Entre a periferia e o coração, há zonas intermédias em contacto com ele, por vezes pressionando-o, zonas estas que lhe apertam o cerco e que o pressionam com as suas rivalidades. São, mais ou menos, "brilhantes segundos planos".
(...)
Porém, os corações das economias-mundo são relativamente frágeis. Cansam-se, tal como os nossos próprios corações. É preciso substituí-los. Na verdade, a sua substituição efectua-se sem cirurgia, sem intervenção consciente dos homens, mas obrigatoriamente trata-se, sempre, de uma prodigiosa mudança, para o corpo inteiro da economia: uma vez realizada a deslocação do centro, tudo se transforma, tudo fica irreconhecível.


- Fernand Braudel

Quinta-feira, Outubro 02, 2003

Woody Allen

Ontem tive a sorte de chegar a casa no momento em que pouco passava do início de "Bananas", um filme de e com Woody Allen. Um excelente filme e uma estreia para mim, que nunca o tinha visto.
Confesso que sou um fã de Woody Allen, não expressamente devoto, mas um bom observador.
Falavam-me, há dias, daqueles grandes realizadores que fazem filmes complexíssimos, e foi aí que me saiu a comparação com Woody Allen e a auto-revelação de uma estreita ligação realizador-espectador.
Grande realizador não é aquele que complica as coisas óbvias mas aquele que simplifica as questões mais complexas.

(Com este post, é provável que seja aplaudido pelo Bruno.)

Tabaco

Marbelo e Marlboro??? Hã???

Ainda o referendo europeu

Ainda no jornal "Público" de ontem vinha o artigo de Helena Pereira e Eunice Lourenço: "Coligação teme referendo a novo tratado europeu". O artigo refere-se às reservas que o Governo tem em relação ao referendo. Penso que a atitude é negativa.
O Governo de Durão Barroso está, neste momento, encurralado entre a União Europeia e a aceitação da população portuguesa em relação a essa instituição. Qualquer passo em falso na direcção seja de quem for quebra a confiança e as relações com o outro "lado". Poderá ser uma opinião pessimista, mas é o que se passa e vai passar neste período e nos próximos tempos.
Pedro Duarte, o porta-voz do PSD, referiu que o referendo ainda não é possível e que é sensato esperar pelos resultados da CIG (Conferência Intergovernamental), que começa no dia 4 de Outubro, para poder analisar as alterações feitas pela futura Constituição europeia. Aliás, o próprio Durão Barroso já havia afirmado, em Junho, que é "desejável" haver um referendo nacional antes da ratificação do tratado. Segundo Pedro Duarte, o referendo virá "dar força a quem estiver pelo não", isto por causa do possível enfraquecimento dos "pequenos" países.
Mas também a abstenção pode vir a afectar a imagem de Portugal no seio da União Europeia. Em contrária à fama europeísta que, segundo a Eurostat, os portugueses têm.

Ora, a atitude que o Governo está a adoptar - o tal "medo" de avançar com o referendo - é negativa para o próprio país. Esta posição inspira insegurança aos portugueses e pode revelar um governo a ultrapassar um período de desconfiança e de mudanças feitas a um ritmo demasiado elevado. É sabido que nós, portugueses, não gostamos que nos retirem o que temos por garantido, os nossos hábitos e maus hábitos, e é isso que o próximo tratado da UE ameaça. E é nesta linha que surgem os partidos extremistas e populistas, como o Partido da Nova Democracia de Manuel Monteiro, a defender Portugal como um Estado soberano.

Também já me têm vindo dizer que Portugal deveria sair da União Europeia o mais depressa possível antes que percamos acesso às zonas marítimas essenciais à nossa sobrevivência económica, tal como a liberdade na produção agrícola. Ora, qualquer um de nós pode cair nessa observação simplista e crua, que não deixa de ter razão. Mas Portugal "fora" da UE? E a própria União? A economia portuguesa seria "esmagada" por uma relação de trocas como, por exemplo, entre União Europeia e EUA. Porque precisamos da Europa (não é uma ilusão), também precisamos de procurar um meio, legislativo e prático, de enunciar que também nós somos um importante pilar da União.

Sampaio vs. Teixeira

Jorge Sampaio veio a público opinar sobre a "gestão" do processo Casa Pia, em concreto sobre o juíz Rui Teixeira: A lealdade processual não é compatível com formas de administração da justiça, iluminado pela sua convicção, se exima a confrontar o arguido com ela ou recuse o risco de a ver infirmada por uma instância de recurso.
Pergunta: Sampaio falou como advogado ou como Presidente da República? Temo a resposta...

Constitucionalmente falando

No "Público" de ontem foi publicado um texto de opinião, da autoria de Jorge Miranda, sobre o projecto de "Constituição" europeia (repare-se que plagiei as aspas do texto do professor Miranda para não retirar o sentido e a importância da palavra Constituição no âmbito da sua opinião). Não só falou sobre a "Constituição" em si como falou da revisão contitucional a ser trabalhada na Assembleia e da hipótese de um referendo europeu.
Da minha parte, é raro pronunciar-me, no blog, relativamente a estes assuntos, mas importa aqui acrescentar uma palavra ou duas sobre o assunto, pela proximidade "profissional" da questão europeia.

Entre os pontos mais importantes, vou destacar aqueles que acho mais interessantes e nos levam a uma reflexão mais "reflexa" e instantânea. Primeiro, na direcção oposta a d'Estaing, Jorge Miranda salienta um ponto: A afirmação do primado do direito da União em face do direito dos Estados membros (art. I. 10º) (...) põe em causa, primeiro, os princípios da soberania constituinte dos Estados membros. Esta expressão não podia ser mais imbuída de razão e sentido, assim como nos impele à pergunta já feita, há uns tempos, pelo catedrático João Medina, em relação ao famoso discurso de Churchill: a Europa poderá ser uns Estados Unidos da Europa ou simplesmente caminha para uma Europa Unida de Estados? O que está em questão não é perda de simbologia ou "soberania" nacional mas o próprio direito de cada um como, por exemplo, português e não como "europeu" - não existem "europeus" mas sim cidadãos da Europa muito heterogéneos, e não se pode pôr todas as questões internacionais, ou com implicação fora das fronteiras nacionais, à luz de uma Constituição europeia. À partida, poderá haver aqui um choque constitucional.

O professor Miranda cita ainda a declaração inicial da "Constituição" europeia: No preâmbulo do projecto cita-se uma frase de Tucídides: "A nossa Constiutição... chama-se «democracia», porque o poder está nas mãos, não de uma minoria, mas do maior número de cidadãos."
Sendo assim, diz ainda Miranda que a democracia representativa moderna exige um reconhecimento da vontade e poder popular à população como um todo, abolindo assim a possibilidade de existência de uma, digamos, "tirania das maiorias". Ora, a democracia do projecto de "Constituição" europeia (e o cerne do poder legislativo) fundamenta-se nos Estados mais populosos.

A língua portuguesa adquire também uma importância acrescida. O projecto da Convenção consagra uma bandeira, um hino, um lema, uma moeda e um dia oficial da União Europeia. Mas não há referências a línguas oficiais. Isto é um enorme desafio à legitimidade europeia da nossa língua. Uma das línguas mais faladas no Mundo (numericamente a 3ª maior europeia à escala mundial) pode ser esquecida na redacção de documentos oficiais da UE. Um pequeno grande problema de identidade e influência portuguesa.

Na opinião do constitucionalista, as atenções públicas também ainda encaram a construção europeia como algo muito abstracto. O problema é que as implicações da "Constituição" europeia serão bem reais para todos nós... Durante este tempo, escassearam os debates sobre a "Constituição" europeia em preparação, eles passaram à margem do Parlamento e interessaram muito pouco a opinião pública, anestesiada pela televisão e pelo futebol (...), diz Jorge Miranda.
Ainda refere a recente atenção legislativa virada para a revisão contitucional a que a Assembleia foi pressionada pelo Governo autónomo da Madeira (com especial destaque para o "Astérix" João Jardim). Ou seja, em vez de se preocupar com a perda de peso de Portugal nas instituições europeias, vai preocupar-se com a mudança de nome dos ministros da República ou com os poderes legislativos regionais - poderes que, de resto, com a multiplicação das "leis europeias", vão tornar-se (...) cada vez mais ilusórios.

Também importante é a pergunta que se deve fazer neste momento - referendo europeu ou não? - mas para a qual a perigosa resposta parece óbvia.
Diz Jorge Miranda: Pode haver um referendo europeu, mesmo antes de aprovada, na Conferência Intergovernamental, a "Constituição" europeia ou de ela ser submetida ao Parlamento. E isso é preferível a que o povo seja colocado perante factos consumados.
Se nas questões sociais e demagógicas a nível nacional se exige um referendo, também numa implicação constitucional europeia urgente como esta se deve proceder a esse "censo" de opinião com importante determinância. Mas para tal também tem que haver informação sobre o que é que vai a referendo, e não apenas votar "Europa ou não". E as televisões também têm um importante papel a desempenhar neste aspecto.

O bolso...

Quando este Governo tomou posse, em Abril de 2002, dizia-se que Paulo Portas ia meter Durão Barroso no bolso. Passado um ano e meio, a situação inverteu-se: Paulo Portas é que parece querer meter-se no bolso de Durão Barroso.

José António Saraiva - in "Expresso on-line", 30/09/2003

Terça-feira, Setembro 30, 2003

A passagem subterrânea

Se há coisa que eu adoro em Lisboa e nos seus transportes públicos é o Metro. É fantástico atravessar grande parte da cidade em 15 minutos e, nesse curto período, conhecer alguns estereótipos de pessoas que habitam o melhor retrato do nosso país, a capital.
Por vezes sento-me frente a outras pessoas, é engraçado como se procuram umas às outras com os olhos, numa obsessiva avaliação alheia. Mas dois olhares nunca se encontram, é raro. Quando o fazem, é um facto raro e instiga desconfiança a qualquer um.
Melhor ainda é poder espiar o que os outros lêem (às vezes parece-me que o mesmo livro de Nicholas Sparks anda de mão em mão por entre as hostes femininas). Outros lêem livros sobre os mistérios e segredos da mente. Outros de engenharia ou mesmo o código civil. É até comum ver muitos a refelctir e a fazer cálculos matemáticos apontando-os numa folha em cima de um manual técnico.
E quem nunca viu a famosa "banda de Bombaím"? O grupo de três indianos (da nova vaga) iluminados com o dom da música tocando um acordeão, um pequeno cavaquinho e algo mais imperceptível? Estão a um passo do misticismo urbano.
São 15 minutos de Linha Amarela muito, mas mesmo muito reveladores.

Domingo, Setembro 28, 2003

O braço esquerdo do Governo

O CDS/PP sai do Congresso de Matosinhos com uma linha ideológica difusa e perturbante para os mais ternos militantes do partido. A geração de Adriano Moreira ou Lucas Pires estarão hoje, após o congresso, passivas em relação a Portas e ao PP.

Primeiro, o PP não só alterou, em 2 ou 3 anos, a sua posição perante a Europa como hoje se apresenta, até, como o mais sereno partido em relação à integração europeia - a "eurocalma" de que falava Portas. Aliás, citando o líder do PP, "Ser eurocalmo ou euroesclarecido é ter uma só pátria que é Portugal e um interesse muito importante em jogo que se chama Europa". Numa carta a Lobo Xavier, José Pacheco Pereira perguntava "então e o CDS euroexcitado?".

Por outro lado, em relação ao surgimento do PND (Partido da Nova Democracia) de Manuel Monteiro, o CDS/PP está em risco de perder votos. As alas mais à direita do PP procurarão uma nova alternativa e uma nova oporunidade de estruturar uma ideologia à imagem da Democracia Cristã conservadora que está adaptada às novas exigências nacionais e de Governo. E é precisamente a presença do PP no actual Governo que empurrará não só alguns históricos do PP, e com eles parte da geração que os segue, para o PND em busca de uma outra direita "mais à direita", mas também as bases, a população sem militância que, procurando alternativas à perda de soberania para a União Europeia e a uma política de sacrifício do actual governo (a que irremediavelmente associam também o CDS/PP), encontrarão demagógica resposta no discurso "monteirista".

Ainda no "monteirismo", uma evidência neste Congresso foi a abertura do Partido para uma realidade mais ampla, perdendo identidade mas ganhando terreno sobre outros partidos de direita. Penso que será uma resposta ao leve declínio de apoio ao Partido Popular da orla conservadora. A coligação no governo, a posição "eurocalma", e o compromisso de uma nova aliança para as próximas eleições foram prtexto suficiente para revelar as inércias do PP a alguns militantes. Portanto, Paulo Portas integrou, na nova Comissão Política, diversos "homens" da era de Manuel Monteiro, assumidamente mais à direita e mais "teimoso" que o actual líder do partido. Entre eles Sílvio Cervan e outros, inclusivamente caras conhecidas dos eleitores que davam um olhinho de vez em quando à Assembleia.

Quanto à coligação no governo e à questão de um novo compromisso Durão Barroso responde: "Sinto-me muito honrado por chefiar um governo que integra como componente essencial o CDS-PP. (...) O fundamento da convergência entre as forças políticas que compõem a coligação do Governo não reside em qualquer cálculo meramente partidário nem representa qualquer casuística solução táctica de conveniência. Trata-se de um projecto por Portugal e para Portugal que, naturalmente, irá para além da fórmula de governo que oferecemos ao país."
Assim, ao contrário do que muitos de nós esperávamos, a coligação é mais provável do que se pensa. O CDS/PP continua, entretanto, a invalidar algumas posições sociais do Governo do PSD e a contrabalançar a integração europeia em busca de um federalismo coeso. Exceptuando Bagão Félix, para mim o CDS/PP continuará a ser o braço esquerdo do Governo, e nem PP nem PSD beneficiam com esse reboque.

O "CDS" em Matosinhos 2

Paulo Portas, o líder do CDS/PP tanto a nível partidário como a nível governamental, deixou claro neste congresso algumas posições e algumas características que se tornaram vincadas na era do "Independente".

Entre outras declarações mais exaltadas, em que chegou a falar de "Gastão", novo elemento determinante para o debate político (!), verificou-se um punhado de intervenções mais aguçadas. Uma delas fez o contraste e distinção, em tom irónico, entre o "tumor" Paulo Portas e o "bolor" Mário Soares. O presidente do PP teve, assim, oportunidade para rir e sorrir para as câmaras num humor bastante impróprio quando comparado com a sua sisuda actuação como Ministro da Defesa. Membros do Governo não devem libertar fagulhas sobre personalidades políticas com muito a dizer mas pouco para fazer, e muito menos daquela forma.
Foi um pormenor estranho esta faceta que se (re)verificou em Portas no Congresso de hoje, e que se agravou quando declarou que "não se ouviu uma palavra incorrecta", que foi um "congresso aberto, sem ofender ninguém", e que representou uma "lição de civilidade".

Portas aproveitou ainda para confirmar a nova Comissão Política do partido, contando com 15 novos membros, como Mariana Ribeiro Ferreira (ex-assessora de imprensa) e o "monteirista" Sílvio Cervan (voltarei a falar das implicações deste). Os novos membros que entraram representaram uma mudança de estrutura, mas ainda sem rumo, o que torna o PP num partido vulnerável.

Portanto, o CDS/PP continua, na linha dos últimos anos, a centrar o partido em Paulo Portas. Dando uma ilusão de um "partido de um homem só", como disse Pacheco Pereira. Exemplo disso é a recente comparação, por Luís Queiró, de Paulo Portas com Amaro da Costa (ele também Ministro da Defesa no primeiro governo de aliança democrática do pós-25 de Abril). Para muitos de nós, mais atentos, esta comparação e excitação "pauloportista" poderá parecer familiar. Os líderes das "extremas" nos anos 30 eram comparados a Júlio César, Carlos Magno, Lenine...

O "CDS" em Matosinhos

Hoje teve lugar em Matosinhos o 19º Congresso do CDS/PP, onde se reafirmou Paulo Portas como líder do partido e líder do planeamento para uma próxima coligação na entrada das eleições para o Governo. Defendeu-se, sim, a identidade e integridade do partido... mas a que custo?

Entre outras coisas, resgatou-se a temática da imigração no nosso país, onde Portas, tentado justificar-se em vez de responder (nesse aspecto foi comedido), declarou que, para haver mais imigrantes, teria que haver outro panorama que não o "dormirem debaixo das pontes, vasculhando no lixo algo para jantar ou almoçar". Esta expressão foi extremamente redutora para um político que dá tanto relevo e importância às questões da imigração. Na minha opinião, qualquer imigrante deve entrar no país com uma perspectiva e com uma conjuntura socio-económica que lhe permita trabalhar com alguma visão e alguma margem de progresso. Penso que todos nós somos parcialmente tocados pelo discurso de Paulo Portas se soubermos, ou nos lembrarmos, que há, realmente, muitos imigrantes não debaixo de pontes, mas, em grande número, a viver em contentores e comendo (imagine-se!) comida de cão. São, realmente, casos reais, que merecem a nossa atenção mais do que o discurso do líder do CDS/PP (nos congressos, o objectivo de se falar na imigração é outro).

Noutra ocasião, já em relação à construção europeia, Portas propõe uma "eurocalmia" ou "euroesclarecimento". Ora, para alguém que, há bem pouco tempo, se mostrava indignado com as delegações de soberania do nosso país para o processo de "identidade europeia", é um discurso "vegetal" típico de Paulo Portas. Vegetal porque pouco tem de substância, fala-se muito e diz-se pouco sobre um assunto que precisa de análise, reflexão e debate (crítico, de preferência), e não de calma.

O líder do Partido Popular, que falou bastante em CDS, fez uma aproximação à realidade democrata-cristã e apelou às bases do partido e aos dirigentes. Tornou-se bastante óbvio que Portas continua a cercar-se das opções do PSD e a pressionar os democratas para uma coligação. A resposta parece que terá de ser dada em breve.
Quem fala assim não é gago, mas alguma coisa terá de ser...

Quarta-feira, Setembro 24, 2003

30 anos à deriva

Comemora-se hoje, na Guiné-Bissau, o 30º aniversário da "declaração" de independência (1973) do país. Isto 10 dias depois de se dar outro golpe militar tão típico das "repúblicas" africanas da pós-descolonização portuguesa.
É típico pela rapidez com que foi apoiada, mas a lentidão com que forma um novo governo ou, sequer, escolhe um número mínimo de homens que reúnam o consenso de toda a população.
Pela importância e simpatia que lhes atribuímos no nosso país, os guineenses merecem, mas devem, dar o exemplo de como (re)construír um país de elevado potencial. África poderia ser diferente do que é hoje... merece muito mais a nossa atenção (e não apenas os nossos fundos que desaparecem na embrenhosa selva de corrupção política) do que a obsoleta e demorada "questão do Médio-Oriente".

Terça-feira, Setembro 23, 2003

Freud

Faz hoje 64 anos da morte de Sigmund Freud. Este austríaco revolucionou o pensamento ocidental e, mais tarde, toda a cultura mundial do inconsciente. Foi um dos "fundadores" do método psicanalítico e mudou para sempre as relações sociais e humanas, bem como a própria psicologia, quando afirmou haver uma carga sexual inata, a libido.
Com a intensificação da actividade do Partido "Nazi" de Hitler e a anexação da Áustria, Freud viu-se obrigado a fugir para Inglaterra em 1938.

Viria a falecer a 23 de Setembro de 1939 em Londres, com 83 anos.

Mais um...

No "Expresso" desta semana vinha a notícia: Sai mais um renovador do PCP. Para ser franco, não sei o que dizer sobre isto...

João Semedo, outro renovador no seio dos comunistas, repete o que todos sabemos: nada há a fazer e nada há a esperar.
O mesmo Semedo acusa o Partido Comunista de "sectarismo esquerdizante que o cega".
Refere ainda que os dirigentes do PC substituem o debate político pela purga fratricida, disciplinar ou administrativa, dos militantes que recusam ser colonizados à força pela cartilha imposta pela direcção.

João Semedo foi militante do PCP durante 30 anos, incluíndo durante o regime salazarista.

O bom Sampaio

Hoje, um pequeno puxão de orelhas ao Bruno do Desesperada Esperança. Não sendo grave a sua "afirmação", também deve ser cautelosa. Falo do seu posto referente ao discurso de Sampaio na ONU. É um caso típico, penso, de "there's more to it than the eye can see".

O nosso Presidente da República mostrou que está consciente das suas obrigações como Presidente que é, e não como um mero membro do Governo. É, sim, um representante de Portugal no Mundo, o mais importante diplomata e embaixador português. A intervenção na sede das Nações Unidas é inquestionável.
O tipo de intervenção nadou em demagogia. É sempre típico quando se fala daquela forma "politicamente correcta" e se refere um contexto que a todos toca (guerra no Iraque) para abordar e introduzir ou reintroduzir outro no debate (a SIDA). O que interessa aqui é isto: não mudou nada nem motivou mais ninguém à luta contra essa doença. O que fez foi, simplesmente, mostrar que os políticos e humanistas de todo o mundo estão despertos e não apenas seguindo os temas mediáticos.
Portanto, o seu discurso não deve ser escarnecido. Sampaio é um político inteligente e, na minha opinião, alguém que sabe "usar" acima da média o cargo que ocupa neste momento.

Pacheco Pereira em directo

No passado domingo Pacheco Pereira iniciou a sua actividade como comentador permanente da SIC. Uma decisão e uma escolha importantes para qualquer canal que queira conciliar a informação com a competitividade "comercial" no domínio das audiências. Claro que este processo não pode passar despercebido pela sua inocuidade e precariedade.
Primeiro, e mais importante que tudo o resto, é que há aqui uma clara predominância do factor concorrência sobre a essência da informação e do debate. Houve uma óbvia coincidência horária e de formato com o "espaço" do comentador da TVI da mesma hora (aliás, até Marcelo Rebelo de Sousa viu-se obrigado a começar mais cedo o seu comentário semanal). Mas este é apenas um dos vértices da questão.
Depois, há que notar ainda a tentativa de molde do formato do espaço de comentário do professor de Direito (da TVI para a SIC), resultando num ténue espaço de canto para dar a ideia de um "canto da casa" reservado para Pacheco Pereira. Mas na SIC, tendencialmente mais opinativa que a RTP, mas relativamente mais moderada que a TVI, Pacheco Pereira encontrou uma sala escurecida por temas limitados e por um tempo absurdamente reduzido.

E é este tempo que, para mim, mais denuncia o objectivo do Jornal da SIC, ainda muito incerto quanto à gestão de tempo para os novos comentadores. Na minha opinião, há dois grandes géneros de comentadores: aqueles ocasionais, que se ocupam de temas específicos e podendo o seu tempo de intervenção ser intercalado e indefinido; e os comentadores permanentes, geralmente personalidades estabelecidas e simbólicas (repare que é, principalmente, o simbolismo que é visado), que devem dar uma opinião clara, desenvolvida e individual sobre os temas mais importantes. Pacheco Pereira falou 15 minutos, talvez...
Portanto, achei muitíssimo forçada a decisão de conceder a Pacheco Pereira um "espaço" para comentário e, no fim, enclausurarem a sua opinião em menos de duas dezenas de minutos de concorrência televisiva.
Espero que tanto a SIC e o Jornal da Noite como o eurodeputado compreendam a importância que tem e deve ter um comentador televisivo. Esqueçamos a demagogia televisiva e respeitemos as figuras públicas. Pois menos de 20 minutos não esclarecem ninguém, e muito menos mudam o país...

Quinta-feira, Setembro 11, 2003

A 11 de Setembro...

O Sol ia já em alto quando o grito de «Allah hu Acbar!» soou no centro dos esquadrões do Islame. Era a voz sonora e retumbante de Táriq. Repetido por milhares de bocas, este grito restrugiu e coou, como o estourar de trovoada distante, pelos pendores das serras e murmurou e perdeu-se pelos desfiladeiros e vales. A cavalaria árabe, enristando as lanças, arremessou-se pela planície e desapareceu num turbilhão de pó.

-Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero

Segunda-feira, Setembro 08, 2003

O Partido e a Festa

A forma como Carlos Carvalhas, secretário-geral do PCP, se dirigiu aos seus ouvintes (militantes e não-militantes), na Festa do Avante, no discurso final de ontem, referindo, entre outros assuntos mais importantes, o tema da lei de financiamento de partidos, é bastante vergonhosa.
Talvez pela minha inexperiência em tácticas políticas de "massas", tenha achado perfeitamente "agressiva" a forma como Carvalhas abordou esta tema. O dirigente comunista utilizou uma demagogia muito perigosa para incitar os que o ouviam a uma oposição directa às políticas do Governo e, consequentemente, a um crescente desrespeito pelas campanhas políticas equilibradas. Ao alertar os comunistas e os presentes na Festa do Avante (atenção, presentes na FESTA) que "o PSD poderá acabar com a Festa do Avante", Carlos carvalhas demonstrou um oportunismo hipócrita e cruelmente mordaz. Aproveitou-se da festividade do momento para quase compelir a uma formação de "milícias do Avante" em defesa da festa.
Festa essa em que os próprios militantes pagam para ir trabalhar (e montam o recinto de borla), e cujo dinheiro ganho em tortas e bifanas é canalizado para uma campanha política comunista elitista e incondicional. Porque é que o Partido Comunista deverá ter mais vantagens políticas (nomeadamente à luz da nova lei de financiamento de partidos) que os outros partidos políticos da oposição? Será um Partido de cariz mítico? Devemos alguma especial devoção e respeito ao PCP pelo 25 de Abril? Penso que não...

Domingo, Agosto 31, 2003

2 meses

Fez ontem dois meses que dei à luz um feto problemático. O Metamorfopsia nasceu de uma intervenção intelectual forçada. A contenção que me era recomendada não foi suficiente para evitar a solução por que optei. A solução para as dores de cabeça teve de ser a criação deste blog, o Metamorfopsia, como forma de escape da inércia diária, do vazio do quotidiano. Pouco a pouco, vou aprendendo a lidar com mais aspectos da "world wide web" e do "blogspot". Agradeço a atenção dos que lêem algo do que eu escrevo. Mesmo um leitor já é gratificante. Acho que qualquer pessoa com acesso à Internet devia beneficiar desta oportunidade de soltar o livre pensamento e a escrita.
Acho que, em geral, é um bom balanço.

Ayatollah Mohammed Baqir al-Hakim

Para quem não conhece este nome (incluíndo eu) e se mantém cómoda e ligeiramente indiferente aos dirigentes "políticos" do Médio-Oriente, o "ayatollah" Hakim era o mais apoiado líder dos xiitas no Iraque. Era, até ser vitimado, entre quase uma centena de mortos e o dobro de feridos, num ataque terrorista efectuado na sexta-feira em Najaf.
O ataque, simbolicamente na forma de um "carro-bomba", foi dirigido a uma rotineira oração conjunta diante da mesquita do imã Ali, em Najaf, local santo para a comunidade islâmica e, portanto, deixado, por respeito, desocupado pelas forças da "coligação".

O que está aqui em causa não é a mera e óbvia importância política de Hakim, mas sim a sua incidência religiosa na população iraquiana xiita e...claro está, a sua tolerância face aos ocupantes europeus e americanos. Atenção, tolerância porque não colaboração. Hakim defendia a predominância dos valores democráticos islâmicos, ainda que não desenvolvidos, em detrimento da "fácil" instauração de um regime democrático de modelo ocidental, regime que sempre considerei desenquadrado e inaceitável para os Estados sob a influência religiosa do Islão. Perante os xiitas e todos os iraquianos, Hakim apelava também, entre outras coisas, a um "fim pacífico da ocupação anglo-americana". Apenas este facto já lhe concede o estatuto de representante do povo iraquiano, e "mártir" de uma guerra que nada tem de santa.

Também na sexta-feira, embora ainda na ignorância do atentado terrorista, José Pacheco Pereira (JPP) alertava: o factor mais importante para explicar muito do que se passa hoje no Iraque não é a “ocupação” americana do país, mas sim a verdadeira revolução social e política que esta provocou – o fim do poder hegemónico da minoria sunita face à maioria chiita.
É uma afirmação que eu considero ausente de desenvolvimentos porque deles não precisa para ser forte e repleta de sentido. Concordo completamente com JPP neste assunto, tal como noutros tocantes ao "tema" da ocupação. Já dizia JPP referente a um assunto intimamente ligado: Porque é que não se pode dizer que Sérgio Vieira de Mello morreu pelo mesmo objectivo por que morrem os soldados americanos? Por ter sido funcionário da ONU?. Hakim pertencia ao mesmo objectivo: o de voltar a casa com a noção de missão cumprida e de ter ajudado a construír uma democracia e a reconstruír um povo, excepto que, neste caso específico, o "ayatollah" já estava em casa e eram a sua casa e o seu povo que estavam em jogo na sua missão. A sua morte é um símbolo dos interesses políticos e da ambição de poder que ainda pairam no Iraque.

Também, ontem, no seu Desesperada Esperança, o Bruno cita o The Economist para ajudar à sua visão de que há uma, ou mais do que uma, facção que luta (literalmente, luta) para tornar o Iraque num país vulnerável a uma anarquia e, assim, causar o abandono da via democrática que se pretende para o país. Essa facção é, no entanto, uma facção sem cara, sem face nem verso, impossível de surpreender. A suspeição extrema seria destruír tudo o que se contruíu até agora, e é esse o objectivo dessa facção (provavelmente sunita).
A 20 de Agosto, referindo o atentado à sede da ONU, eu mesmo escrevi: neste caso, meus senhores, penso que não há uma ponta de fundamentalismo islâmico por que pegar. Não tem NADA a ver com religião. Não tem nada a ver com desígnios de Alá. Não pertence ao coração mesmo do muçulmano mais devoto. Penso que o atentado de sexta-feira consolidou a minha afirmação e a minha perspectiva.
Para uma minoria que se habituou à cómoda cadeira do poder sobre todos os órgãos iraquianos e a um forte regime apoiado no terror ditatorial, a ocupação "estrangeira" não é a ocupação americana e britânica, é a oposição civil, militar, religiosa e humanitária aos seus desígnios de legítimos e incontestados governantes do Iraque e da riqueza petrolífera do país. E é graças a diplomatas como Ana Gomes, que tudo dizem e fazem para surgir no pequeno ecrã e subir na hierarquia, que essa minoria se barrica cada vez mais nos confins do Iraque, e duvido que a sua presença esteja para acabar.

Sexta-feira, Agosto 29, 2003

Frase do dia

"O Porto não pode perder um segundo na área do Milan - UM SEGUNDO É IMENSO TEMPO!"

- Gabriel Alves, in AC Milan-FC Porto, RTP1

Irrepreensível...

Segunda-feira, Agosto 25, 2003

Vida, morte e acção

A vida não é gratuita. O processo de morte estende-se desde a nossa gestação até ao cessar do nosso respirar. Vida é o que fazemos para melhorar o Mundo. De contrário o nosso dom deixa de ser vida e passa a entender-se como mera sobrevivência. E disto não nos distinguimos dos restantes seres vivos. Cabe-nos a nós, como seres racionalmente dominantes, criar as condições necessárias para que se chegue a um estado o mais próximo possível da perfeição, de forma a haver uma mínima harmonia entre os seres, e entre estes e o planeta.
Mas é completamente infundado pensarmos que devemos adaptar a Natureza às necessidades do Homem porque somos um ser, à partida, superior às outras espécies. Pelo contrário, como ser superior deveríamos ter, a priori, como principal objectivo, a construção de uma mentalidade e de uma preparação cultural e biológica para nos adaptarmos, nós mesmos, à Natureza e às condições por esta imposta, embora tal não tenha, necessariamente, de ser uma rendição incondicional à vontade alheia ao ser humano. A verdade é que o controlo total do Homem sobre o Universo nunca acontecerá. Aliás, tal não se pode encarar como pessimismo. Podemos reparar que nem na literatura, nos nossos sonhos mais utópicos, tal situação possa vir a acontecer realmente.
No entanto, acredito que todo este conceito possa vir a ser ambíguo de forma a estar sujeito a todo o tipo de questões e de problemáticas, na medida em que podemos colocar em foco o real potencial do Homem, a sua relação com a Natureza: afinal de contas, o Homem é um elemento da Natureza – certamente que os mosquitos nos desaprovam e classificam como adversidades à sua sobrevivência e felicidade. Ou, por outro lado, podemos sempre receber a tradicional lição cristã sobre a Criação, deslocando a origem do Homem para um par de exploradores nus na Terra enviados por uma entidade divina (que, na minha opinião, mais não são que personagens de uma literatura antiga na linha de Robinson Crusoe).
Afinal de contas, é impossível atingir uma perfeição das coisas, e isso é uma realidade por qualquer um, mesmo para os verdadeiros crentes numa fé católica cristã, pois, mesmo o mais puro e poderoso dos seres, não possui os meios para trazer a felicidade a todos os indivíduos – de facto não traz a nenhum, é este que, com a sua fé em incandescência, se compromete a atingir e atinge fins que antes pensava inatingíveis. A verdade é que não devemos atribuir todas as culpas a ou desculpabilizar totalmente alguém que pensávamos omnipotente.
A verdade é que possuir a sabedoria não é possuir todas as respostas, é estar ciente de toda a realidade, de todos os problemas, de todos os seres, de todas as necessidades, e é da instabilidade dessa realidade que surgem os problemas, geralmente inesperados.

Soneto do cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão Ferreira, Os Quatro Cantos do Tempo

O Petrarca de Vasco

No Abrupto, Pacheco Pereira faz uma alusão ao recente trabalho de Vasco Graça Moura, a tradução de Petrarca. Graça Moura, um dos maiores poetas e tradutores do nosso tempo (não referi dos maiores portugueses, mas sim dos maiores!), empresta, ultimamente, a mestria da sua escrita precisa, concisa e romântica à tradução das mais conhecidas obras de Petrarca. Entre elas, o Canzoniere, do qual poderão ler um excerto do trabalho de Vasco no Abrupto. Talvez dê, pela primeira vez, uma vista de olhos a uma obra petrarquiana, mas apenas e só porque confio inteiramente na grandiosidade do respeito que Graça Moura tem pela integridade dos clássicos (respeito que falta mesmo aos "maiores" tradutores).
Para mostrar que não são os prémios que fazem os maiores escritores do nosso tempo...

Domingo, Agosto 24, 2003

A persistência da memória

No seu artigo A Necessidade de Persistir 4, de 22 de Agosto, Bruno Alves parte de uma citação de João Marques de Almeida para fazer uma observação acerca do terrorismo internacional. O Bruno refere que o mundo livre está em guerra. Ora, esta última expressão pode ser enganadora quando se fala da "questão" do Médio-Oriente.
No caso específico israelo-palestiniano, há muitas questões esquecidas, e muitos argumentos sobrevalorizados, entre eles a igual "necessidade de persistir" do povo israelita que eu sempre rejeitei. Nunca aceitei a relação entre uma força militar prestada a um conflito permanente, não só de guerra urbana mas também de "guerra moderna", e um passado redutor que os ligou eternamente ao Holocausto, no papel de vítima principal. Duvido que hoje hajam preconceitos suficientes na direcção do povo judaico e, especificamente, internacional, para Sharon e seu executivo argumentarem moralmente uma atitude que, até há bem pouco tempo, não ficava abaixo dos exércitos Vermelho e Nazi, da década de 40, e os sérvios, croatas e outras facções que contribuíram para um barril de pólvora étnico nos Balcãs (como se sabe, a perseguição étnica e religiosa naquela região foi das mais desumanas situações dos anos 90).
O que eu quero aqui introduzir às afirmações do Bruno é a percepção de que não é o facto de haver uma possibilidade de eleger representantes políticos que legitima, ou não, um grupo extremista e radical. Todos nós sabemos, acreditando ou não, que todos ou quase todos os grupos terroristas são apoiados, e mesmo não raras vezes financiados, por governos, Estados ou regiões reconhecidos internacionalmente como democráticos. Os Tchechenos, o IRA, a ETA, são casos disso.
No caso iraquiano, todos sabemos que não é o facto do povo não ser livre que justifica uma guerra contra o Saddam, mas sim o próprio passado e potencial futuro de Saddam. E isso influencia igualmente o terrorismo bem evidente no atentado à Sede da ONU. É um terrorismo que visa desferir sérios golpes às "pontes" entre Ocidente e Oriente, com clara predominância cultural dos ocidentais. Que tem e terá sempre como objectivo o bloqueio à entrada num "Novo Mundo", numa "aldeia global", que se torna inevitável a cada dia que passa. É nesse único objectivo que o terrorismo e a população caminham lado-a-lado, e é ao abordá-lo que devemos ter cautela para não ver o terrorismo transformado em nova guerra. Isto porque a liberdade já pouco tem de ideologia, tornou-se relativa como os conceitos de justiça, amor e fé.
Como escrevia Helena Matos no Público de ontem, Os terroristas não são criminosos de delito comum. Não precisam dum móbil para o crime. Já o têm. O móbil está nesta sociedade para cujo bem-estar contribuíram mais homens como Henry Ford do que Karl Marx.

Quarta-feira, Agosto 20, 2003

"Politicamente correcto"

Não entro em hipocrisias. Admito que de Vieira de Mello conhecia pouco. Conhecia a sua actuação pouco mais do que conhecia o seu carácter. No entanto, bastaram-me 10 minutos a ler artigos e biografias sobre este homem para ser capaz de personificar nele o espírito de revolta contra o terrorismo. Terrorismo iraquiano, terrorismo israelita, terrorismo de grupos palestinianos, dos "homens" de Putin, dos etarras, dos irlandeses (deveras mais complexo e ambíguo), tudo se mete, irracional e ingenuamente, admito, no mesmo saco numa altura destas.
Pedro Lomba escreveu hoje: "Sérgio Vieira de Melo acaba de ser morto num atentado em Bagdad. Amigos, a cara sempre diz tudo. Olhem para o rosto do diplomata: é um rosto de um homem bom, sério, dedicado. Os que o mataram são assassinos, são terroristas, são inimigos que nem as leis da guerra merecem."
Concordo e corroboro.

Um "mundo" distante

Penso que o atentado de hoje ao edifício da ONU em Baghdad foi um sério golpe desferido à imagem que tínhamos da situação do Iraque. Não tem nada a ver com moral, com política, e espero bem que não tenha nada a ver com ícones. O que se passou hoje foi assassínio, simplesmente um acto de assassinato (neste caso está longe de ser sequer um homicídio).
Este acontecimento, para além nos fazer a todos dar um grande tombo ao pensarmos no real objectivo daquele "departamento" da ONU, também me faz, pelo menos a mim, pensar no futuro daquela região.
Eu defendo a laicização do Estado, seja ele qual fôr, a par com uma liberdade de religiões. Atenção, liberdade, não fanatismo ou fundamentalismo.
Mas neste caso, meus senhores, penso que não há uma ponta de fundamentalismo islâmico por que pegar. Não tem NADA a ver com religião. Não tem nada a ver com desígnios de Alá. Não pertence ao coração mesmo do muçulmano mais devoto.
Atacar um posto de ajuda humanitária e diplomática é um sério acesso de desumanidade. E não sobreponham camadas de "politiquices" ao que aconteceu, pois não vai nunca causar erosão neste exemplo.
Para quem quer virar a cabeça quando referido terrorismo contra "símbolos ocidentais", tem aqui um bom exemplo para reflectir sobre o processo de paz no Iraque. Eu fi-lo, reflecti mas continuo a não chegar a nenhuma conclusão, pelo menos uma conclusão racional... E duvido que as pessoas que elaboraram o escrutínio neste atentado também consigam chegar.

Segunda-feira, Agosto 18, 2003

Apagão

No Liberdade de Expressão, João Miranda faz uma excelente análise ao editorial de Manuel de Carvalho no Público de Sábado. No editorial, Carvalho atribuía, como muitos outros analistas e mesmo "especialistas" (ultimamente tem renascido o termo "especialista") na matéria, a culpa do "apagão" do continente norte-americano à privatização das empresas de sistemas energéticos.
É um artigo interessante do Manuel de Carvalho e uma breve análise do João Miranda que aconselho a ser visitada.

Sábado, Agosto 16, 2003

O 4º poder

Tanto Bruno Alves como Paulo Ferreira têm-se ocupado a decompôr o conceito de "democracia directa" e, só por isso, vale a pena lá darem uma olhadela para ler ou (re)ler esses posts.
A "democracia directa" implica, pois, uma participação muito activa da população nas políticas de Estado (nos EUA pratica-se esse regime de "intervenção eleitoral" num grande número de Estados). Ora, como eu sempre afirmei, a opinião pública de uma população heterogénea é mais influenciável que uma criança de 9 anos. E, em Portugal, essa mesma opinião pública encontra-se muito entretida, em inúmeras situações, com "política cor-de-rosa" ou histórias paralelas (que, no fundo, nada têm de paralelo) acerca dos políticos ou autarcas.
De que vale investir em medidas a longo prazo se as críticas, os comentários e as opiniões da oposição se vêm a saber, primeiro, nos jornais e, só depois, na Assembleia?
Imaginem o que seria o nosso país ceder a uma variante de "democracia directa"...
O que seria dos políticos num país onde, para se retirar ou ler um jornal diário como o Público, DN, ou mesmo o Record, se tem de desviar os que estão à frente? Aqueles "jornais" que afirmam, nas maiores letras possíveis, Zé Maria é homossexual ou Violou-me numa noite de Verão...
Francamente, corremos um grande risco se deixarmos que este "4º poder" se consolide...

Comissão permanente

Os incêndios em Portugal, para além dos danos materiais, emocionais e, em muitos casos, permanentes que causaram, vieram animar o principal partido da oposição... e denunciar as suas reais preocupações. Note-se que não quero aqui dar notas como o professor Marcelo, mas apenas mostrar uma perspectiva do tema.
O PS mostrou, com a sua posição claramente partidária, quase tanta negligência quanto o executivo responsável pelos meios de combate às chamas e a "catástrofes". Ao apelar continuamente, na Assembleia da República, à realização de uma comissão de inquérito para apurar "responsabilidades políticas" no meio de tudo isto, Ferro Rodrigues mostrou que o Partido Socialista está a reduzir os acontecimentos a um círculo muito restrito, que é o da política. Para este caso, aproveito a noção de "país real" que Durão Barroso (re)instaurou nas últimas duas semanas. Ferro deveria ter aproveitado para dar ouvidos a uma população que sofreu e muito, e, assim, não só contribuir para uma oposição saudável mas também para medidas que controlassem o avanço da situação e previnam futuras semelhantes. Em vez disso, "bateu pé" no Parlamento até se encontrar isolado politicamente e ainda teve tempo para fazer, nas palavras de Pedro Duarte, "baixa política".
Por outro lado, uma "nota" bastante positiva para os parlamentares do PCP, entre eles Lino de Carvalho, que aproveitaram as sessões realizadas em paralelo com a preocupação e atenção pública com os incêndios florestais, para propôr a constituição de uma Comissão Permanente da Assembleia da República para os incêndios florestais, visto que eles constituem uma das maiores ameaças naturais (e criminosas) ao nosso património. Por outras palavras, o PCP aproveitou para trabalhar para o povo português e cumprir uma função há muito esquecida da oposição na classe política em Portugal: contribuir para uma melhor legislatura e, sobretudo, para um melhor país.
Isto porque há áreas na política que ressurgem apenas uma vez por ano, e que atingem não o Governo, mas os portugueses. Não queiram os senhores do PS fazer "fogo-posto" na Assembleia, se não têm o mérito de contribuír para anular por completo as verdadeiras chamas, hoje... e amanhã.

Blaster

Mesmo de férias não estamos livres de "insectos" como são os hackers. Qualquer que seja a razão que os levou a isso, o facto é que eles se esmeraram e, graças a tal, andou (ou anda) por aí à solta uma espécie de vírus, um tal Blaster, que não me deixou retomar o "blogging" imediatamente. Vai levar ainda uns dias a pôr tudo isto operacional. Mas, com o problema do Blaster resolvido, basta-me simpelsmente pôr ao corrente da actualidade.
Godspeed...

Sexta-feira, Agosto 08, 2003

Eleições na Califórnia

Depois de ter anunciado a sua intenção de concorrer para Governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger declarou, dia 6, que ía mesmo entrar na corrida. Portanto, é oficial: Schwarzenegger é um dos candidatos, pelos Republicanos, ao cargo de governador daquele estado, ocupado, por enquanto, por Gray Davis, do Partido Democrata. A 7 de Outubro, em princípio começam as decisões políticas - através de um referendo acerca da demissão de Davis e de uma simultânea eleição para o substituto, os californianos ficarão a saber, por essa altura, quem é o seu novo governador (ou se se mantém o actual, o que é pouco provável).

Este episódio seria, em parte, normal, se não fosse a origem deste candidato: ex-Mister Universo, actor de (maioritariamente) filmes de acção, e m